Archive for março, 2012

20 de março de 2012

Por um amor que dure

Por Carolina P. Fedatto

O amor é algo que desperta a atenção das pessoas. Amamos histórias de amor, amamos amar, como dizia Santo Agostinho. E amamos que os outros amem. Mas por que o amor tem essa força, esse alcance, tão universal? Por que o amor nos atrai dessa forma?

Alain Badiou, no seu “O elogio do amor”, diz basicamente que há três concepções dominantes sobre o amor:

1) A primeira é a visão romântica, baseada, sobretudo, no êxtase do encontro, em que o outro é idealizado como aquele que nos completa e vai nos fazer feliz para sempre. É a visão dos contos de fada e das grandes histórias de amor da literatura, como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. E embora ela tenha uma beleza artística extraordinária, essa ideia fusional do amor, essa ideia de que duas vidas se transformam em uma, dá importância demais para o momento do encontro e reduz o amor à magia do começo da relação. Mas o amor não acaba no encontro, muito pelo contrário, ele começa aí, é uma construção.

2) A segunda concepção bastante comum do amor é aquela que enxerga a relação amorosa como uma troca de vantagens recíprocas. Nós ficamos juntos enquanto nos fizermos bem. E para garantir o sucesso da relação, as pessoas selecionam seu par de acordo com características pré-definidas, tentando afastar qualquer risco. Em nome da segurança, evita-se todo acaso, todo encontro inesperado e, finalmente, toda beleza das histórias de amor.

3) Diante dessas duas ideias totalmente frustradas das relações amorosas, surge uma terceira concepção que nos leva a desconfiar do amor para nos protegermos das suas armadilhas. Segundo os pessimistas, o amor não seria mais do que uma ilusão. Mas quem já amou de verdade, sabe que ele não é um simples artifício da natureza para que se cumpra a reprodução da espécie, nem uma artimanha da sociedade para que se garanta a hereditariedade dos privilégios.

O amor, segundo a filosofia de Badiou, é uma construção de verdade. Mas verdade sobre o quê? O que é o mundo se experimentado a partir do ‘dois’ e não do ‘um’? O que é o mundo vivido a partir da diferença e não da identidade? Isso é o amor! Experimentar o mundo a partir da diferença. Incluindo o desejo sexual e suas provas, incluindo o nascimento de uma criança, mas incluindo igualmente mil outras coisas, na verdade, qualquer coisa, desde que se viva sob o ponto de vista do ‘dois’ e não do ‘um’. O amor é uma posição existencial, é a construção de um mundo descentrado em relação à minha simples vontade. O amor inventa uma forma diferente de durar na vida. E, mais do isso, ele é o desejo de uma duração desconhecida, imprevisível. Não sabemos como será o amanhã, não temos garantias, mas o amor nos faz querer reinventar a vida todos os dias.

Badiou fala também que o fato de dizer o amor é fundamental. Porque o início do amor é absolutamente acidental: encontramos alguém que até então não conhecíamos e nos apaixonamos. Mas para que o amor exista, esse acaso deve ser fixado. E dizer ‘eu te amo’ é um passo fundamental. É assim que o acaso é fixado: a absoluta eventualidade do encontro acaba tomando as feições de um destino, como se só pudesse ter sido assim. E é por isso que a declaração de amor é tão perigosa, tão apavorante, porque ela é a passagem do acaso ao destino. Mas a declaração de amor não é algo pontual, ela é longa, confusa, difusa, complicada, declarada e redeclarada e destinada a ser sempre redita. Dizer eu te amo, com essas ou outras palavras, é justamente dizer que isso que poderia ter sido um simples acaso, é, para mim, um engajamento, uma duração, uma obstinação, uma fidelidade. E fidelidade, no sentido filosófico dado por Badiou, é a passagem do encontro ocasional a uma construção tão sólida como se ela fosse necessária.

É por isso que estamos aqui: para dizer um ao outro que depois de nos encontrarmos queremos continuar experimentando a vida pelo ponto de vista da diferença. E se esse nosso gesto é uma promessa de eternidade, nós pensamos a eternidade de uma forma menos milagrosa e mais laboriosa. Há um trabalho do amor, não apenas um milagre. É preciso estar a postos, ter cuidado, se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então sim, como recompensa do trabalho, ter felicidade.

E eu não como saberia terminar essa fala de uma forma diferente do modo como Badiou terminou seu elogio ao amor:

Comédia? Tragédia? Os dois. Amar é estar preso, além de toda solidão e com tudo o que o mundo oferece para animar nossa existência. Amar é ver no mundo a fonte da nossa alegria, da sua primeiro.

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12 de março de 2012

O Muro de Campos Altos

Por Carolina P. Fedatto e André de Paiva Toledo*

Conhecemos a cidade de Campos Altos há quatro anos. Neste período nos apaixonamos por sua gente e por sua geografia. Consideramo-nos cidadãos campos-altenses e no intuito de contribuir para o alargamento da discussão democrática de nossa sociedade, resolvemos nos pronunciar acerca do Muro de Campos Altos, assunto que tanto tem ocupado os veículos locais de informação por mais rudimentares que sejam.

Nos primeiros passeios, percebemos que havia uma obra que não ornava com o ambiente bucólico e pacato da cidade. Tratava-se de um viaduto para automóveis aparentemente abandonado com ar de elefante branco sem serventia aparente. Desde 1912 corta a cidade de leste a oeste uma estrada de ferro, fazendo com que haja aqui uma fronteira que separa a zona sul da zona norte. É uma via muito utilizada, embora os trens que nela passam impressionam mais pelo barulho do que pela velocidade. O viaduto de automóveis inacabado liga as regiões norte e sul por cima da ferrovia.

