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27 de janeiro de 2012

O silêncio público de Dilma

Sexta-feira, 20 de janeiro:

A Justiça Federal entende que a União é parte interessada no caso do Pinheirinho de São José dos Campos/SP e ordena a suspensão do cumprimento do mandado de reintegração de posse de um terreno de propriedade da massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas, expedido pela Justiça Estadual de São Paulo.

O senador Eduardo Suplicy se encontra com o presidente do TJSP, Ivan Sartori, em São Paulo/SP e acerta um prazo de 15 dias para o fim das negociações com os moradores, o que é comunicado à juíza Márcia Faria Mathey Loureiro da 6a. Vara Cível de São José dos Campos, que não despacha no processo de reintegração de posse.

Sábado, 21 de janeiro:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o Prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, são informados dos termos do acordo feito na véspera no gabinete do presidente do TJSP.

Suplicy se encontra com os representantes do Pinheirinho em São José dos Campos para comunicar que o governo estadual suspenderia todas as medidas de remoção nos 15 dias seguintes a fim de manter o diálogo entre as partes interessadas.

Em São Paulo, Sartori, traindo o acordo com o senador, expede ordem ao governo estadual para a mobilização da Polícia Militar com o objetivo de cumprir imediatamente o mandado de reintegração de posse, devendo repelir qualquer óbice inclusive forças policiais federais. Alckmin, desobedecendo uma decisão da Justiça Federal, coloca milhares de policiais militares para desocupar o Pinheirinho.

Domingo, 22 de janeiro:

Começa em São José dos Campos a operação de reintegração de posse pela Polícia Militar em que são presos 18 civis, feridas dezenas de pessoas e mortos sete cidadãos cujos corpos são enviados clandestinamente ao IML de São Paulo, segundo relatos de testemunhas.

Em São Paulo, Suplicy, depois de 1h30 de espera, é recebido por Alckmin que lhe engana afirmando que a decisão da Justiça paulista “vale” mais que a federal.

Enquanto isso, o secretário da Presidência para a articulação social, Paulo Maldos, que negociava com os moradores do Pinheirinho é ferido por uma bala de borracha. Até mesmo alguns agentes da Polícia Rodoviária Federal tiveram que se esconder de tiros disparados pela polícia paulista em conformidade com as ordens do presidente do TJSP.

Em Brasília, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, diz que o governo federal não agiria no Pinheirinho como o governo estadual, mas também não agiu de forma alguma. Omissão dolosa da União no momento em que acontecia as ilegalidades em São Paulo.

Dilma permanece em silêncio…

Segunda-feira, 23 de janeiro:

Mesmo com o Pinheirinho completamente esvaziado pelas forças de ordem, a imprensa credenciada não é autorizada a entrar na área. Perto dali, no centro de triagem construído às pressas pelo poder público desprovido das mínimas condições para abrigar seres humanos, os policiais militares continuavam a agredir os ex-moradores que ali estavam alojados.

Alberto Goldman, presidente interino do PSDB, publica uma nota em que reclama da “deplorável intromissão” do governo federal nos assuntos do estado, como se as palavras de Gilberto Carvalho e de Maldos significassem alguma interferência da União em São Paulo.

Pressionado pela opinião pública, Alckmin, chefe do poder executivo estadual e responsável pela Polícia Militar, tenta justificar as arbitrariedades injustificáveis, chegando ao ponto de ter que ser defendido pelo desembargador Sartori que, inconstitucionalmente, declara que foi a presidência do TJSP que comandou a ação policial.

Dilma permanece em silêncio…

Terça-feira, 24 de janeiro:

As últimas habitações do Pinheirinho eram enfim destruídas sem que houvesse tido tempo de os ex-moradores retirarem seus móveis. Os pertences dos milhares de refugiados internos foram para o lixo junto com o entulho das casas.

Há rumores de que um eventual traçado do trem-bala ligando São Paulo ao Rio de Janeiro/RJ passaria muito perto do Pinheirinho, o que valorizaria ainda mais o mercado imobiliários local. Desde 2004, quando a área começou a ser ocupada, até a data da reintegração de posse, o preço do metro quadrado do local aumento 2.500%.

