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30 de janeiro de 2012

Nem FHC tem paciência com Serra

Depois que o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr. foi lançado, há menos de dois meses, batendo recordes de venda – eu mesmo tenho o meu exemplar da primeira edição (uma relíquia!) -, mesmo com a grande imprensa insistindo em ignorar o fato, a internet disseminava como uma peste das mais contagiosas a informação mais do que documentada da ocorrência do maior esquema de lavagem de dinheiro da história da humanidade, posto em prática pelo PSDB do então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu fiel escudeiro e ministro José Serra, quando do processo de privatização do patrimônio nacional levado a cabo naqueles sombrios anos de neoliberalismo.

Por mais que o pessoal da patota do Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi & Cia. Ltda. se fingisse de cego – são especialistas na arte da dissimulação -, achando preconceituosamente que o povo brasileiro é composto em sua maioria por uma ralé idiota a esperar na frente da telinha a versão oficial dos acontecimentos transmitida pela voz aveludada de William Bonner, os detalhes sobre os crimes cometidos pela quadrilha montada por Serra eram reproduzidos numa escala jamais vista por uma oligarquia tradicionalmente acostumada a manipular a informação ao seu bel prazer. Antigamente era assim mesmo, infelizmente. A imprensa oligárquica, composta por meia dúzia de veículos de informação, acertava entre si a versão a ser publicada. O que não saía nas suas pautas, não existia politicamente. Ainda bem que a internet nasceu e se popularizou para acabar com essa brincadeira de mau gosto. Como bem escreveu uma vez Luís Nassif, se ditadores árabes dos mais facínoras são derrubados pelo povo organizado através das redes sociais, o que pensar dessa oligarquia brasileira, composta por gente apática, medrosa e covarde. A internet é o maior trunfo democrático mundial! Só no Brasil são 80.000.000 de pessoas conectadas. Uma revolução!

Acreditando, entretanto, que o mundo não havia mudado, o que demonstra de novo a absurda alienação de nossa elite escravocrata, Serra fingiu-se de morto desde a primeira semana de dezembro quando as denúncias contra ele recém saíam das gráficas. Rezava ele para que o tempo passasse, as denúncias comprovadas de Amaury Ribeiro Jr. não circulassem e que ele pudesse o quanto antes retomar sua carreira política, pois como ele já dissera uma vez à revista Veja: “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”. Se como ministro fez o que fez no esquema de lavagem de dinheiro das privatizações, imaginem o que o Serra não faria enquanto chefe de Estado? Estressado como nunca se viu, Serra sentiu que, como o Pinheirinho o será para o governado de São Paulo, Geraldo Alckmin; a Privataria Tucana nunca mais desgrudará de sua pele. Uma chaga vergonhosa que repugnará qualquer cidadão de bem pelos anos a fio. Por isso, como eu já comentara, há algumas semanas, nas redes sociais, antes da fundação d’A rês pública, que o livro A Privataria Tucana sepultara de uma vez por todas a cansativa carreira política de Serra. Na minha humilde opinião, hoje, ele não ganha eleição nem para síndico de seu condomínio de altíssimo luxo, embora há quem diga por estas paragens que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… De toda forma, o jogo acabou para o ex-ministro, pois, como afirmou há pouco o próprio Fernando Henrique, responsável pela nomeação de Serra como ministro da privataria e, por isso mesmo, tão ou mais responsável pelos crimes de lesa-pátria cometidos no seu governo: “Chega. Não tenho mais paciência com ele [Serra]”. Eu também não, e não é de hoje!

Com Alckmin tendo que digerir a seco o Pinheirinho, que inevitavelmente acompanhá-lo-á  como uma eterna morrinha, Fernando Henrique, o Farol de Alexandra, do alto de sua inquestionável sapiência,  já escolheu o candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2014. Por incrível que pareça, trata-se do ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a decepção do Senado em 2011*, que encabeça a Lista de Furnas, que a seu tempo virá à tona, e contra quem os espiões de Serra têm muitas evidencias acerca de sua questionável postura nas incontáveis baladas cariocas. Há quem diga por aqui, inclusive, que Aécio seria o quarto senador do Rio de Janeiro, votando muitas vezes contra os interesses dos mineiros, mas isso é assunto para outro artigo…

*Para a decepção do Senado com Aécio Neves, leia http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2012/01/09/2014-decepcao-com-aecio-desnorteia-oposicao/.

 

30 de janeiro de 2012

Veja indigna-se com taxa de pobre e omite-se com propina de rico

Depois que o jornal O Vale de São José dos Campos/SP, tentando salvar a reputação da Polícia Militar de São Paulo, publicou vídeo com entrevista com a juíza Márcia Loureiro da 6a. Vara Cível que acabou por comprometer* ainda mais a situação política do governador Geraldo Alckmin e do prefeito daquela cidade, Eduardo Cury; o principal veículo de imprensa local tenta de todas as formas transferir um pouco da sujeira para o lado dos ex-moradores do bairro Pinheirinho, desocupado brutalmente pelas forças de ordem na manhã de 22 de janeiro de 2012.

