Xô, ecologia! É a crise!

 

As questões ecológicas não podem ser incluídas nas pautas de discussão do poder público apenas em tempos de bonança. Pelo contrário, é justamente quando uma sociedade se aproxima do fundo do poço, que surge a rara chance de um recomeço em que os erros do passado não devem ser repetidos. Nas crises, especialmente naquelas de natureza econômica, as preocupações ambientais devem se tornar diretrizes para a superação dos entraves produtivos com a garantia cada vez maior da manutenção do equilíbrio dos ecossistemas onde o futuro trabalho se realizará. Entretanto, presencia-se neste momento de agravamento da crise econômica mundial, especialmente europeia, iniciada em 2008 com a falência do banco Lehman Brothers, um afastamento cada vez maior entre a prática governamental e o discurso ambientalista.

Espanta ver a deterioração dos compromissos dos governos com o desenvolvimento ecologicamente sustentável, especialmente em 2012, ano em que as Nações Unidas realizarão no Brasil (Rio de Janeiro), depois de 20 anos da Eco-92 e 40 anos do vanguardista encontro de Estocolmo (Suécia), a terceira conferência internacional dedicada ao debate ecológico. Causa decepção o rápido esvaziamento da preocupação dos governos nacionais dos países desenvolvidos com o desenvolvimento econômico em consonância com a preservação do meio ambiente. Ainda mais que são esse países os grandes responsáveis pelos atuais índices de poluição e pelos impactos ambientais decorrentes do aquecimento global. Eles deveriam dar o exemplo àqueles que ainda estão em vias de desenvolvimento.

Em especial, chama a atenção o caso francês. Às vésperas das eleições presidenciais, o presidente Nicolas Sarkozy, que busca sua primeira reeleição (na França, ao contrário do Brasil, o presidente pode se reeleger ad infinitum) em meio ao caos da economia nacional, partiu para o ataque à la recherche du temps perdu, atropelando quem quer que esteja em seu caminho, especialmente os “lunáticos” ambientalistas.

Poucos dias depois dos títulos da dívida francesa terem sido rebaixados pela Standard & Poor’s, diante da manutenção da nota da Alemanha, a corda de Sarkozy tem apertado. O candidato socialista François Hollande se fortalece a cada dia. A crise econômica tem polarizado ainda mais o debate. Por isso, Sarkozy optou por deixar a máscara cair e assumiu uma plataforma favorável ao setor capitalista em detrimento das demandas trabalhistas e ecologistas.

Durante o Salão da Agricultura de Paris, Sarkozy disparou para cima do partido ecologista Europe Ecologie Les Verts (EELV) afirmando que “existe uma vertente política estranha que considera que o homem é o mal do planeta. Necessita-se comer, deve-se então trabalhar”.  Segundo o chefe de Estado, é preciso proteger o meio ambiente, mas deve-se “aliviar a pressão”. A preservação do meio ambiente não deve assim impedir que homem faça o que precisa.

Sarkozy erra ao tratar a questão ambientalista como se fosse uma utopia de alguns hippies desconectados da realidade. Na verdade, o ponto de partida do ambientalismo é o ser humano enquanto componente da natureza. Claro que homem precisa comer, beber, morar. Mas não só isso. O homem é um ser político que estabelece relações culturais com seus semelhantes induzidoras de demandas materiais, que devem ser necessariamente atendidas para que o espírito humano possa se desenvolver plenamente. A questão é mais o modo de produzir do que o que produzir. Sarkozy idiotiza as preocupações ambientais num país que se rotula a fina flor da civilização ocidental.

“Os caçadores não são os inimigos. Eles não são os adversários do meio ambiente.” Embora seja banal a frase de Sarkozy, ela é correta. Os inimigos do meio ambiente somos todos nós que consumimos desenfreadamente tudo: comida, água, petróleo, eletricidade, manufaturados. O tema das caçadas veio à baila em virtude de recente decisão do Conselho de Estado (última instância de jurisdição administrativa francesa) que decidiu antecipar a data de proibição da caça aos gansos a partir de um pedido de associações ecologistas. Tal decisão não tem nenhuma relevância nas grandes questões ambientais globais, muito menos do debate político sobre a sucessão presidencial. Sarkozy continua infelizmente a idiotizar o tema da ecologia, dando a entender que os ecologistas não se sabem pesar os fatos ao colocar no mesmo saco o aquecimento global e a população de gansos de alguma corrutela francesa.

A interferência do governo francês em favor da produção inconsequente também se deu no âmbito da agricultura transgênica. Reivindicações sociais quanto à qualidade da produção de alimentos são esquecidas em favor de um aumento da produtividade a todo o custo. Um caso emblemático aconteceu neste 17 de janeiro de 2012. O Alto Conselho das Biotecnologias da França (HCB, na sigla francesa) decidiu ser possível a coexistência de plantações convencionais e organismos geneticamente modificados (OGM), embora saliente que “a coexistência implica a ideia da presença fortuita de OGM em função de condições físicas do local”. O plano é liberar a produção de transgênicos independente do local da cultura. Mais uma vez o liberalismo contra os valores sociais.

A legislação francesa havia fixado em 2008 em 0,1% a taxa máxima de contaminação por transgênicos numa cultura convencional, enquanto que a União Europeia havia determinado uma taxa de contaminação máxima de 0,9% para os ramos agrícolas sem OGM. Além desses valores, a plantação é considerada como “lavoura contendo organismos geneticamente modificados” e deve ser informada ao público. Para o HCB, tendo em vista o padrão europeu de 0,9%, as medidas técnicas propostas hoje devem conseguir manter as lavouras livres de OGM. Entretanto, a taxa de 0,1%, outras medidas devem ser seguidas. Revogou-se tacitamente os limites impostos internamente pouco antes da crise econômica.

Algumas organizações ambientalistas defendem que mesmo uma contaminação de 0,1% é elevada, levando-se em conta que uma mesma semente pode, a cada safra, sofrer novas contaminações ao ponto de ultrapassar, sem o devido controle público, a taxa de 0,9% que obriga a etiquetagem do alimento. A distinção do que é transgênico ou não se tornaria uma paranoia, pois nem o governo o poderia dizer. Por último, há o questionamento do método de avaliação da taxa de contaminação aprovado pelo HCB. Antes, calculava-se a porcentagem de DNA transgênico no DNA total do vegetal. Agora, o cálculo é fundado sobre uma amostra escolhida ao azar. Azar, o nosso.

A linha que separa o convencional do transgênico é cada vez mais tênue.

 

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