Archive for janeiro 4th, 2012

4 de janeiro de 2012

A reportagem do ano

A revista “Piauí” de agosto de 2011 publicou um artigo intitulado Minha dor não sai no jornal*, escrito por um jornalista anônimo, que há cerca de quatro anos trabalhava para o jornal “O Dia” do Rio de Janeiro e fora convocado pelo então diretor, Alexandre Freeland, para fazer uma reportagem investigativa sobre a atuação de milícias numa favela carioca, que deveria ser mantida em sigilo. Depois de se passar por morador durante alguns dias, ele descobriu que um deputado e um vereador estavam envolvidos com as atividades ilícitas dos milicianos naquele aglomerado. Na noite em que ele relatou por telefone esta informação à direção do jornal, os milicianos o capturaram. Ele e a repórter foram torturados brutalmente. O mais revoltante é que quem informou à milícia da presença dos jornalistas foi gente do próprio jornal. Eles têm gente em todas as redações de jornal e televisão do Rio de Janeiro. O jornalista não foi morto para viver em constante terror. Esta foi a sentença que seus algozes lhe imputaram à eternidade. Hoje, depois de tanto tempo, ele vive sem a família e os amigos, longe do Brasil, com uma outra identidade por não ter garantia de vida por parte do Estado brasileiro. Seu relato é impressionante. Tristíssimo, mas imprescindível.

O suplício do jornalista

*http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/historia-pessoal/minha-dor-nao-sai-no-jornal

4 de janeiro de 2012

A força das águas

Depois de dez dias longe de Campos Altos, estado de Minas Gerais, onde tenho o prazer de viver, peguei novamente a rodovia federal 262, sentido Corumbá a partir de Belo Horizonte. A estação chuvosa chegou às Alterosas com o vigor dos tempos de menino, em que me entediava à janela de casa torcendo para que o toró desse uma trégua para as brincadeiras ao ar livre. Nos últimos anos, entretanto, os desequilíbrios ambientais decorrentes do padrão de consumo capitalista chegaram ao ponto de tornar recorrentes as tragédias climáticas. Sejam as secas prolongadas no Rio Grande do Sul, sejam os tornados em Santa Catarina, ou as inundações de São Paulo e Rio de Janeiro. Este ano foi a vez de muita chuva em Minas. Chove-se muito, é verdade, mas não mais do que já choveu um dia. A irresponsabilidade do homem no trato da natureza exacerba as consequências negativas dos fenômenos naturais. Desmata-se onde não se deve, retira-se a proteção natural de solos frágeis, aumenta-se o risco de deslizamento e erosão, que tanto prejudicam as populações e o setor agrícola. Por isso, uma diminuição das áreas de conservação de cobertura vegetal nativa nesses locais abre caminho à eliminação das proteções naturais aos desastres por que passa o sudeste do País. O que já está ruim, piorará se os topos de morros, as matas ciliares e as florestas de encostas íngremes não forem preservadas, como propõe o projeto do novo Código Florestal brasileiro. A chuva nunca foi inimiga da nossa gente. Os rios caudalosos fazem parte de nossa paisagem. Só quem vê, como hoje eu vi, a magnitude atual do volume dos rios Pará, em Pitangui, e Lambari, em Araújos, percebe o quão bem faz a água por aqui.

O Rio São Francisco em Pompéu, Minas Gerais.