A fissão do eu

Por Carolina P. Fedatto

Vivi, no último mês, uma experiência aterrorizante para o centramento do eu. Aceitei, como já havia feito outras poucas vezes, escrever coletivamente. Aqueles que enveredam para a área acadêmica, sobretudo em ciências humanas, lidam, em geral, de forma narcísica com a escrita. Para estes, escrever é se colocar no papel, é expor suas artimanhas, desnudar seus argumentos, exibir a sintaxe de si no vasto sistema de escolhas vocabulares e teóricas. Escrever é amarrar seu burro com o sol a pino: vigilância extrema, certo incômodo e uma dose de prazer ao se sentir à mostra – couro queimando, mas com o aspecto saudável e as feições coradas daqueles que se arriscam a dar o ar da graça. Condenações e louros só para si. Já escrever a quatro, ou seis mãos (mais que isso é terapia em grupo) é dividir. Tarefas, labor, expertises e responsabilidades, mas também o ego, esse baita núcleo duro do qual a tradição humanista forja o homem nos fazendo crer que só poderia ser assim. Mais fácil cindir o átomo.

Mas descobri que a fissão do autor, assim como a fissão do átomo, libera uma energia violenta. Para o bem e para o mal. O processo é análogo. No início parece ser impossível, não há meios de começar, o ego se impõe e diz eu sou eu, me inscrevo na minha escrita, daqui não saio, não saio se não daqui. Mas o bombardeamento de ideias alheias, novas, afins e pesadas torna o núcleo do ego instável; a divisão está por um triz. E ocorre geralmente no momento em que nos reconhecemos no dizer do outro. Eu teria dito exatamente assim, ai como eu queria ter dito isso. A quantidade de energia desprendida nessa implosão precipitada pela identificação de si nas palavras do outro provoca uma reação em cadeia: desestrutura o eu e arquiteta pontes com enorme poder heurístico. As cabeças pensantes estilhaçadas tornam as mãos mais ágeis para a escrita. Divididos, ficamos parcialmente livres da culpa e entregues ao erro que alguém sempre poderá ajustar. Daí nascem textos majestosos, lindos em forma e conteúdo. Grandes asneiras refugiadas no bom-senso dos coautores também. É preciso confessar ainda que aquele prazer solitário da tacada perfeita desfalece com o texto finalizado. A obra coletiva é a vitória do não-eu. E confere a cada um o direito de não ser uno, de se dispersar nas ideias alheias e ainda assim tirar sua dose de prazer no reconhecimento e na aceitação. Se, como diz Lacan (e como me ensinaram as duas mãos do autor que, aos pedaços, dividiu comigo uma escrita), a letra desenha a borda no furo do real, mais do que uma mera experiência do ego, as palavras partilhadas nos colocam no limite entre o que se pode dizer e o indizível. Por isso, elas beiram o impossível e mensuram o gozo que se pode tirar da própria incompletude. Ao menos para quem já esteja afeito ao estranhamento…

#Este texto é uma homenagem a Jacques Fux e Humberto M. de Oliveira, com quem escrevi sobre enunciação, psicanálise e Georges Perec e a André de Paiva Toledo, com quem partilho – desigualmente, é claro, a escrita deste blogue.#

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