Parada esta obra, iniciou-se outra a poucos metros a oeste da primeira. Foi concluída rapidamente, sem dar tempo de qualquer debate a respeito. Construiu-se uma passarela de pedestre para atravessar a ferrovia que mais parece um exemplo de arquitetura espontânea de Gaudí do que um trabalho de utilidade pública. Por causa da altura dos trens, a passarela é mais alta do que larga. Para ocupar menos espaço, fez-se um sistema de curvas que obriga o transeunte a subir uma rampa de três círculos, antes de caminhar poucos metros para atravessar a estrada de ferro para depois descer mais três círculos do outro lado. Todo o trajeto faz o cidadão percorrer uma distância razoável se comparado aos poucos centímetros de largura da via facilmente atravessada com uma passada ligeiramente mais larga.

A passarela abandonada pela população. O viaduto abandonado pelo poder público. Tudo levava a crer que poucos tinham se dado bem com aquilo tudo e que muitos teriam que suportar o encargo, como infelizmente acontece freqüentemente em nosso país. Essa era a impressão quando neste ano as obras do viaduto foram retomadas num ritmo tal que hoje se encontra praticamente pronta. Nada demais se não fosse o fato de que junto com o andar das obras do viaduto, deu-se início ao projeto de construção de um muro ao longo da ferrovia, o que obrigará a população a usar em breve as ditas obras.

Mês passado, vimos uma faixa em protesto ao Muro de Campos Altos. As obras continuam. Na edição 159 do periódico quinzenal “Classificados Campos Altos” de 24 de junho de 2011, publicou-se na primeira página uma pequena entrevista com o prefeito, que motivou este artigo. O jornalista inicia a reportagem afirmando que a cerca dividirá a cidade, prejudicando o comércio local. Embora não concordemos com a veemência da afirmação de que os empresários terão “muito prejuízo”, a informação é válida, pois a rua do comércio ficará definitivamente murada, sendo então o melhor ponto comercial transferido para a rua do viaduto, o que não interessa aos comerciantes da primeira e agrada muito aos da segunda.

Diz o jornalista que a população já demonstrou o descontentamento com o muro. Não temos visto isso, fora a tal faixa de repúdio sem autoria. Fora isso, não presenciamos qualquer outra manifestação, seja desfavorável, seja favorável. Diz o prefeito que está com o “povo”. Mas quem é o povo neste caso? Os comerciantes, talvez. Ele afirma que Campos Altos precisa mais do que uma passarela e um viaduto. Concordamos com ele e gostaríamos muito de ver a prefeitura agindo mais em favor daqueles que circulam pela cidade a pé ou de carro. Que a prefeitura construa mais passarelas e viadutos! Só que esta solução não é nem mencionada, pois para o poder executivo municipal tudo deve ficar como está, isto é, obras feitas e acabadas, mas sem o muro. O projeto da prefeitura é então “impedir a construção desta cerca” de qualquer forma. Descobrimos assim que tudo é coisa do governo federal. É Brasília que constrói o Muro de Campos Altos.

Vamos tentar analisar a situação de forma mais imparcial.

De fato, o ministério dos transportes é o competente pela obra. O projeto é antigo, do governo do presidente Lula. A cerca vai dividir a cidade e haverá duas passagens, uma para veículos e outra para pedestres. O muro vai separar a parte mais rica da mais pobre, o que tende a tornar a cidade ainda mais desigual. O comércio da parte sul, mais desenvolvida sócio-economicamente, é moderno e desenvolvido basicamente no estilo supermercado, enquanto os comerciantes do norte se caracterizam por ser pequenos empresários, que trabalham junto com os empregados nas charmosas vendas.

A passarela é realmente desconfortável, o que provavelmente levará os pedestres a usarem a calçada do viaduto, melhor projetada. Logo, para pedestres, haverá duas alternativas para cruzar a ferrovia. Para veículos, apenas uma, mas suficientemente grande para toda a frota local, seja de carros, motos, tratores, carroças e cavalos. Além disso, a segurança aumentará, pois não haverá – pelo menos no primeiro momento – brecha para que alguém atravesse a estrada de ferro que não seja pelas obras federais. Portanto, o problema não é a preocupação com os idosos que motiva a prefeitura a ser contra as obras prontas.

Questões surgem. Impressiona, primeiramente, ninguém na cidade ter se preocupado com as conseqüências dos projetos enquanto elas estavam em fase de construção. Há, pelo menos, quatro anos que se vê os alicerces do plano de construção do viaduto, da passarela e do muro. Este, claro, faz parte da lista do que o ministério pretendia realizar em Campos Altos. Quando se construíram as duas primeiras obras ninguém reclamou. Na hora de vir aquela que dará segurança aos pedestres, o empresariado grita.

Para nós, ou é má-fé ou ingenuidade esperar anos e o fim das duas primeiras etapas do projeto para iniciar uma campanha contra apenas o muro. Logo, a pressão é do setor empresarial do norte. Só ele perde com o muro. Ele será obrigado a se transferir para a nova rua do comércio, que beneficiará o setor empresaria do sul e os proprietários dos casarões do norte. Mas também beneficiará num primeiro momento os mais carentes do nordeste, que ficarão mais próximos da principal via da cidade até o momento em que a especulação imobiliária os expulsar para um lugar menos interessante economicamente. É assim que acontece e sempre aconteceu. Não só aqui como alhures.

*Escrito em Campos Altos/MG no dia 27 de junho de 2011.

11 de março de 2012

A verdade

Por Valeriano Penaforte

A verdade é o alimento da alma

e ela me traz calma e paz.

A verdade é o alimento da alma

e coisas boas ela me faz.

Aqui jaz o velho homem

e o novo nasce logo atrás.

Seja só um

um a mais.

