O poder das torcidas organizadas

O jogador de futebol, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, que jogou profissionalmente entre 1974 e 1989, chegando a vestir a camisa canarinha em duas Copas do Mundo, afirmou, antes de falecer em 4 de dezembro de 2011, que há no Brasil hoje dois grande grupos políticos: o Movimento Sem Terra (MST) e as torcidas organizadas. Focando só nestas, o Dr. Sócrates ia além, acreditando que “o grau de politização das organizadas vai dar a linha do nosso futuro. Esses movimentos estão no nascedouro e têm a ver com mudança na sociedade. É mais profundo do que futebol.” Enquanto o Brasil espera um maior engajamento dos torcedores organizados no contexto político, há um lugar no planeta onde as teorias desse outro Sócrates tem sido comprovadas na prática.

A cidade alemã de Hamburgo não é só mundialmente conhecida por ser a cidade onde os Beatles debutaram em 1960, mas também e secundariamente por abrigar o maior porto do país, construído na foz do rio Elba, junto ao mar do Norte. Em termos de comércio, o porto de Hamburgo é o terceiro maior da Europa, conhecido também como porta de entrada do mundo na Alemanha.

Dentre os 105 bairros de Hamburgo, na margem direita do Elba, na parte norte do porto, localiza-se o Sankt Pauli onde moram cerca de 30.000 pessoas. O que torna o bairro de St. Pauli particularmente célebre é o fato de ser considerado um “bairro vermelho”, isto é, a zona de prostituição da cidade. Como diriam os antigos, área das casas de “rendez-vous”. Por isso mesmo, o St. Pauli sempre foi visto com desprezo pelos hamburgueses.

Nas redondezas, há um pequeno time de futebol, o FC St. Pauli, fundado em 1910, que disputa a segunda divisão do futebol nacional. Trata-se de um clube de futebol administrado efetivamente por seus torcedores. São ao todo 15.000 sócios que sustentam as despesas básicas, fora os patrocínios de praxe. Nada de investimentos milionários vindos de qualquer parte do mundo, sem lastro de limpeza, como acontecem com o Chelsea FC de Londres, comprado em 2003 por Roman Abramovich (bilionário russo acusado de sonegação, desvio de dinheiro, contrabando de diamantes de Angola), ou o próprio campeão mundial, o FC Barcelona, que estampa em seu fardamento depois de 111 anos de “virgindade” o patrocínio dos petrodólares da Qatar Foundation.

Nada de anormal se não fosse o comportamento de seus torcedores. Fora a paixão pelo time, seus fãs se unem em prol de outras bandeiras, fora do estádio. Preocupações de ordem política são compartilhadas pelos torcedores do FC St. Pauli ao ponto de constar nos estatutos do clube seu compromisso contra o fascismo, o racismo, a homofobia e o sexismo. Muitas vezes, eles chegam às vias de fato em jogos fora de casa contra neonazistas e hooligans. Os torcedores do FC St. Pauli também organizam periodicamente manifestações no bairro contra o aumento das desigualdades sociais na Alemanha.

Segundo pesquisas, o FC St. Pauli é o mais popular clube de futebol da Alemanha entre as mulheres. Em 2002, por exemplo, a publicidade da revista masculina Maxim teve que ser removida do estádio do time em resposta aos protestos da torcida que via nela uma ofensa às mulheres. Ciente de seu papel além do esporte, o torcedores do clube alemão adotaram a bandeira corsária como o símbolo de sua rebeldia pirata em favor da igualdade entre as pessoas.

Pegando a maior torcida organizada de cada estado da Federação, imaginem se os Gaviões da Fiel (SP), a Raça Rubro-Negra (RJ), a Galoucura (MG), os Leões da TUF (CE), os Fanáticos (PR), a Torcida do Jovem do Sport (PE), a Camisa 12 do Inter (RS) resolvessem colocar em pauta assuntos que transcendem a questão meramente futebolística? (http://organizadasbrasil.com/)

Sócrates, como em campo, anteviu bem o grande momento da peleja.

Escudo do St. Pauli FC e bandeira dos seus torcedores.

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