Archive for fevereiro 3rd, 2012

3 de fevereiro de 2012

O que quer uma tese?

Por Carolina P. Fedatto*

Freud formulou esta mesma pergunta em outros termos: “o que quer a mulher?” E Lacan desdobrou o enunciado freudiano em duas afirmações cruas: “a mulher não existe” e “não há relação sexual”; declarações que devem ser compreendidas em relação ao desejo e sua satisfação. A mulher não tem, como o homem, um objeto que a represente de forma imaginariamente inabalável, assim como não há saturação plena do desejo, há uma falta constitutiva da qual tentamos escapar mentindo.  Mentimos em nossa neurose. O obsessivo mente porque o que não está sob seu domínio não existe, não importa, não interessa. A histérica mente porque acredita existir relação sexual em algum lugar, só que não é essa, não é você.

Lucian Freud

De uma forma um pouco patológica ludibriamos a falta que nos constitui. E pode-se sempre, através dessas mentiras fundamentais, tentar responder a qualquer questão de maneira obsessiva – com listas intermináveis, critérios sociológicos, recortes temáticos, históricos exaustivos e enquetes estatisticamente garantidas – ou de maneira histérica – acreditando que as questões não têm resposta, que a dúvida é mais importante do que todo seu universo possível de explicações. Mas é apostando no poder desestabilizador dos temas exaustivamente tratados (obsessivo) ou das perguntas sem resposta (histérica) que escrevemos uma tese.

Rembrant

Ao substituir, na questão freudiana, o artigo definido (a) pelo indefinido (uma) e o substantivo animado (mulher) por um inanimado (tese), exploro os sentidos do verbo querer, evidenciando seu caráter volitivo. O desajuste começa aí. Uma tese pode ser feita de palavras, imagens e silêncios ou de conteúdo, dados e descobertas. Uma tese quer provar algo. Uma tese é uma posição diante de uma questão. Uma tese pode também querer mostrar algo. E há sempre o desejo de um sujeito por trás desse querer e dessa posição. Quando se faz uma tese o desejo do sujeito parece se esconder sob o desejo da ciência (sempre obsessivo). E fica parecendo que uma tese é o tratamento de uma questão em todos os seus aspectos, a exaustão de um tema, a descoberta de um novo objeto ou, para os mais audaciosos, uma revolução no regime da verdade. Esquecendo-se que há alguém que quer uma tese, esquece-se que ela é feita de suor e desgaste, de fatos e dúvidas, de noites mal-dormidas, contraturas musculares, miopia, amor e ódio. Uma tese é um processo no qual o desejo de um sujeito está implicado. Já acreditar que ela é o resultado da vontade desse sujeito seria cair de um dos lados da armadilha obsessiva científica que separa o exato e o biológico do humano. Apesar de todo método, a vontade de uma tese se impõe. É a essa vontade que temos que responder ao ousar continuar querendo-a.

*Carolina P. Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.

3 de fevereiro de 2012

Nota de falecimento: Sara González

Faleceu nesta quarta-feira, 1o. de fevereiro de 2012, a cantora cubana, Sara González, uma das fundadoras do movimento Trova Nova, criado no fim dos anos 1960 sob inspiração dos acontecimentos que rodearam a Revolução cubana de 1959.

A cantora Sara González, falecida nesta semana em Havana, vítima de câncer.

3 de fevereiro de 2012

Dilma, cadê a intervenção federal em São Paulo?

Depois de 12 dias do massacre no bairro Pinheirinho de São José dos Campos/SP cometido pela Polícia Militar daquele estado, continuam a aparecer na internet – a única mídia independente e democrática do mundo – acusações de assassinato e ocultação de cadáver pelos policiais estaduais, o que contradiz todas as versões oficiais.

A informação mais recente foi dada pelo cineasta Pedro Rios Leão, que está há seis dias em greve de fome no passeio em frente à Rede Globo no Rio de Janeiro/RJ em protesto pela omissão governamental diante do caso. Segundo ele, houve mesmo assassinato, sequestro e ocultação de cadáver de moradores do Pinheirinho pela Polícia Militar e que “qualquer um que pise em São José dos Campos, sabe disso”.

Ele conta que chegou à cidade do Vale do Paraíba às 10h de 23 de janeiro de 2012, dia seguinte ao início das operações de desocupação forçada dos moradores e que encontrou uma população em pânico por causa dos assassinatos. Ele viu sangue no chão onde as pessoas diziam que uma pessoa havia assassinada por um policial militar com quatro tiros. Esse foi só um dos inúmeros casos que são contados por quem estava lá naquele domingo de verão.