 

10 de março de 2012

A Grécia será por muito tempo a terra de ruínas

A Grécia conseguiu convencer seus credores privados a aceitar uma perda de 53,5% do valor das dívidas. Isso significa que desapareceram nos últimos dias cerca de €107 bilhões, o que foi considerado pela Folha de S. Paulo simplesmente o “maior calote da história”. Aparentemente os bancos perderam e a Grécia junto com a Europa se salvaram. Na realidade, é justamente o contrário. Mais uma vez os bancos se salvaram em detrimento do resto da população.

Os credores privados de Grécia trocaram títulos que não possuíam mais qualquer valor por títulos mais seguros. Com essa troca de papéis podres por outros mais saudáveis, eles receberam à vista 15% dos antigos créditos. Faltam então os últimos 31,5%, que são protegidos pela lei britânica para que a Grécia não queira mudar as regras do jogo num futuro próximo. Vale lembrar que o país passará por eleições no mês que vem. Isso significa que os gregos não mais são soberanos sobre suas finanças, tornando-se a primeira colônia da União Européia (UE). Uma importante função do Estado foi transferida a uma instituição internacional.

Além disso, os credores públicos, isto é, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujos recursos são obtidos dos cofres dos Estados membros, se comprometeram junto aos credores particulares a amenizar as perdas atuais e futuras com o repasse de recursos públicos através dos seguros de crédito contra falência, conhecidos como credit default swaps. O dinheiro de pessoas que diariamente pagam seus tributos em vista da melhoria da infra-estrutura social será utilizado para cobrir o rombo de outras pessoas que irresponsavelmente brincam com a economia internacional.

Se tudo continuar neste caminho, o BCE repassará agora à Grécia cerca de €130 bilhões, conforme o segundo plano europeu de salvamento da economia grega. Entretanto, este montante é vinculado, isto é, possui destinação previamente determinada pela UE. A maior parte do dinheiro sairá de Frankfurt, sede do banco, diretamente para o bolso dos credores privados. Cerca de €35 bilhões serão utilizados para o pagamento à vista dos 15% dos créditos. €35 bilhões devem ser usados para a reaquisição pela Grécia de parte da dívida. Outros €25 bilhões são destinados à recapitalização do setor bancário grego, que não podem ser nacionalizados de forma alguma pela Grécia; diferentemente do que fizeram os Estados Unidos com seus bancos quebrados em 2008.

Para investimento, sobram mais ou menos €35 bilhões, embora o dinheiro seja depositado em conta externa bloqueada, devendo ser disponibilizado apenas se as fases anteriores derem o resultado esperado. Há chance, assim, de que o resto da verba também seja utilizado futuramente para apagar algum incêndio financeiro.

Não podemos esquecer também que o dinheiro do BCE e do FMI não são doações, mas empréstimos. Logo, a Grécia, mais cedo ou mais tarde, terá que pagar também essas novas dívidas. Na verdade, o BCE e o FMI compraram a dívida do setor privado, permanecendo Atenas tão endividada quanto antes. Trata-se apenas da estatização de dívidas particulares.

Se tudo continuar neste caminho, a dívida grega será reduzida em 2% do Produto Interno Bruto (PIB), isto é, sairá dos 161% para os 159%. O FMI, muito entusiasmado, declarou que daqui a oito anos, em 2020, a relação dívida com o PIB na Grécia, alcançará o valor de 120%, o que corresponde ao valor que existia em 2009, quando começou a crise. A Grécia viverá em vão 11 anos… Se tudo der certo.

Como poderá dar certo, entretanto, se a soberania nacional da Grécia já não existe, o salário mínimo reduziu-se em 22%, as aposentadorias são 30% menores, o desemprego está acima de 20%, um programa de privatização é seriamente discutido, reformas da saúde e do trabalho devem acontecer? Como poderá dar certo, se, fora as medidas já tomadas, o país ainda se comprometeu a reduzir os gastos anuais na ordem de três bilhões de euros?

A Grécia será por muito tempo a terra de ruínas.

9 de março de 2012

Nem tão mudos

Por Carolina P. Fedatto

Mesmo mudos, em silêncio, em sonho ou na mais tenra infância, à nossa revelia, as palavras nos atravessam e direcionam nossa relação com o mundo e com o outro, nos colocando na cultura e na história. Deve ser por isso que as amamos e odiamos a ponto de julgá-las, relegando algumas à condição de chulas (inadequadas a grande parte das situações formais e escritas) e outras à classe das eruditas (mais apropriadas não só às circunstâncias cultas, mas acima de qualquer suspeita em ocasiões informais também). Mais grave que isso: muitas vezes imputamos esse juízo de valores lexical às pessoas que as utilizam, chegando à conclusão de que são, as pessoas mesmo, essencialmente, juntamente com suas ações e falares, reles ou doutas. E como a linguagem é algo de obrigatório e ao mesmo tempo profundamente ligado às questões sociais e históricas, essa etiqueta permanece colada nos sujeitos, deixando pouco espaço para a passagem entre as duas esferas. É justamente nisso que consiste o famigerado preconceito linguístico, conceito forte no domínio dos estudos da linguagem, mas que vem sendo diluído por reducionismos reacionários. Do meu ponto de vista, o preconceito linguístico é a fixação, o engessamento das categorias de popular e erudito como se estivessem protegidas dos fatores históricos e sociais, como se a língua fosse o último exemplar de uma espécie rara e não uma das condições que nos faz homens e não bichos.

