A Folha de S. Paulo mente à moda da Veja

Em Belo Horizonte tenho a oportunidade de ver a edição impressa da Folha de S. Paulo. Na edição de ontem, dobrada e abandonada na área de serviço, há uma reportagem assinada por Bernardo Mello Franco, na página A12, que trata do massacre do Pinheirinho. Fiquei sinceramente surpreso de ver o jornal sabidamente comprometido com os interesses oligárquicos paulistas dar espaço ao fato, mesmo que fosse com um atraso de 17 dias. Ao ler, percebi que a Folha de S. Paulo adotou de vez o discurso da revista Veja, defensora escancarada dos valores fascistas. Isso me preocupou muito, pois o jornal, por mais que sempre tenha demonstrado suas preferências políticas, era mais elegante, ponderado, tentando dentro do possível demonstrar o outro lado da questão. Tanto é que considero-o ainda o melhor jornal do Brasil. Ver a Folha de S. Paulo argumentar à moda da Veja significa que a direita brasileira, especialmente a oligarquia de São Paulo, resolveu radicalizar o discurso contra as reivindicações populares, especialmente após o lamentável episódio do Pinheirinho.

Segundo o argumento do jornal, em plágio do que vem sendo sustentado pela revista, o movimento de resistência do Pinheirinho foi uma estratégia exclusiva do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unido), que tem optado pela “luta direta” em menosprezo pela democracia. O jornalista até transcreve frase de Zé Maria, presidente nacional do PSTU, segundo a qual “nossa prioridade não é disputar eleições”, para depois ridicularizar o partido com seus resultados pífios nas últimas eleições, como se o partido fundado por “uma ala à esquerda do PT” quisesse impor pela força sua forma de ver o mundo.

Ora, reduzir a resistência do Pinheirinho e de outros movimentos sociais a uma estratégia do PSTU pelo confronto direto é uma mentira e uma irresponsabilidade, pois é tentar passar ao seu leitor – sujeito capaz de pagar R$5,00 por aquela edição – que a atuação do Estado foi pautada pela Lei contra alguns fanáticos marxistas que pregam a luta de classes direta através da manipulação das massas. Isso é uma mentira. O próprio fiasco do PSTU nas últimas eleições demonstra que não se trata de uma sigla capaz da arregimentar as massas. Por sua vez, é lógico que o PSTU estava no meio daqueles civis massacrados ilegalmente pelo Estado paulista.

Os moradores resistiram porque estavam perdendo tudo o que tinham. Estavam perdendo sua vida, sua história. Estavam sendo removidos forçosamente por uma polícia que em nenhum momento se preocupou com o bem-estar daquelas pessoas. Estavam sendo expulsos de sua moradia em virtude de uma decisão ilegal em conflito de competência que deveria ser resolvido antes de qualquer ação. Estavam eles resistindo porque a polícia fascista de São Paulo praticou todo tipo de violência, chegando inclusive a assassinar e abusar sexualmente daqueles cidadãos. Reduzir esse movimento justo a uma reação inconsciente às manobras de um partido de extrema esquerda é continuar idiotizando o povo como sempre fez a oligarquia.

A elegância e a sutileza não se perderam de todo. Ao lado da reportagem de Mello Franco em que se comunica às classes abastadas paulistas a declaração de luta aberta de classes pelo Zé Maria, há uma foto do governador Geraldo Alckmin em ação, plantando uma árvore, cuja legenda foca no fato de ele ter criticado um dirigente do PSDB que incitou a militância tucana a “ir para o pau” contra a manifestação de opositores. Depois de tudo o que tem acontecido em São Paulo desde os problemas na USP, alguém ainda duvida que PSDB deseje mais do que tudo o embate antidemocrático contra a esquerda? Depois de A Privataria Tucana, a Lista de Furnas, a USP, a Cracolândia, o Pinheirinho e a Praça da Sé, a direita sabe que ficará muito tempo sem ganhar uma eleição nacional. Se para o jornalista da Folha de S. Paulo o PSTU é uma partido antidemocrático que menospreza as eleições, o PSDB parece também covardemente querer sê-lo em dever pela defesa de Deus, da família e da pátria.

Só pode ser essa a explicação para que a Dilma Rousseff continue em silêncio sem querer meter a colher nas barbaridades cometidas pelo PSDB em São Paulo. Até quando?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: