Cavalo de Troia

Quase dois anos após o início do tratamento de choque imposto à Grécia pelo Banco Central Europeu (BCE), pela Comissão Europeia (CE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), os resultados são catastróficos. Hoje nem mais os criadores das medidas de austeridade acreditam mais no seu sucesso. Presume-se que a Grécia só conseguirá recuperar o fôlego dos tempos de vacas gordas daqui a 50 anos.

A dívida grega, que é o cerne de todo o problema que fazem face os agentes financeiros internacionais para evitar uma bancarrota generalizada, se tudo der certo, estará daqui a nove ano, em 2020, na casa dos 120% do PIB grego, o que representa a mesma taxa que existia em 2009, no início da peleja. Todo o sacrifício exigido dos gregos e dos europeus desde a crise de 2008 foi para nada! Só esse dado bastaria para que se interrompesse a adoção do choque de gestão internacional nas contas gregas. Os seis primeiros acordos internacionais de fixação de medidas de austeridade foram totalmente ineficazes. No domingo, 12 de fevereiro de 2012, obteve-se em Atenas o sétimo memorando de ajuste financeiro. Portugal, Espanha, Irlanda e Itália também tentam seguir a mesma linha. O resultado será inevitavelmente a mesma catástrofe.

Na Grécia, as políticas dos sete memorandos já cortaram a metade dos valores dos salários e das aposentadorias. Em certos casos, as perdas chegam a 70%! A taxa de desemprego chegou a casa do 20%, entre os jovens ela é de 45%, sendo o desemprego feminino jovem correspondente a 50%! As gregas estão sendo obrigada a voltar ao trabalho exclusivamente doméstico.

Os serviços públicos estão liquidados ou privatizados. Dessa forma o numero de leitos nos hospitais diminuem e hoje há 60% do que existia antes de 2009. Com menos oferta de serviços médicos, os preços de internação se inflacionam e poucos são aqueles que conseguem pagar por serviço de saúde. Não há mais distribuição de medicamentos gratuitos. Os subsídios aos deficientes físicos foram sumariamente cortados. As taxas de suicídio aumentar substancialmente nos últimos anos.

O governo grego ainda não foi capaz de entregar aos estudantes o material escolar para o ano letivo que começou em setembro de 2011. Os alunos assistem às aulas no inverno sem o sistema de aquecimento. Inexiste investimento em educação.

O governo grego não eleito, pois foi imposto pelos credores internacionais como aconteceu também na Itália, decidiu adotar medidas ainda mais duras contra a população mais desfavorecida materialmente ao suprimir as convenções coletivas de trabalho, aumentar a desregulamentação do direito trabalhista, reduzir em 22% o salário-mínimo, congelar o salário-mínimo por três anos (até 2015), reduzir em 15% as aposentadorias, demitir 15.000 funcionários públicos agora e mais 150.000 até 2015. A Alemanha, principal economia da zona do euro, pressiona a Grécia para que adote um sistema financeiro paralelo que seria gerido por uma comissão internacional em vista do pagamento dos credores internacionais. Querem que a Grécia abra mão se sua soberania e se torne consequentemente uma colônia.

A Comissão do Direito Internacional das Nações Unidas ao tratar do estado de necessidade afirmou que não se pode exigir que um Estado deixe de prestar os serviços públicos fundamentais (saúde, educação, aposentadoria, justiça), deixando sua população em estado de anarquia para dispor de dinheiro público a ser entregue a credores internacionais. Há limites para a cobrança de dívida de Estados.

Não há como imaginar que as medidas imposta à Grécia possam garantir a sobrevivência do sistema. Os credores já abriram mão de uma parte da dívida, mas querem receber algo. Para isso, a Grécia necessita de dinheiro do BCE, o que causa descontentamento entre os países que também se veem diante da crise, mas ainda possuem maior espaço de manipulação. O fato é que o tempo passa e até para as economias mais sólidas os prazos se vencem. A ideia de que a Grécia deveria deixar a União Europeia cresce dia a dia. Muitos não fazem mais questão de ter os gregos por perto. Um ato egoísta depois de muito aproveitarem do mercado grego para as exportações na bonança.

A Grécia está perdida. Se for abandonada pela Europa, terá que se reconstruir do zero. Se não for abandonada, terá que se tornar uma colônia. O ressentimento grego com o egoísmo europeu existe. O ressentimento europeu com a irresponsabilidade grega existe. Mistura explosiva de ressentimentos que na Europa sempre descamba para a violência interna e depois internacional. Haverá guerra ainda?   Tomara que não!

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