Mas cada vez mais o popular se impõe como algo que existe de forma tão respeitável quanto o erudito e, nesse jogo de forças pela permanência histórica, muitas vezes é o erudito quem se mostra inadequado, não usual e fora de contexto. Quantas vezes numa conversa com um legítimo capiau não nos surpreendemos incompreensíveis porque pronunciamos na ordem correta todos os ‘s’ e ‘r’? Em dez minutos de papo já começamos a relaxar a articulação dos fonemas para que a conversa corra solta, de igual para igual. A grande perversidade dessas situações é que quem passou pela escola e/ou teve uma criação ilustrada tem maiores chances de transpor essa barreira e se aproximar do interlocutor. Mas aqueles que, pela iniquidade das condições de acesso e continuação, não avançaram nos estudos, não dispõem de ferramentas para compreender e participar do mundo instruído. É por isso que saber e poder andam juntos. Quem mais sabe, pode mais, porque experimentou situações diversas e deve ter aprendido a ser maleável com elas. E se nesse início de milênio continuamos a tentar encontrar suas diretrizes, acredito que a tônica do século XXI está na flexibilidade, na disposição para a mudança e para a subversão de ordens que não fazem mais sentido.

Sensível ao real estatuto do popular no mundo atual, o juiz Carlos Roberto Loiola, lá naquela beirada de sertão chamada Divinópolis, transgrediu os costumes jurídicos com maestria. Ele se insurgiu contra o pedantismo de uma das advogadas, que pediu que se retirasse dos autos de um processo a palavra “catireiro”, vocábulo tão marginalizado que nem o dicionário do Word reconhece… O excelentíssimo juiz tomou partido, não repetiu as litanias exigidas por sua função e negou o pedido da advogada justificando-se de forma brilhante e inusitada. O senhor Loiola fez constar na sentença, como segue, sua posição em relação às palavras e seus desdobramentos sociais. Também acho que chamar um falecido de ‘de cujus’ é bastante desrespeitoso com a memória do morto, assim como se referir a maridos e esposas como cônjuge-varão e cônjuge-varoa. Quando se trata, entretanto, do domínio erudito, as justificativas de filiação ao latim vestem como luva aqueles que desejam conservar o rei na barriga; nesses casos todos enxergam muito bem a roupa nova do imperador… O difícil é admitir a importância social das classes populares. Mas o que o funcionamento social não cansa de mostrar é que as discussões do velho Marx fazem ainda bastante sentido: os homens não fazem a história, ou pelos menos não como gostariam. A história é como é. E as palavras também.

 

8 de março de 2012

A cidade e a negação do outro

Por Lucas de Melo Melgaço*

Originalmente publicado na revista Com Ciência em 10 de maio de 2010 (www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=56&id=709)

Historicamente as cidades nunca foram locais igualmente acolhedores a todos. Elas nascem justamente do encontro e identificação entre um grupo de “iguais” interessados em se enriquecer e se defender da presença indesejada do “outro”. Os outros na cidade grega clássica eram, por exemplo, os estrangeiros e os prisioneiros de guerra. Na cidade medieval europeia, doentes como os leprosos eram os detentores dessa alcunha de “indesejáveis”. Atualmente, os imigrantes latinos nos Estados Unidos, os árabes e os negros africanos na Europa Ocidental e os nordestinos, homossexuais, negros, prostitutas, usuários de drogas, portadores de necessidades especiais, mendigos e desempregados no Brasil, são aqueles mais comumente considerados como os outros. A principal mudança em relação ao passado é que, mais do que questões de raça, credo, saúde ou nacionalidade, no atual período de globalização neoliberal tem sido a pobreza o principal atributo de diferenciação.

Muitas vezes a negação do outro não se dá apenas no âmbito das falas e das ações, mas se materializa em formas urbanas voltadas a separar e afastar os indesejáveis. Um exemplo muito presente na arquitetura das casas e apartamentos brasileiros são as dependências de empregada e as entradas e elevadores de serviço. Tais formas têm a função de demarcar os espaços de circulação e presença dos empregados e de lhes assinalar sua condição de outro.

Mais do que o interior das casas, porém, grandes complexos urbanísticos têm sido construídos como resposta a esse desejo de segregação. Os condomínios fechados, por exemplo, sejam horizontais ou verticais, têm no argumento da exclusividade o seu principal apelo publicitário. O ideal de felicidade vendido pelos agentes imobiliários passa pelo conceito de que é bom aquilo que pode ser usufruído de modo individual ou no máximo por um grupo de “semelhantes”. Muitas campanhas reforçam, por exemplo, o privilégio de se ter áreas verdes e praças de lazer exclusivas e sem a incômoda presença de “estranhos”. Ao invés de ter que lidar com o outro em uma praça pública de esportes, prefere-se o privilégio de se ter um campo de futebol particular, mesmo que ele passe a maior parte do tempo subutilizado por falta de jogadores.

Talvez seja, porém, um pouco demasiado dizer que os condomínios sejam totalmente intolerantes aos outros. Algumas dessas pessoas podem se tornar “desejáveis” quando úteis para o cumprimento de serviços pouco nobres, como a limpeza ou a vigilância. Sem faxineiros, empregadas domésticas e porteiros, funções geralmente delegadas a nordestinos, negros e pobres, seria inviável a existência dos condomínios fechados nos moldes em que foram pensados. Contudo, basta um furto dentro de um condomínio para que, de desejáveis, essas pessoas retornem à condição de indesejáveis. Na ocorrência de um crime, os primeiros suspeitos são sempre os outros, e nunca, por exemplo, um jovem morador do condomínio que faz pequenos furtos internos para manter seu vício em drogas.

A mesma lógica de criminalização do outro está presente também nas recentes estratégias de monitoramento das cidades através de câmeras de vigilância. Os suspeitos ali apontados são na maior parte das vezes aqueles que se enquadram no estereótipo do “marginal”, ou seja, cujos traços físicos, modo de vestir e de se comportar não estão dentro dos modelos considerados “normais”. As câmeras também são usadas como instrumentos de repulsa dos indesejáveis, como ocorre em São Paulo , onde elas foram instaladas no entorno do Jóquei Clube com o objetivo de inibir a presença de prostitutas.

