Nova economia, nova Vida

Quando sustentamos em várias manifestações públicas da necessidade única que a crise financeira mundial leve o mundo ao fundo do poço, queremos com isso dizer que não há como haver Justiça num mundo fundado sobre um sistema econômico que privilegia poucos privilegiados em detrimento do resto. Ainda mais quando se percebe que as alternativas discutidas de resgate da economia global se fundam em mecanismos de aprofundamento das desigualdades, como temos visto no caso grego.

Em vista dos problemas sócio-ambientais pelos quais passava a humanidade antes do início da crise financeira internacional em 2008, os setores capitalistas dominantes resolveram acertar os ponteiros colocando o cidadão comum, que nada tem a ver com as grandes negociatas internacionais, a pagar a conta. Na Grécia, por exemplo, que é o caso mais evidente da perversidade dos planos de austeridade impostos pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o salário mínimo foi reduzido em 22%, as aposentadorias diminuíram 30%, o desemprego de mulheres jovens chega a 50%, nas escolas não há material desde setembro de 2011 nem aquecimento neste inverno.

Tudo isso para que, em 2020, o nível de endividamento da Grécia alcance o patamar de 2009! Socialmente não vale a pena. Na verdade, os ajustes servem somente para garantir os milionários dividendos das instituições bancárias que nada mais são do que pessoas jurídicas de Direito privado que ganham dinheiro administrando o risco de operações feitas com dinheiro alheio. Agora, em tempos de capitalismo neoliberal, parece que quando o risco lhes é desfavorável, o jogo está suspenso e o Estado deve lhes socorrer.

Claro é que tal radicalização só poderá piorar a vida de todos os outros, que não são proprietários de instituições financeiras. A esperança é que a tempestade passe e que o sistema volte ao eixo rotineiro. A questão é justamente que o sistema econômico dominante não pode prosperar para a manutenção da vida na Terra. Como bem diria Hervé Kempf, pour sauver la planète, sortez du capitalisme*. A quebra radical da economia global será um susto para todos, mas ao mesmo é uma excelente oportunidade para a reconstrução em novas bases. O problema é que os capitalistas, em tempos como este, se lembram da velha profecia de Karl Marx para quem as próprias contradições do capitalismo o levariam à extinção.

Independentemente do que ocorrerá nos próximos meses ou anos, há demonstrações do mal que o capitalismo proporciona ao mundo. Há alguns anos, os europeus, especialmente os franceses com os quais temos mais contato, passaram a adotar a regra segundo a qual se deve “consumir menos mas consumir melhor”. Em vista da constante perda do poder aquisitivo, os europeus procuram uma nova alternativa de consumo, dando uma segunda vida a objetos que em tempos “normais” já estariam na lata do lixo.

Na França o tricô retornou à moda, assim como a cozinha, a costura, os pequenos consertos e a decoração. Esses serviços que eram prestados por terceiros há bem pouco tempo, hoje são praticados pelos próprios interessados. Consequentemente a intensidade de utilização da criatividade pelas pessoas na França aumento, alcançando a taxa de 33%, segundo o sindicato Créaplus. Dentre todas as atividades “domesticadas”, destaca-se a cozinha. Pratos preparados em casa costumam ser mais baratos que os alimentos industrializados.

Na Inglaterra, criou-se o charity shop**, encontrado nos países continentais além Canal da Mancha. Trata-se de pequenos mercados em que são vendidos objetos usados a preços irrisórios. Além disso, procura-se cada vez mais por produtos locais para aproveitar os baixos custos de produção e distribuição. Assim, o desenvolvimento de pequenas empresas familiares dedicadas à manufatura em que quase não há divisão social do trabalho permite a distribuição espontânea do controle do mercado e dos meios de produção.

O mais interessante, entretanto, é perceber a valorização da ideia de que vale mais a pena reparar o velho do que readquirir o novo. Sophie Lemp publicou o livro intitulado Tout réparer à Paris*** onde previu o fim do descartável. É um guia em que elenca os estabelecimentos parisienses em que se pode fazer reparos em objetos danificados ao invés de jogá-los no lixo. A palavra “reciclagem” nunca esteve tão na moda na Europa. Que tal nós, brasileiros, adotarmos a ideia por aqui?

*Em tradução livre do francês, para salvar o planeta, saiam do capitalismo.

**Em tradução livre do inglês, mercado de caridade.

***Em tradução livre do francês, Tudo consertar em Paris.

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