O que quer uma tese?

Por Carolina P. Fedatto*

Freud formulou esta mesma pergunta em outros termos: “o que quer a mulher?” E Lacan desdobrou o enunciado freudiano em duas afirmações cruas: “a mulher não existe” e “não há relação sexual”; declarações que devem ser compreendidas em relação ao desejo e sua satisfação. A mulher não tem, como o homem, um objeto que a represente de forma imaginariamente inabalável, assim como não há saturação plena do desejo, há uma falta constitutiva da qual tentamos escapar mentindo.  Mentimos em nossa neurose. O obsessivo mente porque o que não está sob seu domínio não existe, não importa, não interessa. A histérica mente porque acredita existir relação sexual em algum lugar, só que não é essa, não é você.

Lucian Freud

De uma forma um pouco patológica ludibriamos a falta que nos constitui. E pode-se sempre, através dessas mentiras fundamentais, tentar responder a qualquer questão de maneira obsessiva – com listas intermináveis, critérios sociológicos, recortes temáticos, históricos exaustivos e enquetes estatisticamente garantidas – ou de maneira histérica – acreditando que as questões não têm resposta, que a dúvida é mais importante do que todo seu universo possível de explicações. Mas é apostando no poder desestabilizador dos temas exaustivamente tratados (obsessivo) ou das perguntas sem resposta (histérica) que escrevemos uma tese.

Rembrant

Ao substituir, na questão freudiana, o artigo definido (a) pelo indefinido (uma) e o substantivo animado (mulher) por um inanimado (tese), exploro os sentidos do verbo querer, evidenciando seu caráter volitivo. O desajuste começa aí. Uma tese pode ser feita de palavras, imagens e silêncios ou de conteúdo, dados e descobertas. Uma tese quer provar algo. Uma tese é uma posição diante de uma questão. Uma tese pode também querer mostrar algo. E há sempre o desejo de um sujeito por trás desse querer e dessa posição. Quando se faz uma tese o desejo do sujeito parece se esconder sob o desejo da ciência (sempre obsessivo). E fica parecendo que uma tese é o tratamento de uma questão em todos os seus aspectos, a exaustão de um tema, a descoberta de um novo objeto ou, para os mais audaciosos, uma revolução no regime da verdade. Esquecendo-se que há alguém que quer uma tese, esquece-se que ela é feita de suor e desgaste, de fatos e dúvidas, de noites mal-dormidas, contraturas musculares, miopia, amor e ódio. Uma tese é um processo no qual o desejo de um sujeito está implicado. Já acreditar que ela é o resultado da vontade desse sujeito seria cair de um dos lados da armadilha obsessiva científica que separa o exato e o biológico do humano. Apesar de todo método, a vontade de uma tese se impõe. É a essa vontade que temos que responder ao ousar continuar querendo-a.

*Carolina P. Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.

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