O uso de instrumentos de vigilância também tem sido cada vez mais freqüente em escolas brasileiras, especialmente nas privadas, muitas vezes com o curioso argumento de que são estratégias contra o chamado bullying : um tipo de violência em que um grupo de estudantes promove humilhações e violência psicológica a colegas que não se enquadram nos padrões de estética e comportamento considerados normais. O bullying é uma violência de não aceitação da diferença, ou seja, de intolerância ao outro. As câmeras, porém, por serem instrumentos que primam pela homogeneização de comportamentos, surtirão efeito contrário ao esperado, pois reforçarão a intransigência a tudo que for excêntrico.

Ainda a propósito das escolas privadas, deve-se destacar que muitas delas têm servido como verdadeiros centros de formação para a não-aceitação da diferença. Desde cedo, as crianças que as frequentam são expostas a ambientes ultra-controlados e ultra-exclusivos. Na cidade de Campinas (São Paulo), por exemplo, o excesso de proteção fica claro no caso de uma escola que escolheu o interior de um shopping-center como local para a construção de uma de suas filiais. Não satisfeita, porém, apenas com a segurança fornecida pelo estabelecimento comercial, a direção da escola resolveu instalar câmeras de vigilância nos corredores do colégio e, até mesmo, no interior das salas de aula. O excesso de seletividade é evidente também graças aos altos valores das mensalidades praticados, o que faz com que apenas crianças de famílias com certas condições financeiras possam frequentar esses locais. Assim, ao invés de educarem as crianças a conviverem na diferença, essas instituições privadas inculcam, desde cedo, naquelas pequenas mentes, ideias de seletividade e de segregação. Além disso, enquanto a porcentagem de negros dentre os alunos de escolas particulares está evidentemente muito abaixo da média nacional, a porcentagem de negros em serviços de vigilância e limpeza desses estabelecimentos é certamente bem mais elevada.

A intolerância ao outro se faz ainda mais evidente em formas urbanas que são explicitamente construídas para impedir a presença dos indesejáveis. Em diversos lugares da cidade de Campinas podem ser vistos objetos pontiagudos cuja função é a de evitar que pessoas “estranhas” se sentem e ali permaneçam. Tais arquiteturas são muito comuns em frente a estabelecimentos comerciais (figura 1), mas podem também ser encontradas em lugares mais inusitados, como nas escadarias da Catedral de Campinas (figura 2).

Espetos colocados nas escadas da Catedral Metropolitana de Campinas, 2007. Autor: Tiago Macambira

Até mesmo a prefeitura da cidade, que deveria ser a principal representante do interesse público, tem o seu exemplar de arquitetura anti-indesejáveis. Na reforma de um viaduto em um bairro nobre, pedras pontiagudas foram instaladas com o intuito de afugentar moradores de rua e pedintes (figura 3). Essas são, obviamente, políticas que combatem o pobre, como ser indesejável na paisagem, e não exatamente a pobreza.

Esse tipo de arquitetura voltada à expulsão dos indesejáveis não é, contudo, exclusividade de Campinas, mesmo que nessa cidade a sua concentração seja incrivelmente alta. As duas fotos a seguir, a primeira de uma calçada de Londres e a segunda da entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne em Paris, mostram que essas formas arquitetônicas têm sido presentes em paisagens as mais diversas.

É lamentável constatar como alguns arquitetos direcionam sua imensa capacidade criativa em projetos como esses. Há, todavia, casos ainda mais engenhosos como o que ocorre na região da “Cracolândia” em São Paulo onde, para afastar usuários de craque, um equipamento gerador de “chuva artificial” foi instalado sob a marquise de um prédio. Outro exemplo inusitado pode ser encontrado em algumas cidades inglesas que instalaram aparelhos emissores de ruídos ultra-agudos imperceptíveis para os maiores de 25 anos de idade, mas extremamente incômodo para os jovens. Contudo, o mais curioso deles é certamente o da também inglesa Mansfield: luzes róseas, como aquelas utilizadas por dermatologistas, foram colocadas em algumas ruas da cidade com o objetivo de realçar as espinhas dos adolescentes arruaceiros e com isso desestimular a presença dos mesmos naqueles locais.

Há, assim, uma deliberada adaptação das cidades para que elas se tornem receptivas para alguns e repulsivas para os indesejáveis. Mais do que uma questão estética, porém, essas arquiteturas carregam uma profunda carga simbólica. Quando uma prefeitura chega ao ponto de construir formas urbanas para expulsar os pobres, ela revela que suas preocupações não são coletivas, mas direcionadas a servir aos interesses de uma pequena classe hegemônica.

Por fim, é importante que não nos esqueçamos da forma espacial que mais claramente revela o objetivo de negar e segregar os indesejáveis: a prisão. Independente do local onde tenham sido construídas, as prisões são sempre majoritariamente povoadas pelos outros, o que no caso brasileiro são, sobretudo, os pobres. Além disso, há muito, a preocupação da Justiça brasileira não é a de recuperar seus presidiários e trazer esses outros para perto dos iguais, mas sim mantê-los o maior tempo possível isolados e na eterna condição de outro. Assim como os espetos anti-indesejáveis, as prisões não resolvem os problemas estruturais e profundos da sociedade, mas se contentam em promover uma “limpeza da paisagem”, tirando da vista dos iguais a incômoda presença dos “diferentes”.