Quem acusa a polícia de assassinato e ocultação de cadáver, diz que os corpos estavam sendo transferidos clandestinamente para o IML de São Paulo/SP, onde seriam tratados como indigentes. O Estado tenta de todas as formas apagar as provas e até agora são os testemunhos de centenas de pessoas que baseiam as acusações. Mais do que o suficiente para se iniciar uma investigação pela Polícia Federal, pois a PM paulista dificilmente encontrará alguma evidência do crime que cometeu no Pinheirinho.

Mas quem disse que a presidente Dilma Rousseff tem tomado alguma medida em favor do esclarecimento e da punição dos responsáveis? Será que ela tem medo de fazer valer a lei e ver o país despencar numa guerra civil? A oligarquia que tanto fez para derrubar Getulio Vargas a partir de 1930, que imaginou que os militares lhe entregariam o poder em 1964 e que voltou a ditar os rumos do Estado nacional com a eleição de Fernando Collor de Mello em 1989, será que ela é capaz de patrocinar um novo golpe de Estado para tirar à força do poder uma corrente política popular e democrática?

Pois o que se viu em São José dos Campos foi uma intermitente provocação de um estado da Federação contra a autoridade da União. Os dirigentes paulistas, formados nos quadros da velha oligarquia, têm feito de tudo para que haja uma intervenção federal no estado de São Paulo. Será que Dilma pensa ser essa uma armadilha para que os setores reacionários e conservadores da sociedade brasileira justifiquem o início de um movimento golpista à maneira de 1931, quando Getulio indicou João Alberto Lins de Barros interventor de São Paulo?

O fato é que, durante a desocupação forçada do Pinheirinho, a polícia paulista atirou contra a Polícia Rodoviária Federal. O secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, que estava no Pinheirinho negociando, foi baleado. O oficial de justiça que tentava entregar a ordem judicial da Justiça Federal mandando suspender a operação foi recebido à bala. O comandante da Polícia Militar de São Paulo, o coronel Manoel Messias de Mello, sob ordens do juiz Rodrigo Capez, respondeu por escrito não obedecer a Justiça Federal. Uma decisão judicial federal não foi cumprida pelo comando policial estadual. Em poucas horas, São Paulo pôs em cheque o pacto federativo da República brasileira. Uma verdadeira declaração de independência de São Paulo.

A Constituição do Brasil estabelece que a intervenção federal é uma cláusula de defesa da Federação cujo objetivo é garantir a unidade do Estado Federal em situações graves. O art. 34 elenca as hipóteses em que a Constituição considera uma situação grave contra o pacto federativo. Dentre elas, há o caso de coação de um dos três poderes no estado ou estando um dos três poderes impedido de exercer as suas funções (inciso IV). No Pinheirinho, o Poder Judiciário, através da atuação da Justiça Federal, foi impedida à força pela Polícia Militar de São Paulo de fazer valer sua decisão. Quando um estado provoca uma perturbação da ordem pela atuação ilegal de sua polícia, há possibilidade de intervenção federal (inciso III). Dos quatro incisos do artigo da Constituição que trata da intervenção federal, pelo menos dois cabem no caso do Pinheirinho, quiçá um terceiro: o do inciso I sobre a manutenção da integridade da Federação.

Claro é que a intervenção federal é uma medida forte e politicamente desgastante. Ainda mais num estado do porte de São Paulo. Mas também a presidente não pode se omitir por medo de fazer cumprir a lei no Brasil. Essa é a sua função. Sei que o medo de golpe ou guerra civil por parte dela é um medo justificável, mas nada justifica a omissão do governo federal diante de uma sucessão de ilegalidades e atentados contra a ordem e o poder político federal. Ainda mais quando se sabe que a própria Dilma, em tempos ditatoriais, sofreu na pele por muito tempo atos criminosos praticados por agentes policiais e considerados crimes contra a humanidade. O que sofreram os ex-moradores do Pinheirinho é previsto ao lado do que sofreu Dilma durante os anos de chumbo como crimes da mesma natureza pelo art. 7o. do estatuto da Corte Penal Internacional.

Para verificar as acusações de assassinato e ocultação de cadáver contra a Polícia Militar de São Paulo:

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