Dilma permanece em silêncio…

Quarta-feira, 25 de janeiro:

Aniversário de São Paulo, feriado municipal. Milhares de manifestantes se dirigem à Sé onde ocorre uma missa em homenagem à cidade sem a presença de Alckmin, membro da Opus Dei. Achando que não tinha nada a ver com o imbróglio, o prefeito Gilberto Kassab comparece ao evento e acaba recebendo muitas vaias e alguns ovos por parte dos indignados. A Polícia Militar responde com gás de pimenta, cassetetes, bombas e tiros de borracha.

No Fórum Social Temático de Porto Alegre/RS, Dilma permanece em silêncio…

Quinta-feira, 26 de janeiro:

No Rio de Janeiro, desabam três edifícios na região central, causando a morte de várias pessoas. Dilma enfim se pronuncia em solidariedade às vítimas, mas só aos cariocas.

Sobre o Pinheirinho, Dilma permanece em silêncio…

Conclusões

Primus:

Quando a injustiça vem de causa natural, a Dilma rompe o silêncio.

Quando a injustiça vem de causa política, a Dilma permanece em silêncio…

Secundus:

Ou Dilma, diante de arbitrariedades, violências e ameaças da oposição, tem medo de perder o equilíbrio político e, consequentemente, as boas condições de governabilidade em tempos de crise econômica mundial;

ou ela espera o momento mais apropriado para acertar as contas com aqueles que ultrapassaram os limites legais e éticos da ação política.

Estão abertas as apostas.

Enquanto isso, Dilma permanece em silêncio…*

*Dilma teve que comentar o episódio na quinta-feira, 26 de janeiro, em reunião fechada com cerca de 90 representantes do comitê internacional do Fórum Social Mundial, em um hotel na capital gaúcha. A presidenta foi provocada a tocar no assunto pelo empresário Oded Grajew, ex-presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, segundo relato feito à reportagem por uma pessoa presente à reunião.

P.S.: Este artigo é uma homenagem ao meu grande amigo e aniversariante do dia, Bruno Valle, companheiro de arquibancada do Mineirão.

27 de janeiro de 2012

Das coincidências ou de como toda história é remorso

Por Carolina Padilha Fedatto*

Esse é um relato de viagem e suas coincidências. Na virada do ano que passou, percorremos um trecho da Estrada Real, de Diamantina a Ouro Preto. Após um tempo fora do país, achamos por bem nos entregarmos à primeira estrada oficial brasileira, um velho caminho que derramava nossas riquezas até os navios portugueses e que poderia, naquele fim de ano, dar vazão ao desejo de reencontrar diversos brasis. A região da ER é hoje objeto contraditório de muita publicidade e abandono, o que exalta nossas tradições coloniais e ao mesmo tempo relega pequenas cidades e povoados ao quase isolamento.

Tentamos ao máximo permanecer na Estrada Real, tal como a seguiam as mulas carregadas de valores, mas o trajeto aberto e consagrado pelo interesse exploratório português se deteriorou junto com o esgotamento das minas. De Diamantina a Alvorada de Minas são 77 km de terra. Chovia constantemente enquanto viajávamos, o que deixou a estrada encharcada de incertezas. Até Conceição do Mato Dentro seguimos pela MG010, uma paralela da ER em tão mal estado de conservação que em muitos momentos duvidamos de que fosse verdadeiramente uma via asfaltada. Caímos em dois atoleiros e junto com mais uma dezena de outros carros fomos socorridos pela retro-escavadeira da empresa encarregada pela manutenção da pista.

Apesar do atestado negativo da chuva, enfrentamos o desconhecido Caminho dos Diamantes da ER até Morro do Pilar. Cruzamos com poucos veículos, mas eles nos faziam acreditar na possibilidade de transitar por ali. Após curvas escorregadias e algumas patinantes subidas, o povoado perdido finalmente apareceu nos reafirmando a vontade de seguir. “A estrada até Itambé tá boa, moço?” “S’ocê veio d’Alvorada até aqui… deve tá do mesmo jeito. Tá na chuva é pra se molhar!” Mais a frente, perguntamos a um casal se a estrada era sinalizada. A mulher, solícita, interrompeu a explicação do marido: “Placa, não tem não, mas tem uma árvore.” Sem pé no freio, o carro desceu a rua tão reticente quanto nós. Com barro até as juntas, alguma empáfia, um GPS e a experiência de um motorista com formação rural continuamos animados. Os pingos intermitentes ficavam desimportantes perto das belezas naturais.