Pode se, então, concluir que a cidade de hoje, mais do que aquela do passado, nega ao outro a condição de cidadão, negação esta que tem na pobreza o seu principal argumento. E, como pôde ser visto, essa intransigência não se restringe aos atos, pois se concretiza em formas urbanas repulsivas e segregadoras. Com a existência dessas formas, as cidades passam a criar as condições para que a intolerância seja não só mantida como também reproduzida. Confirmando-se essa tendência, chegará certamente o momento em que as cidades de poucos “iguais” se tornarão insuportáveis para uma grande maioria de “outros”.

Figura 1: Arquitetura anti-indesejáveis no comércio do centro de Campinas/SP, 2009. Foto do autor.

Figura 2: Espetos colocados nas escadas da Catedral Metropolitana de Campinas, 2007. Foto de Tiago Macambira.

Figura 3: Arquitetura anti-indesejáveis sob o viaduto de Campinas, 2007. Foto de Tiago Macambira.

Figura 4: Calçada de Londres com arquitetura anti-indesejáveis, 2009. Foto do autor.

Figura 5: Arquitetura anti-indesejáveis na entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne, Paris, 2010. Foto do autor.

*Lucas de Melo Melgaço é doutor em geografia e colabora com A rês pública.

7 de março de 2012

Patrus para prefeito de BH

José Serra anunciou sua candidatura à prefeitura de São Paulo/SP pelo PSDB como um desafio eleitoral de âmbito nacional. Exageros à parte como é próprio de Serra, famoso por sua arrogância e seu orgulho, há certa verdade quando diz que o resultado da eleição municipal na capital paulista pode influenciar a disputa presidencial em 2014, quando a presidente Dilma Rousseff do PT poderá concorrer à reeleição. Isso se deve ao fato de que São Paulo é a principal cidade do Brasil em termos econômicos. Lá vivem mais de onze milhões de habitantes, o que equivale que neste município se encontram cerca de 6% dos brasileiros. Se se levar em conta a população da Grande São Paulo, esse índice sobe para pouco mais de 10% da população nacional. Em termos eleitorais, só a cidade de São Paulo corresponde a mais de sete milhões de pessoas aptas a votar. Não se pode desprezar a força eleitoral dos paulistanos em termos nacionais.

Fora a questão quantitativa, São Paulo, como todas as demais capitais estaduais, possui uma influência política muito forte nos municípios do interior. O estado de São Paulo, como seus mais de 40 milhões de habitantes, é democraticamente o suporte eleitoral do governo federal. Em vista desta conjuntura, ser prefeito da capital paulista pode, sim, moldar politicamente o estado, ainda mais levando-se em conta a homogeneidade socioeconômica dos municípios do estado.

José Serra, apesar dos crimes de lesa-pátria cometidos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso no esquema da privataria tucana, possui uma grande aceitação entre os paulistanos mais conservadores. As primeiras pesquisas dão conta de que Serra, após a divulgação da intenção de se candidatar à prefeitura de São Paulo, assumiu a ponta com 30% das intenções de voto. Já o candidato do PT, o também ex-ministro Fernando Haddad se encontra com 3%. Claro é que a campanha ainda não se iniciou e muita coisa pode acontecer. Inevitavelmente o tema da privataria tucana virá à tona e o candidato Serra não poderá ignorá-lo como insistentemente tem feito. O ex-presidente Lula, extremamente popular e quem bancou a candidatura de Haddad, entrará forte na campanha, ainda mais curado do câncer da laringe, como tem informado a imprensa. Com o Lula como cabo eleitoral, qualquer pessoa pode se eleger, haja vista o que aconteceu com a Dilma em 2010.

Entretanto, o PSDB é muito forte em São Paulo e, mesmo com Lula, o PT corre sério risco de não levar a parada. Por isso, as forças políticas populares que desejam continuar no poder federal a partir de 1o. de janeiro de 2015 não podem cruzar os braços e assistir à disputa eleitoral paulistana, como se apenas ali estivesse sendo travada a disputa pelo futuro nacional. É aqui que entra Belo Horizonte/MG.

Minas Gerais é o segundo colégio eleitoral do Brasil. É aqui que o Norte pobre e o Sul rico se encontram e são obrigados a conviver. É o mediterrâneo brasileiro. O estado é o fiel da balança e, para onde pender, aí caminhará a nação. Daí advém a importância da prefeitura de Belo Horizonte. Diferentemente do que acontece em São Paulo, Belo Horizonte sempre foi marcada por administrações de viés mais esquerdista. Desde 1993 até 2008, a capital mineira foi administrada por Patrus Ananias do PT, por Célio de Castro do PSB e por Fernando Pimentel do PT. Depois de 16 anos no comando do principal município do estado, na iminência de mais um mandato do PT, o PSDB mineiro comandado pelo então governador Aécio Neves resolveu adotar uma estratégia de rompimento do domínio petista em Belo Horizonte.

Quando da definição dos candidatos a prefeito no pleito de 2008, Aécio se aproximou do então prefeito, Pimentel, que não poderia concorrer a um terceiro mandato, propondo-lhe um acordo em que o PT e o PSDB apoiariam um candidato único à prefeitura naquele ano, que não fosse de nenhuma das duas legendas. Em troca, Aécio apoiaria Pimentel ao governo de Minas em 2010, quando tivesse que deixar o Palácio da Liberdade.

