O silêncio público de Dilma

Sexta-feira, 20 de janeiro:

A Justiça Federal entende que a União é parte interessada no caso do Pinheirinho de São José dos Campos/SP e ordena a suspensão do cumprimento do mandado de reintegração de posse de um terreno de propriedade da massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas, expedido pela Justiça Estadual de São Paulo.

O senador Eduardo Suplicy se encontra com o presidente do TJSP, Ivan Sartori, em São Paulo/SP e acerta um prazo de 15 dias para o fim das negociações com os moradores, o que é comunicado à juíza Márcia Faria Mathey Loureiro da 6a. Vara Cível de São José dos Campos, que não despacha no processo de reintegração de posse.

Sábado, 21 de janeiro:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o Prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, são informados dos termos do acordo feito na véspera no gabinete do presidente do TJSP.

Suplicy se encontra com os representantes do Pinheirinho em São José dos Campos para comunicar que o governo estadual suspenderia todas as medidas de remoção nos 15 dias seguintes a fim de manter o diálogo entre as partes interessadas.

Em São Paulo, Sartori, traindo o acordo com o senador, expede ordem ao governo estadual para a mobilização da Polícia Militar com o objetivo de cumprir imediatamente o mandado de reintegração de posse, devendo repelir qualquer óbice inclusive forças policiais federais. Alckmin, desobedecendo uma decisão da Justiça Federal, coloca milhares de policiais militares para desocupar o Pinheirinho.

Domingo, 22 de janeiro:

Começa em São José dos Campos a operação de reintegração de posse pela Polícia Militar em que são presos 18 civis, feridas dezenas de pessoas e mortos sete cidadãos cujos corpos são enviados clandestinamente ao IML de São Paulo, segundo relatos de testemunhas.

Em São Paulo, Suplicy, depois de 1h30 de espera, é recebido por Alckmin que lhe engana afirmando que a decisão da Justiça paulista “vale” mais que a federal.

Enquanto isso, o secretário da Presidência para a articulação social, Paulo Maldos, que negociava com os moradores do Pinheirinho é ferido por uma bala de borracha. Até mesmo alguns agentes da Polícia Rodoviária Federal tiveram que se esconder de tiros disparados pela polícia paulista em conformidade com as ordens do presidente do TJSP.

Em Brasília, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, diz que o governo federal não agiria no Pinheirinho como o governo estadual, mas também não agiu de forma alguma. Omissão dolosa da União no momento em que acontecia as ilegalidades em São Paulo.

Dilma permanece em silêncio…

Segunda-feira, 23 de janeiro:

Mesmo com o Pinheirinho completamente esvaziado pelas forças de ordem, a imprensa credenciada não é autorizada a entrar na área. Perto dali, no centro de triagem construído às pressas pelo poder público desprovido das mínimas condições para abrigar seres humanos, os policiais militares continuavam a agredir os ex-moradores que ali estavam alojados.

Alberto Goldman, presidente interino do PSDB, publica uma nota em que reclama da “deplorável intromissão” do governo federal nos assuntos do estado, como se as palavras de Gilberto Carvalho e de Maldos significassem alguma interferência da União em São Paulo.

Pressionado pela opinião pública, Alckmin, chefe do poder executivo estadual e responsável pela Polícia Militar, tenta justificar as arbitrariedades injustificáveis, chegando ao ponto de ter que ser defendido pelo desembargador Sartori que, inconstitucionalmente, declara que foi a presidência do TJSP que comandou a ação policial.

Dilma permanece em silêncio…

Terça-feira, 24 de janeiro:

As últimas habitações do Pinheirinho eram enfim destruídas sem que houvesse tido tempo de os ex-moradores retirarem seus móveis. Os pertences dos milhares de refugiados internos foram para o lixo junto com o entulho das casas.

Há rumores de que um eventual traçado do trem-bala ligando São Paulo ao Rio de Janeiro/RJ passaria muito perto do Pinheirinho, o que valorizaria ainda mais o mercado imobiliários local. Desde 2004, quando a área começou a ser ocupada, até a data da reintegração de posse, o preço do metro quadrado do local aumento 2.500%.

Dilma permanece em silêncio…

Quarta-feira, 25 de janeiro:

Aniversário de São Paulo, feriado municipal. Milhares de manifestantes se dirigem à Sé onde ocorre uma missa em homenagem à cidade sem a presença de Alckmin, membro da Opus Dei. Achando que não tinha nada a ver com o imbróglio, o prefeito Gilberto Kassab comparece ao evento e acaba recebendo muitas vaias e alguns ovos por parte dos indignados. A Polícia Militar responde com gás de pimenta, cassetetes, bombas e tiros de borracha.

No Fórum Social Temático de Porto Alegre/RS, Dilma permanece em silêncio…

Quinta-feira, 26 de janeiro:

No Rio de Janeiro, desabam três edifícios na região central, causando a morte de várias pessoas. Dilma enfim se pronuncia em solidariedade às vítimas, mas só aos cariocas.

Sobre o Pinheirinho, Dilma permanece em silêncio…

Conclusões

Primus:

Quando a injustiça vem de causa natural, a Dilma rompe o silêncio.

Quando a injustiça vem de causa política, a Dilma permanece em silêncio…

Secundus:

Ou Dilma, diante de arbitrariedades, violências e ameaças da oposição, tem medo de perder o equilíbrio político e, consequentemente, as boas condições de governabilidade em tempos de crise econômica mundial;

ou ela espera o momento mais apropriado para acertar as contas com aqueles que ultrapassaram os limites legais e éticos da ação política.

Estão abertas as apostas.

Enquanto isso, Dilma permanece em silêncio…*

*Dilma teve que comentar o episódio na quinta-feira, 26 de janeiro, em reunião fechada com cerca de 90 representantes do comitê internacional do Fórum Social Mundial, em um hotel na capital gaúcha. A presidenta foi provocada a tocar no assunto pelo empresário Oded Grajew, ex-presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, segundo relato feito à reportagem por uma pessoa presente à reunião.

P.S.: Este artigo é uma homenagem ao meu grande amigo e aniversariante do dia, Bruno Valle, companheiro de arquibancada do Mineirão.

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2 Comentários to “O silêncio público de Dilma”

  1. como pode, faz alguma coisa presidenta .

  2. Por favor Presidenta , faça alguma coisa , isso não pode ficar assim, a senhora é a autoridade máxima.

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