Neoliberalismo: a estratégia do choque

Nos anos 1950, os professores do departamento de economia, da escola superior de administração e da faculdade de direito da Universidade de Chicago, instituíram uma forma de pensar as questões econômicas a partir da teoria dos preços que se tornaria o pano de fundo ideológico das grandes questões internacionais contemporâneas.

Esse seleto grupo de professores paulatinamente passou  a ser conhecido simplesmente como a “Escola de Chicago”, defensora de um liberalismo econômico radical, posteriormente batizado de “neoliberalismo”. Seus principais teóricos são George Stigler e Milton Friedman. Rejeitando qualquer interferência do Estado nas relações econômicas, a “Escola de Chicago” defendia o absolutismo da liberdade do mercado. Seu trabalho caracterizava-se por uma análise estatística da realidade, que tão mal fez ao mundo, pois como já dizia um querido professor, “nada mais irreal do que os dados estatísticos”.

O neoliberalismo de Chicago foi muito bem aceito pelos mais poderosos agentes econômicos de diferentes espaços territoriais, pois lhes garantia sob uma ótica científica e coerente, não apenas o direito, mas o dever de prosperar, pelo bem da economia. Segundo os professores, o mercado livre encontra sempre o equilíbrio ideal, isto é, a situação de maior ganho. O problema é que tal visão é privatista, tendendo sempre para a concentração de renda e o aumento das desigualdades sociais, pois encara o mercado com um espaço onde vige apenas a lei do mais forte, que tão bem fez para a natureza, conforme a teoria darwinista. Só que o homem não pode ser encarado como um animal incapaz de estabelecer relações culturais mais complexas que todos os outros.

Com a dramatização do abismo que separa os pouquíssimos ricos da grande massa de miseráveis, a tensão social atinge inevitavelmente graus elevadíssimos que ameaçam o mínimo de coesão necessária para o bom funcionamento, em seu seio, da economia, pois, por mais que não se queira aceitar, os ricos dependem do pobre para manter a máquina funcionando. Face a disparidade numérica entre os grupos, há que existir um freio às reivindicações da ralé para que os privilégios da elite sejam respeitados. Eis o único papel que o neoliberalismo, imaginado pela “Escola de Chicago”, permitiu ao Estado exercer: o mantenedor da desigualdade sócio-econômica.

O documentário “A estratégia do choque, o aparecimento dum capitalismo do desastre” (“The Shock Doctrine: the rise of disaster capitalism”), realizado em 2007 por Naomi Klein, analisa justamente a ligação estreita entre o capitalismo neoliberal, doutrinariamente desenvolvido nos anos 1950 na Universidade de Chicago, implementado pela primeira vez no Chile de Augusto Pinochet na década de 1970, copiado pelos vizinhos do Conesul, adotado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha da dupla Ronald Reagan e Margaret Tatcher, exportado para os países ocidentais nos anos seguintes, aceito pelo Leste europeu depois da queda do muro de Berlim em 1989, imposto no Oriente pela doutrina Bush de guerra ao terrorismo; em conexão com o aumento da presença do Estado no âmbito da violência.

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One Comment to “Neoliberalismo: a estratégia do choque”

  1. Preciso ainda uma vez parabenizar para o bilhantismo dos textos apresentados nos blogos. Os “colunistas” estão cada vez mais afiados com a leveza na escrita e a sobriedade na análise que não perde o fio!
    Parabéns! E obrigado pela iniciativa de criação de espaço tão importa como território do pensamento crítico sobre o Brasil.

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