Apesar dos protestos de correntes independentistas, o PT mineiro acabou formalizando o acordo que propiciou a eleição de Márcio Lacerda do PSB, atual prefeito de Belo Horizonte. Dois anos depois, Aécio trairia Fernando Pimentel ao apoiar seu secretário Antonio Anastasia, candidato do PSDB, ao governo estadual. O PT mineiro, que contava com a candidatura “única” de Pimentel, foi pego de surpresa e não conseguiu reagir a tempo, deixando de apresentar candidato próprio e, o pior, indicando Patrus como vice na chapa de Hélio Costa do PMDB. Depois do desastre de Nilmário Miranda em 2006, quando o PT nacional, em vista do apoio do PMDB à reeleição de Lula, exigiu que os petistas mineiros apoiassem Newton Cardoso ao senado; em 2010, foi a vez de Patrus ser o mártir do apoio do PMDB à Dilma com a composição da chapa de Hélio Costa. No final da história, quem ganhou foi o PSDB de Aécio que elegeu Anastasia ao governo e tirou o PT da prefeitura de Belo Horizonte.

Em 2012, ano de eleição municipal. O prefeito Lacerda deseja se reeleger. Qual será o papel do PT mineiro? Há informação de que Pimentel, ministro de Dilma, apóia a reeleição de Lacerda em prol da coerência. Outros dizem que se Lacerda for apoiado pelo PT, isso fortaleceria ainda mais o PSDB mineiro em detrimento do PSDB paulista – o grande rival do PT nacional – e as chances de Serra não ser o candidato a presidente em 2014 aumentam. Mas o problema é que entregando mais uma vez de bandeja uma vitória eleitoral a Aécio, o PT poderá comprometer a reeleição de Dilma, pois Minas Gerais, como fiel da balança, penderia para o Sul.

De acordo com esse raciocínio, a melhor alternativa ao PT mineiro é lançar o Patrus como candidato a prefeito dos belo-horizontinos e criar um contrapeso político na capital do segundo maior colégio eleitoral a uma eventual vitória de Serra na capital do primeiro. Patrus tem bagagem política similar a de Serra. Combateu a ditadura militar, era membro da esquerda católica, advogado e professor de Direito, foi reconhecidamente um bom prefeito de Belo Horizonte entre 1992 e 1996, liderou o ministério de combate a miséria de Lula. Não há candidato do PSDB capaz de bater Patrus em Belo Horizonte. Sua vitória é certa. O PT assim colocaria um excelente beque para marcar homem-a-homem o principal atacante do PSDB. Fora o fato de Dilma garantir um palanque exclusivo no coração das Alterosas.

5 de março de 2012

Nova economia, nova Vida

Quando sustentamos em várias manifestações públicas da necessidade única que a crise financeira mundial leve o mundo ao fundo do poço, queremos com isso dizer que não há como haver Justiça num mundo fundado sobre um sistema econômico que privilegia poucos privilegiados em detrimento do resto. Ainda mais quando se percebe que as alternativas discutidas de resgate da economia global se fundam em mecanismos de aprofundamento das desigualdades, como temos visto no caso grego.

Em vista dos problemas sócio-ambientais pelos quais passava a humanidade antes do início da crise financeira internacional em 2008, os setores capitalistas dominantes resolveram acertar os ponteiros colocando o cidadão comum, que nada tem a ver com as grandes negociatas internacionais, a pagar a conta. Na Grécia, por exemplo, que é o caso mais evidente da perversidade dos planos de austeridade impostos pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o salário mínimo foi reduzido em 22%, as aposentadorias diminuíram 30%, o desemprego de mulheres jovens chega a 50%, nas escolas não há material desde setembro de 2011 nem aquecimento neste inverno.

Tudo isso para que, em 2020, o nível de endividamento da Grécia alcance o patamar de 2009! Socialmente não vale a pena. Na verdade, os ajustes servem somente para garantir os milionários dividendos das instituições bancárias que nada mais são do que pessoas jurídicas de Direito privado que ganham dinheiro administrando o risco de operações feitas com dinheiro alheio. Agora, em tempos de capitalismo neoliberal, parece que quando o risco lhes é desfavorável, o jogo está suspenso e o Estado deve lhes socorrer.

Claro é que tal radicalização só poderá piorar a vida de todos os outros, que não são proprietários de instituições financeiras. A esperança é que a tempestade passe e que o sistema volte ao eixo rotineiro. A questão é justamente que o sistema econômico dominante não pode prosperar para a manutenção da vida na Terra. Como bem diria Hervé Kempf, pour sauver la planète, sortez du capitalisme*. A quebra radical da economia global será um susto para todos, mas ao mesmo é uma excelente oportunidade para a reconstrução em novas bases. O problema é que os capitalistas, em tempos como este, se lembram da velha profecia de Karl Marx para quem as próprias contradições do capitalismo o levariam à extinção.

Independentemente do que ocorrerá nos próximos meses ou anos, há demonstrações do mal que o capitalismo proporciona ao mundo. Há alguns anos, os europeus, especialmente os franceses com os quais temos mais contato, passaram a adotar a regra segundo a qual se deve “consumir menos mas consumir melhor”. Em vista da constante perda do poder aquisitivo, os europeus procuram uma nova alternativa de consumo, dando uma segunda vida a objetos que em tempos “normais” já estariam na lata do lixo.

Na França o tricô retornou à moda, assim como a cozinha, a costura, os pequenos consertos e a decoração. Esses serviços que eram prestados por terceiros há bem pouco tempo, hoje são praticados pelos próprios interessados. Consequentemente a intensidade de utilização da criatividade pelas pessoas na França aumento, alcançando a taxa de 33%, segundo o sindicato Créaplus. Dentre todas as atividades “domesticadas”, destaca-se a cozinha. Pratos preparados em casa costumam ser mais baratos que os alimentos industrializados.

Na Inglaterra, criou-se o charity shop**, encontrado nos países continentais além Canal da Mancha. Trata-se de pequenos mercados em que são vendidos objetos usados a preços irrisórios. Além disso, procura-se cada vez mais por produtos locais para aproveitar os baixos custos de produção e distribuição. Assim, o desenvolvimento de pequenas empresas familiares dedicadas à manufatura em que quase não há divisão social do trabalho permite a distribuição espontânea do controle do mercado e dos meios de produção.

