Nem tão mudos

Por Carolina P. Fedatto

Mesmo mudos, em silêncio, em sonho ou na mais tenra infância, à nossa revelia, as palavras nos atravessam e direcionam nossa relação com o mundo e com o outro, nos colocando na cultura e na história. Deve ser por isso que as amamos e odiamos a ponto de julgá-las, relegando algumas à condição de chulas (inadequadas a grande parte das situações formais e escritas) e outras à classe das eruditas (mais apropriadas não só às circunstâncias cultas, mas acima de qualquer suspeita em ocasiões informais também). Mais grave que isso: muitas vezes imputamos esse juízo de valores lexical às pessoas que as utilizam, chegando à conclusão de que são, as pessoas mesmo, essencialmente, juntamente com suas ações e falares, reles ou doutas. E como a linguagem é algo de obrigatório e ao mesmo tempo profundamente ligado às questões sociais e históricas, essa etiqueta permanece colada nos sujeitos, deixando pouco espaço para a passagem entre as duas esferas. É justamente nisso que consiste o famigerado preconceito linguístico, conceito forte no domínio dos estudos da linguagem, mas que vem sendo diluído por reducionismos reacionários. Do meu ponto de vista, o preconceito linguístico é a fixação, o engessamento das categorias de popular e erudito como se estivessem protegidas dos fatores históricos e sociais, como se a língua fosse o último exemplar de uma espécie rara e não uma das condições que nos faz homens e não bichos.

Mas cada vez mais o popular se impõe como algo que existe de forma tão respeitável quanto o erudito e, nesse jogo de forças pela permanência histórica, muitas vezes é o erudito quem se mostra inadequado, não usual e fora de contexto. Quantas vezes numa conversa com um legítimo capiau não nos surpreendemos incompreensíveis porque pronunciamos na ordem correta todos os ‘s’ e ‘r’? Em dez minutos de papo já começamos a relaxar a articulação dos fonemas para que a conversa corra solta, de igual para igual. A grande perversidade dessas situações é que quem passou pela escola e/ou teve uma criação ilustrada tem maiores chances de transpor essa barreira e se aproximar do interlocutor. Mas aqueles que, pela iniquidade das condições de acesso e continuação, não avançaram nos estudos, não dispõem de ferramentas para compreender e participar do mundo instruído. É por isso que saber e poder andam juntos. Quem mais sabe, pode mais, porque experimentou situações diversas e deve ter aprendido a ser maleável com elas. E se nesse início de milênio continuamos a tentar encontrar suas diretrizes, acredito que a tônica do século XXI está na flexibilidade, na disposição para a mudança e para a subversão de ordens que não fazem mais sentido.

Sensível ao real estatuto do popular no mundo atual, o juiz Carlos Roberto Loiola, lá naquela beirada de sertão chamada Divinópolis, transgrediu os costumes jurídicos com maestria. Ele se insurgiu contra o pedantismo de uma das advogadas, que pediu que se retirasse dos autos de um processo a palavra “catireiro”, vocábulo tão marginalizado que nem o dicionário do Word reconhece… O excelentíssimo juiz tomou partido, não repetiu as litanias exigidas por sua função e negou o pedido da advogada justificando-se de forma brilhante e inusitada. O senhor Loiola fez constar na sentença, como segue, sua posição em relação às palavras e seus desdobramentos sociais. Também acho que chamar um falecido de ‘de cujus’ é bastante desrespeitoso com a memória do morto, assim como se referir a maridos e esposas como cônjuge-varão e cônjuge-varoa. Quando se trata, entretanto, do domínio erudito, as justificativas de filiação ao latim vestem como luva aqueles que desejam conservar o rei na barriga; nesses casos todos enxergam muito bem a roupa nova do imperador… O difícil é admitir a importância social das classes populares. Mas o que o funcionamento social não cansa de mostrar é que as discussões do velho Marx fazem ainda bastante sentido: os homens não fazem a história, ou pelos menos não como gostariam. A história é como é. E as palavras também.

 

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3 Comentários to “Nem tão mudos”

  1. Gostei dos comentários. É raro encontrar comentários acerca de sentenças judiciais que lhes sejam fiéis ao espírito do julgador, no momento do julgamento. Nem o serviço de comunicação social do Tribunal de Justiça tem conseguido essa façanha. Há muita distorção. Teus comentários não. Estão perfeitos. Parabéns. É isso aí!
    Carlos Roberto Loiola
    Juiz de Direito
    Divinópolis/MG

  2. Belas palavras! tanto as tuas quanto as do magistrado.
    Lembrar-me-ei de perguntá-lo sobre a última flor do Lácio.
    Marcos Vinícius E. Loiola
    Singélo acadêmico de direito

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