Éramos bons companheiros de viagem: deslumbrados, apaixonados e corajosos, mas… o inevitável: tinha uma voçoroca no meio do caminho que nos impediu definitivamente de seguir pela antiga estrada. Cabisbaixos, demos uma conformada marcha à ré. Retrilhamos não sem surpresas uns 10 km de chão até o trevo de Santo Antônio do Rio Abaixo, cidadela que nos levaria a novos barreiros antes da BR mais próxima. Caminho desconhecido e muito charmoso de rios caudalosos e gente que tem a simplicidade de nos olhar nos olhos. São Sebastião do Rio Preto, recanto dos mosaicos, Passabém, Santa Maria de Itabira, Itabira, terra dos feios minérios explorados e do poeta que reencontraremos ao fim desta viagem. Só em Barão de Cocais demos novamente com a Estrada Real num trecho já metropolitano. Daí a Catas Altas foi um pulo rumo ao merecido repouso.

Em 12 horas percorremos cerca de 400 km. Exaustos, mas satisfeitos, jantamos uma lingüiça caseira com mandioca na manteiga e dormimos ao som da fina garoa que não nos deixou em nenhum momento do percurso. Foi nesta noite também que descobrimos por acaso que o livro escolhido de última hora para nos acompanhar na viagem, Poesia completa e prosa de Manuel Bandeira, continha um guia de Ouro Preto elaborado pelo poeta em 38. Acredito que as coincidências só nos escoltam quando estamos atentos, pois se há acaso, ele tem sempre uma história. Nesse caso, a história do acaso tem a ver com nossa paixão por poesia, o conforto de adormecer ouvindo recitações e certo prazer em retrilhar as impressões alheias sobre os caminhos que se apresentam. Seguiríamos no fim da tarde daquele último dia de 2010 ainda mais entusiasmados para a antiga Vila Rica. Antes, conhecemos o complexo do Caraça: uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com igreja neogótica e as ruínas – consumidas por um incêndio, mas transformadas em museu – do primeiro colégio de ensino médio do Brasil. Belas surpresas, incluindo um almoço digno de padres e um silêncio monástico quebrado apenas pelos pingos de chuva caindo dos grandes telhados. O tempo (meteoro e cronológico) nos impediu de explorar as veredas abertas entre Mata Atlântica e Cerrado. Partimos com vontade de voltar.

Ouro Preto nos aguardava com belas igrejas talhadas por Aleijadinho e cobertas pelo pincel de mestre Ataíde. Andamos pela cidade através dos passos deixados por Manuel Bandeira e tivemos como maior atração as ruas só nossas: escarpadas, lisas e esvaziadas pelo feriado agaroado. Nada além. Museus, igrejas, sobrados e tempo fechado. Tocando os pés naquele chão pisávamos em memórias esquecidas ao passo de conversas sobre outros lugares e desejos próximos. Lá se foi um primeiro de janeiro, com direito a prato predileto, cansaço e cochilo. Dia seguinte, aguardamos na vizinha e rival Mariana a abertura do Museu da Inconfidência. Lá cumprimos nosso derradeiro dever de viajantes e nos despedimos da cidade mais rica do mundo em meados do dezessete entre dois paus da forca de Tiradentes, instrumentos de punição de escravos, retratos encomendados de imperadores, imagens e pinturas sacras. Já em casa, novamente (não) por acaso, abro um livro do Drummond: claro enigma.

Museu da Inconfidência

São palavras no chão

E memórias nos autos.

As casas inda restam,

Os amores, mais não

E restam poucas roupas,

Sobrepeliz de pároco

E vara de um juiz,

Anjos, púrpuras, ecos

Macia flor de olvido,

Sem aroma governas

O tempo ingovernável.

Muitos pranteiam. Só.

Toda a história é remorso.

   

*Carolina Padilha Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.