O mais interessante, entretanto, é perceber a valorização da ideia de que vale mais a pena reparar o velho do que readquirir o novo. Sophie Lemp publicou o livro intitulado Tout réparer à Paris*** onde previu o fim do descartável. É um guia em que elenca os estabelecimentos parisienses em que se pode fazer reparos em objetos danificados ao invés de jogá-los no lixo. A palavra “reciclagem” nunca esteve tão na moda na Europa. Que tal nós, brasileiros, adotarmos a ideia por aqui?

*Em tradução livre do francês, para salvar o planeta, saiam do capitalismo.

**Em tradução livre do inglês, mercado de caridade.

***Em tradução livre do francês, Tudo consertar em Paris.

4 de março de 2012

Poeta

Por Valeriano Penaforte

Minha mente é de poeta

Minha mente é de poeta

Assim como os poetas

e letristas de repente

de repente sou poeta.

3 de março de 2012

Há cheiro de golpe de Estado no ar do Brasil

Uma centena de militares da reserva assinaram um documento, denominado Manifesto à Nação, em reação ao enquadramento das agremiações militares feito pelo ministro da defesa, Celso Amorim, sob ordens da presidente Dilma Rousseff, após a divulgação de críticas dos reservistas contra o governo federal no que diz respeito à Comissão da Verdade. O primeiro manifesto polêmico foi assinado pelos presidentes do Clube Militar (Renato Cesar Tibau Costa), do Clube Naval (Ricardo Cabral) e do Clube da Aeronáutica (Carlos de Almeida Baptista), todos militares da reserva. O Manifesto à Nação reafirma a validade das críticas anteriores. Além disso, os reservistas elevam o tom ao acrescentar Amorim no rol de ministros sob suspeita. “Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade”, diz o novo documento militar.

Além do ministro da defesa, as ministras Eleonora Menicucci e Maria do Rosário e a própria comissão voltaram a ser alvo de crítica por parte dos reservistas. “A aprovação da Comissão da Verdade foi um ato inconsequente, de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”. Os militares continuam confundindo lei com interpretação da lei que cabe ao Poder Judiciário. Cabe exclusivamente a esta função estatal dizer se a comissão é uma afronta ou não à Lei da Anistia. O Poder Executivo só faz representar os anseios do povo de conhecer sua história, conforme o estabelecido pela Constituição. Se eventuais interessados vão procurar a Justiça para responsabilizar civil e penalmente os autores de violações aos direitos humanos, isso não é da alçada da Dilma ou de qualquer de seus ministros, mas uma atribuição exclusiva dos órgãos jurisdicionais que deverão apreciar o pedido. Se os militares estiverem com a razão, a causa será julgada improcedente. Simples assim. Mas o problema não é esse. A questão é que os militares não querem nem debater, o que de fato não é o forte da caserna. Os tempos são outros. Há enfim democracia depois que eles deixaram o Planalto e o diálogo aberto é a regra do jogo, inclusive para os militares, que são cidadãos como qualquer outro, submetidos igualmente à Lei, pois como diz o art. 5o. da Constituição promulgada com o fim da ditadura militar, “todos são iguais perante a Lei”.

Em face da insubordinação dos cem militares que subscreveram o Manifesto à Nação em que provocam o Estado de Direito ao complementarem o título com um “eles que venham, aqui não passarão”, o ministro Amorim comunicou que todos eles deverão ser punidos por indisciplina, conforme a legislação militar, o que pode implicar até a expulsão da corporação, independente de serem reservistas. Com o anúncio da punição dos autores do Manifesto à Nação, outros militares e até civis passaram a assinar o texto, atualizado com o título de A verdade sufocada, elevando a 386 o número de comprometidos. São 322 militares e 64 civis. Dois ex-chefes do Comando Militar do Leste (CML), que foram para a reserva recentemente e que promoveram dezenas de generais atualmente da ativa, também assinaram o documento. São eles, Luiz Cesário da Silveira Filho (reserva em 2009) e Rui Alves Catão (reserva em 2010). Cesário, em seu discurso de despedida do CML, exaltou o golpe militar de 1964, disse que participou deste movimento contra a legalidade sob a incontestável liderança do então general de brigada Emilio Garrastazu Médici, “de patriótica atuação posteriormente na Presidência”. Pode-se dizer assim, pautado pelo sentimento de hierarquia e gratidão próprios dos militares, que entre os insubordinados está gente capaz de arregimentar o pessoal que se encontra nos quartéis hoje. Antônio Araújo de Medeiros, general da reserva, que também aderiu ao movimento contra o governo federal, foi instrutor do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI). Valdésio Guilherme de Figueiredo, também subscritor d’A verdade sufocada, integrou o Superior Tribunal Militar (STM). Além deles, Gilberto Barbosa de Figueiredo, ex-presidente do Clube Militar, está dentro da ação de contestação ao comando militar da presidente da República. Fora os 44 generais, há o nome no manifesto atualizado de 195 coronéis, 32 tenentes-coronéis, 11 majores, 12 capitães, 14 tenentes, 9 subtenentes, 8 sargentos e um cabo. A lista com as adesões é atualizada diariamente e está publicada na página da internet d’A verdade sufocada, administrado pelo coronel Carlos Brilhante Ustra, que foi comandante do Doi-Codi entre 1970 a 1974. Gente acima do bem e do mal. Gente quite com a nação brasileira.

Há cheiro de tentativa de golpe de Estado no ar… Dilma tem que agir rápido para abafar o movimento antes que tenha que dar um tiro no peito ou fugir para o Uruguai.