Veja indigna-se com taxa de pobre e omite-se com propina de rico

Depois que o jornal O Vale de São José dos Campos/SP, tentando salvar a reputação da Polícia Militar de São Paulo, publicou vídeo com entrevista com a juíza Márcia Loureiro da 6a. Vara Cível que acabou por comprometer* ainda mais a situação política do governador Geraldo Alckmin e do prefeito daquela cidade, Eduardo Cury; o principal veículo de imprensa local tenta de todas as formas transferir um pouco da sujeira para o lado dos ex-moradores do bairro Pinheirinho, desocupado brutalmente pelas forças de ordem na manhã de 22 de janeiro de 2012.

O Vale disponibilizou outro vídeo em que denuncia a cobrança de taxa dos moradores por parte “deles”. A reportagem que traz inúmeros depoimentos anônimos de ex-moradores não procura saber em nenhum momento quem seriam de fato as pessoas que cobravam uma taxa mensal de R$10,00 de cada moradia e de R$30,00 de cada estabelecimento comercial do Pinheirinho. Pelos entrevistados, descobre-se que a taxa se referia à manutenção de uma estrutura de defesa de interesses dos sem-teto, como a organização de manifestações, o pagamento de advogados, o patrocínio de viagens dos representantes a Brasília. Pelos cálculos d’O Vale, no fim do mês, “eles” arrecadariam estarrecedores R$19.000,00!

Sem tirar uma vírgula do que foi dito pela jornalista joseense, vê-se que “eles” devem ser provavelmente uma associação de moradores do Pinheirinho, organizada para a defesa de seus interesses, o que é uma iniciativa lícita e democrática. A lei também prevê a possibilidade de os associados de qualquer instituição colaborarem com a manutenção financeira da associação. Não há nada de ilegal nisso. Há milhares de importantes associações espalhadas pelo País, que cobram uma mensalidade de seus membros.

Levando-se em conta os cálculos d’O Vale, o valor arrecadado no fim do mês por “eles” é uma quantia razoável ao pagamento de despesas de uma entidade representativa de milhares de pessoas. Os custos processuais, as viagens às capitais federal e estadual, a organização de manifestações, tudo isso custa dinheiro e deve ser pago como mandam os princípios fundamentais do Direito Civil. Certamente, “eles” não tinham nenhum suporte financeiro por parte do Estado.

Trata-se de uma simples informação, camuflada de muito sensacionalismo.

Eis que a tão afamada revista Veja resolve jogar gasolina na fogueira de sensacionalismo d’O Vale. O blogueiro Reinaldo Azevedo, que se gaba de coordenar o blogue político mais acessado do Brasil presta um desserviço à maioria da população – mas um grande serviço à velha oligarquia – tratando o mesmo fato de forma extremamente reacionária, conservadora e autoritária. Uma semana depois dos crimes cometidos pelo governo paulista contra civis do Pinheirinho, Azevedo transforma a entidade “eles” d’O Vale em “leninistas” que absurdamente cobravam “porcentagem-revolução” dos ex-moradores, além de coordenarem as “compras” de imóveis do Pinheirinho.

É normal que uma pessoa, como o blogueiro mais “popular” do país, que deve frequentar só os palacetes da elite oligárquica sugadora das forças vitais do Brasil desde os tempos imperiais, pense que haja procurações, certidões, escrituras, registros de imóveis em ocupações de sem-teto… No caso do Pinheirinho, será que ele cogita a hipótese de, nos oitos anos em que existiu aquele bairro, nunca ter havido negócios imobiliários entre os moradores, mesmo sem o título de propriedade? Se havia estabelecimentos comerciais que pagavam R$30,00 por mês de “porcentagem-revolução” aos “leninistas”, por que não haveria comércio de imóveis? É uma inocência que beira à má-fé.

É no mínimo uma irresponsabilidade do blogueiro da Veja tentar rotular preconceituosamente os representantes dos ex-moradores de “leninistas” e que as mensalidades dos associados seriam “porcentagem-revolução”, pois defende junto aos seus leitores a ideia de que a grande parcela da população não tem o direito de se organizar politicamente em forma de associação, o que contradiz expressamente a Constituição.

Azevedo é infelizmente a pontinha mínima do imenso iceberg do fascismo brasileiro. Há séculos que a oligarquia do País trata as questões sociais como caso de polícia. Não é uma invenção da Veja, muito menos do seu blogueiro. O buraco é bem mais embaixo.

Oxalá a indignação de Azevedo com a arrecadação mensal de poucos milhares de reais por parte de uma associação de moradores de uma ocupação de sem-teto fosse também direcionada à arrecadação e lavagem de muitos milhões de dólares pagos como propina quando do processo de privatização do patrimônio nacional a ilibados personagens da política oligárquica brasileira, como bem demonstram as centenas de fontes organizadas pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. em seu livro A Privataria Tucana, de leitura obrigatória.

Fica aqui minha humilde sugestão de leitura ao mais “popular” blogueiro do Brasil. Como diriam os caros personagens de Erico Veríssimo n’O tempo e o vento, será que Azevedo tem caracu para usar sua linguagem truculenta contra os verdadeiros bandidos da história? Ou é apenas mais um covarde da imprensa antidemocrática?

*https://arespublica.wordpress.com/2012/01/28/entrevista-de-juiza-complica-alckmin-e-cury/

O blogueiro Reinaldo Azevedo, da revista Veja.

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