O Vale disponibilizou outro vídeo em que denuncia a cobrança de taxa dos moradores por parte “deles”. A reportagem que traz inúmeros depoimentos anônimos de ex-moradores não procura saber em nenhum momento quem seriam de fato as pessoas que cobravam uma taxa mensal de R$10,00 de cada moradia e de R$30,00 de cada estabelecimento comercial do Pinheirinho. Pelos entrevistados, descobre-se que a taxa se referia à manutenção de uma estrutura de defesa de interesses dos sem-teto, como a organização de manifestações, o pagamento de advogados, o patrocínio de viagens dos representantes a Brasília. Pelos cálculos d’O Vale, no fim do mês, “eles” arrecadariam estarrecedores R$19.000,00!

Sem tirar uma vírgula do que foi dito pela jornalista joseense, vê-se que “eles” devem ser provavelmente uma associação de moradores do Pinheirinho, organizada para a defesa de seus interesses, o que é uma iniciativa lícita e democrática. A lei também prevê a possibilidade de os associados de qualquer instituição colaborarem com a manutenção financeira da associação. Não há nada de ilegal nisso. Há milhares de importantes associações espalhadas pelo País, que cobram uma mensalidade de seus membros.

Levando-se em conta os cálculos d’O Vale, o valor arrecadado no fim do mês por “eles” é uma quantia razoável ao pagamento de despesas de uma entidade representativa de milhares de pessoas. Os custos processuais, as viagens às capitais federal e estadual, a organização de manifestações, tudo isso custa dinheiro e deve ser pago como mandam os princípios fundamentais do Direito Civil. Certamente, “eles” não tinham nenhum suporte financeiro por parte do Estado.

Trata-se de uma simples informação, camuflada de muito sensacionalismo.

Eis que a tão afamada revista Veja resolve jogar gasolina na fogueira de sensacionalismo d’O Vale. O blogueiro Reinaldo Azevedo, que se gaba de coordenar o blogue político mais acessado do Brasil presta um desserviço à maioria da população – mas um grande serviço à velha oligarquia – tratando o mesmo fato de forma extremamente reacionária, conservadora e autoritária. Uma semana depois dos crimes cometidos pelo governo paulista contra civis do Pinheirinho, Azevedo transforma a entidade “eles” d’O Vale em “leninistas” que absurdamente cobravam “porcentagem-revolução” dos ex-moradores, além de coordenarem as “compras” de imóveis do Pinheirinho.

É normal que uma pessoa, como o blogueiro mais “popular” do país, que deve frequentar só os palacetes da elite oligárquica sugadora das forças vitais do Brasil desde os tempos imperiais, pense que haja procurações, certidões, escrituras, registros de imóveis em ocupações de sem-teto… No caso do Pinheirinho, será que ele cogita a hipótese de, nos oitos anos em que existiu aquele bairro, nunca ter havido negócios imobiliários entre os moradores, mesmo sem o título de propriedade? Se havia estabelecimentos comerciais que pagavam R$30,00 por mês de “porcentagem-revolução” aos “leninistas”, por que não haveria comércio de imóveis? É uma inocência que beira à má-fé.

É no mínimo uma irresponsabilidade do blogueiro da Veja tentar rotular preconceituosamente os representantes dos ex-moradores de “leninistas” e que as mensalidades dos associados seriam “porcentagem-revolução”, pois defende junto aos seus leitores a ideia de que a grande parcela da população não tem o direito de se organizar politicamente em forma de associação, o que contradiz expressamente a Constituição.

Azevedo é infelizmente a pontinha mínima do imenso iceberg do fascismo brasileiro. Há séculos que a oligarquia do País trata as questões sociais como caso de polícia. Não é uma invenção da Veja, muito menos do seu blogueiro. O buraco é bem mais embaixo.

Oxalá a indignação de Azevedo com a arrecadação mensal de poucos milhares de reais por parte de uma associação de moradores de uma ocupação de sem-teto fosse também direcionada à arrecadação e lavagem de muitos milhões de dólares pagos como propina quando do processo de privatização do patrimônio nacional a ilibados personagens da política oligárquica brasileira, como bem demonstram as centenas de fontes organizadas pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. em seu livro A Privataria Tucana, de leitura obrigatória.

Fica aqui minha humilde sugestão de leitura ao mais “popular” blogueiro do Brasil. Como diriam os caros personagens de Erico Veríssimo n’O tempo e o vento, será que Azevedo tem caracu para usar sua linguagem truculenta contra os verdadeiros bandidos da história? Ou é apenas mais um covarde da imprensa antidemocrática?

*https://arespublica.wordpress.com/2012/01/28/entrevista-de-juiza-complica-alckmin-e-cury/

O blogueiro Reinaldo Azevedo, da revista Veja.