Será que sua roupa foi feita por escravo?

O Poder Público retirou, nos últimos 16 anos, mais de 40.000 trabalhadores da condição de escravo. Não se trata de uma afirmação sobre a China ou qualquer outro país autoritário onde a luz da civilização não alcance. Esse dado alarmante foi disponibilizado nos últimos dias pelo Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil. Além de se ter uma idéia da abrangência do escravismo no país, o governo federal atualizou a lista de empregadores que impõem aos seus empregados o estado de escravo. Em 2011, eram 294 o número de escravagistas brasileiros. Neste ano, o número subiu para 344. Um aumento de 17%, bem acima da inflação e do reajuste do salário mínimo. Segundo a Pastoral da Terra, o aumento do trabalho escravo rural em 2011 chegaria aos 23%. Presume-se, entretanto, que o número de escravos seja bem maior, pois eles são muito utilizados em fazendas de difícil acesso onde são constantemente vigiados por outros empregados (capatazes).

O mais trágico no escravismo contemporâneo é que não se assume como tal, travestindo-se de uma frágil liberdade de pacto entre as partes. Assim, o empregado seria livre para rescindir o contrato trabalhista a qualquer momento, mas como seus gastos com serviços prestados exclusivamente pelo empregador ultrapassam os valores recebidos a título da remuneração, sua dívida continua a aumentar por mais que ele trabalhe. Como as fazendas são isoladas, é o próprio empregador que vende a alimentação, cobra o aluguel de moradia, presta serviços médicos por valores muito maiores do que o cobrado normalmente. Mas, como diriam os economistas, o preço obedece à lei da oferta e da procura. Até o fim do século XIX, o escravo no Brasil trabalhava, não recebia, mas também não devia ao senhor. Hoje, o escravo no Brasil trabalha, não recebe e ainda deve ao empregador.

As atividades econômicas que mais utilizam o trabalho escravo são aquelas relativas ao setor primário, isto é, produção agropecuária e de mineração. Mas, também no setor secundário encontram-se muitos escravos, especialmente na produção têxtil. Não é à toa que, no Brasil, os estados do Pará e do Mato Grosso sejam os campeões no escravismo. No ano passado, a Construtora BS foi flagrada utilizando 38 escravos no canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, uma obra financiada pelo próprio governo federal.

O caso mais importante registrado atualmente foi a autuação da Zara, uma multinacional do setor têxtil, que utilizava sistematicamente mão-de-obra escrava na sua linha de produção, localizada na cidade de São Paulo. Os trabalhadores eram na sua maioria imigrantes ilegais que viviam e trabalhavam num imóvel produzindo roupas para a empresa em jornadas diárias de 16 a 20 horas. Os salários pagos aos empregados não eram fixos. O ambiente insalubre, sem ventilação e com pouca iluminação. As janelas eram mantidas fechadas para não chamar a atenção de curiosos que pudessem denunciar o crime. A Zara pagava R$2,00 a cada empregado por uma mercadoria vendida na loja por R$140,00. Uma mais-valia de 7.000%!

A defesa dos direitos fundamentais deve ser feita constantemente e com muita atenção e esmero. A escravidão foi abolida pela pena da princesa Isabel tarde, há quase 124 anos, e até hoje encontramos essa praga em nossa terra. A inserção do homem na sociedade do espetáculo obriga-o a procurar enxergar além da grossa maquiagem produzida pelo sistema Globeleza de comunicação internacional. Ainda bem que o homem é suficientemente esperto para conseguir utilizar as ferramentas de controle social em favor da liberdade. É com isso que se procura contribuir aqui.

  

Escravos no Brasil, em 1880 e 2010.

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