Quando a vida imita a arte: um foco de resistência política em São Paulo

Por Carolina Padilha Fedatto

Tenho tanto a dizer sobre isso que nem sei por onde começar… Acho que começarei com uma única indicação: Assistam a este vídeo! Mesmo que não leiam este texto até o fim, mesmo que não o comentem ou divulguem, pelo menos assistam ao vídeo. É fantástico! Ele foi produzido pela Left Hand Rotation, uma organização espanhola que extrapola os limites de qualquer categorização conhecida. Entrem na página deles e verão! São intelectuais, pensadores, artistas, cineastas, provocadores, gente inquieta com nosso mundo e disposta a fazer pensar por vias inusitadas. Enfim… Com a participação direta de Paula Ribas (fotógrafa e criadora da Associação Amoaluz), Simone Gatti (arquiteta e urbanista doutora pela FAU-USP) e Raquel Rolnik (urbanista, professora da FAU e relatora das Nações Unidas pelo direito à moradia), eles produziram um vídeo sobre os bairros Santa Efigênia e Luz em São Paulo que compõe o projeto Museo de los Desplazados, uma iniciativa que analisa (e coloca em prática) o papel da cultura nos processos de gentrificação no mundo todo. Hamburgo, Nova Iorque, Madrid, Istambul, Lisboa, Rio de Janeiro, Granada, Sarajevo, Londres, todas essas cidades foram palco de processos de deslocamento de pobres em consequência de programas de “requalificação” de espaços urbanos estratégicos.

Se o capital tem seu lugar assegurado, para onde mandar os deslocados? Para longe, é a resposta unânime dos alienados. Longe de onde? Responderia um judeu diaspórico no velho chiste europeu. Longe daqui, de nós, de quem paga seus impostos, trabalha honestamente e precisa de sossego e segurança replicaria nosso cidadão médio esquecendo-se de que o sistema capitalista produz restos sociais dos quais depende para se manter em equilíbrio, ainda que instável. O fato é que os interesses são múltiplos, as posições se dividem e, felizmente, há resistência. Todas as cidades que passam por processos de gentrificação lutam contra o aniquilamento de sua memória coletiva e contra a ocultação das desigualdades inerentes ao capitalismo. E o projeto espanhol as reúne, destaca e divulga de maneira genial.

A ordem do dia no bairro da Luz é o projeto Nova Luz, uma ação da prefeitura paulistana para “revitalizar” a região estigmatizada como “Cracolândia”. Este projeto parte da premissa de que não há vida naquele espaço, desconsidera a quantidade de vida que há na busca pela sobrevivência e na luta por moradia nas condições mais adversas. A proposta municipal é demolir 30% do centenário bairro, afastar moradores de rua, catadores de lixo e pobres em geral e conceder os espaços “vazios” à iniciativa privada. Isso tudo está sendo feito de modo muito perverso, pois alicia a cultura a favor da especulação imobiliária. É só lembrar que o bairro da Luz foi o escolhido para alocar espaços culturais como a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa e a Sala São Paulo. Mas também é preciso ressaltar a vocação histórica daquele espaço como lugar de acolhimento de pessoas pobres e imigrantes que reconstruíram suas vidas na Luz e construíram a Luz com suas vidas.

A beleza da discussão feita no vídeo que me sinto no dever de divulgar está justamente em perceber todas as contradições que estão em jogo e lutar por elas!

http://www.lefthandrotation.com/home/index.htm

http://www.lefthandrotation.com/museodesplazados/index.htm

http://www.lefthandrotation.com/museodesplazados/ficha_luz02.htm#paginacion

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: