Das coincidências ou de como toda história é remorso

Por Carolina Padilha Fedatto*

Esse é um relato de viagem e suas coincidências. Na virada do ano que passou, percorremos um trecho da Estrada Real, de Diamantina a Ouro Preto. Após um tempo fora do país, achamos por bem nos entregarmos à primeira estrada oficial brasileira, um velho caminho que derramava nossas riquezas até os navios portugueses e que poderia, naquele fim de ano, dar vazão ao desejo de reencontrar diversos brasis. A região da ER é hoje objeto contraditório de muita publicidade e abandono, o que exalta nossas tradições coloniais e ao mesmo tempo relega pequenas cidades e povoados ao quase isolamento.

Tentamos ao máximo permanecer na Estrada Real, tal como a seguiam as mulas carregadas de valores, mas o trajeto aberto e consagrado pelo interesse exploratório português se deteriorou junto com o esgotamento das minas. De Diamantina a Alvorada de Minas são 77 km de terra. Chovia constantemente enquanto viajávamos, o que deixou a estrada encharcada de incertezas. Até Conceição do Mato Dentro seguimos pela MG010, uma paralela da ER em tão mal estado de conservação que em muitos momentos duvidamos de que fosse verdadeiramente uma via asfaltada. Caímos em dois atoleiros e junto com mais uma dezena de outros carros fomos socorridos pela retro-escavadeira da empresa encarregada pela manutenção da pista.

Apesar do atestado negativo da chuva, enfrentamos o desconhecido Caminho dos Diamantes da ER até Morro do Pilar. Cruzamos com poucos veículos, mas eles nos faziam acreditar na possibilidade de transitar por ali. Após curvas escorregadias e algumas patinantes subidas, o povoado perdido finalmente apareceu nos reafirmando a vontade de seguir. “A estrada até Itambé tá boa, moço?” “S’ocê veio d’Alvorada até aqui… deve tá do mesmo jeito. Tá na chuva é pra se molhar!” Mais a frente, perguntamos a um casal se a estrada era sinalizada. A mulher, solícita, interrompeu a explicação do marido: “Placa, não tem não, mas tem uma árvore.” Sem pé no freio, o carro desceu a rua tão reticente quanto nós. Com barro até as juntas, alguma empáfia, um GPS e a experiência de um motorista com formação rural continuamos animados. Os pingos intermitentes ficavam desimportantes perto das belezas naturais.

Éramos bons companheiros de viagem: deslumbrados, apaixonados e corajosos, mas… o inevitável: tinha uma voçoroca no meio do caminho que nos impediu definitivamente de seguir pela antiga estrada. Cabisbaixos, demos uma conformada marcha à ré. Retrilhamos não sem surpresas uns 10 km de chão até o trevo de Santo Antônio do Rio Abaixo, cidadela que nos levaria a novos barreiros antes da BR mais próxima. Caminho desconhecido e muito charmoso de rios caudalosos e gente que tem a simplicidade de nos olhar nos olhos. São Sebastião do Rio Preto, recanto dos mosaicos, Passabém, Santa Maria de Itabira, Itabira, terra dos feios minérios explorados e do poeta que reencontraremos ao fim desta viagem. Só em Barão de Cocais demos novamente com a Estrada Real num trecho já metropolitano. Daí a Catas Altas foi um pulo rumo ao merecido repouso.

Em 12 horas percorremos cerca de 400 km. Exaustos, mas satisfeitos, jantamos uma lingüiça caseira com mandioca na manteiga e dormimos ao som da fina garoa que não nos deixou em nenhum momento do percurso. Foi nesta noite também que descobrimos por acaso que o livro escolhido de última hora para nos acompanhar na viagem, Poesia completa e prosa de Manuel Bandeira, continha um guia de Ouro Preto elaborado pelo poeta em 38. Acredito que as coincidências só nos escoltam quando estamos atentos, pois se há acaso, ele tem sempre uma história. Nesse caso, a história do acaso tem a ver com nossa paixão por poesia, o conforto de adormecer ouvindo recitações e certo prazer em retrilhar as impressões alheias sobre os caminhos que se apresentam. Seguiríamos no fim da tarde daquele último dia de 2010 ainda mais entusiasmados para a antiga Vila Rica. Antes, conhecemos o complexo do Caraça: uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com igreja neogótica e as ruínas – consumidas por um incêndio, mas transformadas em museu – do primeiro colégio de ensino médio do Brasil. Belas surpresas, incluindo um almoço digno de padres e um silêncio monástico quebrado apenas pelos pingos de chuva caindo dos grandes telhados. O tempo (meteoro e cronológico) nos impediu de explorar as veredas abertas entre Mata Atlântica e Cerrado. Partimos com vontade de voltar.

Ouro Preto nos aguardava com belas igrejas talhadas por Aleijadinho e cobertas pelo pincel de mestre Ataíde. Andamos pela cidade através dos passos deixados por Manuel Bandeira e tivemos como maior atração as ruas só nossas: escarpadas, lisas e esvaziadas pelo feriado agaroado. Nada além. Museus, igrejas, sobrados e tempo fechado. Tocando os pés naquele chão pisávamos em memórias esquecidas ao passo de conversas sobre outros lugares e desejos próximos. Lá se foi um primeiro de janeiro, com direito a prato predileto, cansaço e cochilo. Dia seguinte, aguardamos na vizinha e rival Mariana a abertura do Museu da Inconfidência. Lá cumprimos nosso derradeiro dever de viajantes e nos despedimos da cidade mais rica do mundo em meados do dezessete entre dois paus da forca de Tiradentes, instrumentos de punição de escravos, retratos encomendados de imperadores, imagens e pinturas sacras. Já em casa, novamente (não) por acaso, abro um livro do Drummond: claro enigma.

Museu da Inconfidência

São palavras no chão

E memórias nos autos.

As casas inda restam,

Os amores, mais não

E restam poucas roupas,

Sobrepeliz de pároco

E vara de um juiz,

Anjos, púrpuras, ecos

Macia flor de olvido,

Sem aroma governas

O tempo ingovernável.

Muitos pranteiam. Só.

Toda a história é remorso.

   

*Carolina Padilha Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.

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One Comment to “Das coincidências ou de como toda história é remorso”

  1. Texto primoroso. Remorso contagiante! Mas a poesia vai resistir às propagandas sem realidade, aos mapas sem território, às estradas sem pedras no caminho: voçorocas. Mas com muita enxurrada de poesia. Parabéns pelo relato!

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