O oráculo de Delfos nos persegue a vida inteira

Por Carolina P. Fedatto*

Já não lembro quando comecei a ler esse romance da filóloga Maria Dueñas. Sei que o encontrei numa pequena livraria-café de Belo Horizonte, em prateleira destacada, aparentando ser um sucesso de crítica. Sua capa me chamou a atenção pela semelhança com a figura de Coco Chanel, uma esparsa, mas presente companheira na despedida das ruas parisienses, no cinema a sós e numa madrugada em claro quando encontrei uma de suas biografias ilustradas na mesa de jantar da minha sogra e me diverti entre fofocas, fotografias antigas da cidade-luz e lembranças queridas. Para além de qualquer modismo, a pequena Grabrielle me seduz por sua allure, seu corte de cabelo que me inspira e define, pelas pérolas e marinières, enfim, por ter sido ousada, prática, materialista. Digo isso querendo explicar, de maneira sentimental, o que me levou a abrir “O tempo entre costuras”.

Gostei do que vi, mas não comprei o livro. Amor à primeira vista talvez por Chanel (que só se fez presente por uma analogia banal de minha parte) ou pelo processo sem ação a que o título do romance remetia. Essas imagens me marcaram, no entanto, a ponto de um dia encomendar o livro pela internet, num só e certeiro golpe! Desde que o tive nas mãos, confesso que li sem muito entusiasmo as previsíveis tragédias quotidianas da pobre Sira Quiroga: uma costureirinha criada sem pai na Madri do início dos 1900 que se apaixona por um canalha e aceita viver com ele no Protetorado Espanhol do Marrocos. Durante 150 páginas ficamos às voltas com seus amores mal vividos e à mercê da consequente vidinha sem graça de quem tenta se reerguer das desilusões afetivas. Até que nossa inculta espanhola, enganada e sozinha, mas decidida a se reinventar, inaugura uma casa de costura com a ajuda da muambeira dona da pensão que a acolheu em Tetuán no momento em que a Guerra Civil estourou na Espanha, impedindo-a de retornar à casa materna.

As coisas começam, de fato, a melhorar para o leitor quando a heroína se aproxima de seu vizinho Félix, um tipo gay ilustrado que vive uma relação de amor e ódio com a mãe. Os finais de noite dessa dupla entretiveram minhas madrugadas insones durante a escrita da tese. Do interior de seu atelier, Sira conhece a intimidade das mulheres dos poderosos da época e desvenda sutilmente os jogos políticos da guerra passada, presente e futura. Ponto alto da trama, a meu ver, é o curto capítulo em que uma linda inglesa pede um vestido de festa com urgência para aquela noite. Acreditando não ter o tempo hábil que a empreitada exigia, a modista despede a moça com pesar. Ao bater a porta, no entanto, dá de encontro com uma página aberta da Madame Figaro, onde reconhece um modelo familiarmente simples e charmoso. Era um Delphos de Fortuny, uma legenda da moda forjada da antiguidade romana em dobras de seda que a talentosa costureira sabia remedar com perfeição. É brilhante a descrição das etapas de modelagem do vestido, tanto que mesmo nunca o tendo visto, inventei uma imagem mental que corresponde exatamente aos modelos reais.

Parei nesse ponto do livro porque a experiência – forçosa – de imaginar algo que nunca tinha visto através de uma descrição me fez perceber que é impossível não atravessar a ponte que liga as palavras às coisas. Não pude simplesmente saborear o som das vogais entrecortadas de consoantes e deixar de pensar na correspondência entre aquela sequência de letras e o mundo que nos rodeia. Não escapei de relacionar substantivos e verbos à imagem que culturalmente construo a partir dessas amarrações de vocábulos. Uma história ainda não representada pesou sob meus pensamentos tal como as previsões nefastas do Oráculo de Delfos ao rei de Tebas. Uma tragédia se anuncia sempre que ousamos não aproveitar a carona da língua para chegar a esse mundo que se apresenta como o único possível. Não entender é um drama do qual a imaginação se esforça para escapar. E há quem acredite em seu poder libertador…

As palavras não são as coisas, bem entendido, mas se passam muito bem por elas! Eis o triunfo da civilização sobre a barbárie: só a cultura para nos impedir de inventar objetos inexistentes…

*Carolina P. Fedatto é doutora em linguística e escreve n’A rês pública todas as sextas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: