EUA se reconciliam com Talibã contra Karzai

O Qatar, país árabe rico em petrodólares e aliado dos Estados Unidos, é sede de uma rodada preliminar de negociações entre oficiais norte-americanos e representantes do Talibã em vista do fim da Guerra do Afeganistão, iniciada em 7 de outubro de 2001 pelo então presidente George Walker Bush e apoiada pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Não é a primeira vez que os Estados Unidos se reúnem com o Talibã para traçar um plano militar comum. Quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, em 1979, os Estados Unidos se aliaram militarmente com os mujahidins. Esta operação, batizada de Operação Ciclone pela CIA (“Central Intelligence Agency”), é considerada um dos acordos militares mais longos e caros da história dos Estados Unidos.

Em 3 de julho de 1979, o então presidente Jimmy Carter assinou o decreto de financiamento de uma guerrilha anticomunista no Afeganistão. A operação baseou-se na utilização sistemática da inteligência paquistanesa (ISI) com o suporte de agentes estrangeiros, especialmente britânicos e norte-americanos. Já no mandato de Ronald Reagan, os Estados Unidos implantaram no Afeganistão um comando paramilitar da CIA, a Divisão de Atividades Especiais, para treinar e comandar os mujahidins contra o Exército vermelho. Foi a partir do momento em que a guerrilha se transformou em força paramilitar que surgiu o Talibã. O US Army é o pai do Talibã.

Entre 1979 e 1992, o orçamento público estadunidense destinou anualmente entre três e 20 bilhões de dólares ao exército paramilitar anti-comunista dos mujahidins, que chegou a ter mais de 100.000 combatentes. Dentre esses, estava Osama Bin Laden, bilionário fundador da Al-Qaida, encarregado do recrutamento de combatentes para o Afeganistão.

Décadas depois, a representação do Talibã chega ao Qatar pelo território do Paquistão, apesar do estremecimento das relações entre este e os Estados Unidos quando da operação militar que culminou na execução de Bin Laden. Há expectativa de que os talibãs instalem um escritório permanente no território daquele país.

Trata-se de uma mudança radical de posicionamento do Talibã se comparado ao fato de que, já em 2010, os seus representantes haviam recusado qualquer negociação de paz enquanto os 152.000 militares estrangeiros, comandados pelos oficiais estadunidenses, estivessem no território afegão. O general David Petraeus, em nome das forças armadas dos Estados Unidos, obviamente não aceitou a exigência.

Tudo mudou em 26 de dezembro de 2011, quando membros do Conselho de paz do Afeganistão aceitaram conversar com o Talibã no Qatar a fim de obter enfim uma conciliação. Dias depois Karzai ratificou oficialmente a posição ao concordar com o início das negociações com os talibãs.

Poucos dias depois, os Estados Unidos, à revelia do Afeganistão, tomam a frente das conversas sem a participação de qualquer autoridade afegã. O governo afegão, através do secretário do Conselho de paz Aminundin Muzaffari, já demonstrou preocupação com os termos do acordo, uma vez que nenhuma autoridade daquele país participa das conversas. De Kabul, o presidente Hamid Karzai teria, inclusive, demonstrado grande interesse em se encontrar com os talibãs na Arábia Saudita, que também é aliado dos estadunidenses, nas próximas semanas.

Os Estados Unidos agem no Afeganistão como sempre o fizeram: desconsideram completamente a independência do Estado afegão, tratando-o como uma colônia ou um protetorado em que a soberania se encontra em Washington. O discurso de que a guerra de 2001 tinha o objetivo de livrar o Afeganistão do controle talibã – embora tenham sido os Estados Unidos que deram todas as condições para que o Talibã consolidasse o controle do país no início dos anos 1990 – vai por água abaixo a partir do momento em que o governo estadunidense não permite que o governo afegão exerça as competências próprias de um Estado soberano. Se os afegãos resolverem fazer valer sua soberania contra as ações dos Estados Unidos é bem capaz de haver a inversão de posição, tornando-se Karzai o novo inimigo a ser eliminado pelas forças da liberdade dos talibãs, antigos funcionários da CIA.

Bin Laden com Brzezinski (Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos entre 1977 e 1981), em treinamento da CIA no Afeganistão.

 

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