O Muro de Campos Altos

Por Carolina P. Fedatto e André de Paiva Toledo*

Conhecemos a cidade de Campos Altos há quatro anos. Neste período nos apaixonamos por sua gente e por sua geografia. Consideramo-nos cidadãos campos-altenses e no intuito de contribuir para o alargamento da discussão democrática de nossa sociedade, resolvemos nos pronunciar acerca do Muro de Campos Altos, assunto que tanto tem ocupado os veículos locais de informação por mais rudimentares que sejam.

Nos primeiros passeios, percebemos que havia uma obra que não ornava com o ambiente bucólico e pacato da cidade. Tratava-se de um viaduto para automóveis aparentemente abandonado com ar de elefante branco sem serventia aparente. Desde 1912 corta a cidade de leste a oeste uma estrada de ferro, fazendo com que haja aqui uma fronteira que separa a zona sul da zona norte. É uma via muito utilizada, embora os trens que nela passam impressionam mais pelo barulho do que pela velocidade. O viaduto de automóveis inacabado liga as regiões norte e sul por cima da ferrovia.

Parada esta obra, iniciou-se outra a poucos metros a oeste da primeira. Foi concluída rapidamente, sem dar tempo de qualquer debate a respeito. Construiu-se uma passarela de pedestre para atravessar a ferrovia que mais parece um exemplo de arquitetura espontânea de Gaudí do que um trabalho de utilidade pública. Por causa da altura dos trens, a passarela é mais alta do que larga. Para ocupar menos espaço, fez-se um sistema de curvas que obriga o transeunte a subir uma rampa de três círculos, antes de caminhar poucos metros para atravessar a estrada de ferro para depois descer mais três círculos do outro lado. Todo o trajeto faz o cidadão percorrer uma distância razoável se comparado aos poucos centímetros de largura da via facilmente atravessada com uma passada ligeiramente mais larga.

A passarela abandonada pela população. O viaduto abandonado pelo poder público. Tudo levava a crer que poucos tinham se dado bem com aquilo tudo e que muitos teriam que suportar o encargo, como infelizmente acontece freqüentemente em nosso país. Essa era a impressão quando neste ano as obras do viaduto foram retomadas num ritmo tal que hoje se encontra praticamente pronta. Nada demais se não fosse o fato de que junto com o andar das obras do viaduto, deu-se início ao projeto de construção de um muro ao longo da ferrovia, o que obrigará a população a usar em breve as ditas obras.

Mês passado, vimos uma faixa em protesto ao Muro de Campos Altos. As obras continuam. Na edição 159 do periódico quinzenal “Classificados Campos Altos” de 24 de junho de 2011, publicou-se na primeira página uma pequena entrevista com o prefeito, que motivou este artigo. O jornalista inicia a reportagem afirmando que a cerca dividirá a cidade, prejudicando o comércio local. Embora não concordemos com a veemência da afirmação de que os empresários terão “muito prejuízo”, a informação é válida, pois a rua do comércio ficará definitivamente murada, sendo então o melhor ponto comercial transferido para a rua do viaduto, o que não interessa aos comerciantes da primeira e agrada muito aos da segunda.

Diz o jornalista que a população já demonstrou o descontentamento com o muro. Não temos visto isso, fora a tal faixa de repúdio sem autoria. Fora isso, não presenciamos qualquer outra manifestação, seja desfavorável, seja favorável. Diz o prefeito que está com o “povo”. Mas quem é o povo neste caso? Os comerciantes, talvez. Ele afirma que Campos Altos precisa mais do que uma passarela e um viaduto. Concordamos com ele e gostaríamos muito de ver a prefeitura agindo mais em favor daqueles que circulam pela cidade a pé ou de carro. Que a prefeitura construa mais passarelas e viadutos! Só que esta solução não é nem mencionada, pois para o poder executivo municipal tudo deve ficar como está, isto é, obras feitas e acabadas, mas sem o muro. O projeto da prefeitura é então “impedir a construção desta cerca” de qualquer forma. Descobrimos assim que tudo é coisa do governo federal. É Brasília que constrói o Muro de Campos Altos.

Vamos tentar analisar a situação de forma mais imparcial.

De fato, o ministério dos transportes é o competente pela obra. O projeto é antigo, do governo do presidente Lula. A cerca vai dividir a cidade e haverá duas passagens, uma para veículos e outra para pedestres. O muro vai separar a parte mais rica da mais pobre, o que tende a tornar a cidade ainda mais desigual. O comércio da parte sul, mais desenvolvida sócio-economicamente, é moderno e desenvolvido basicamente no estilo supermercado, enquanto os comerciantes do norte se caracterizam por ser pequenos empresários, que trabalham junto com os empregados nas charmosas vendas.

A passarela é realmente desconfortável, o que provavelmente levará os pedestres a usarem a calçada do viaduto, melhor projetada. Logo, para pedestres, haverá duas alternativas para cruzar a ferrovia. Para veículos, apenas uma, mas suficientemente grande para toda a frota local, seja de carros, motos, tratores, carroças e cavalos. Além disso, a segurança aumentará, pois não haverá – pelo menos no primeiro momento – brecha para que alguém atravesse a estrada de ferro que não seja pelas obras federais. Portanto, o problema não é a preocupação com os idosos que motiva a prefeitura a ser contra as obras prontas.

Questões surgem. Impressiona, primeiramente, ninguém na cidade ter se preocupado com as conseqüências dos projetos enquanto elas estavam em fase de construção. Há, pelo menos, quatro anos que se vê os alicerces do plano de construção do viaduto, da passarela e do muro. Este, claro, faz parte da lista do que o ministério pretendia realizar em Campos Altos. Quando se construíram as duas primeiras obras ninguém reclamou. Na hora de vir aquela que dará segurança aos pedestres, o empresariado grita.

Para nós, ou é má-fé ou ingenuidade esperar anos e o fim das duas primeiras etapas do projeto para iniciar uma campanha contra apenas o muro. Logo, a pressão é do setor empresarial do norte. Só ele perde com o muro. Ele será obrigado a se transferir para a nova rua do comércio, que beneficiará o setor empresaria do sul e os proprietários dos casarões do norte. Mas também beneficiará num primeiro momento os mais carentes do nordeste, que ficarão mais próximos da principal via da cidade até o momento em que a especulação imobiliária os expulsar para um lugar menos interessante economicamente. É assim que acontece e sempre aconteceu. Não só aqui como alhures.

*Escrito em Campos Altos/MG no dia 27 de junho de 2011.

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One Comment to “O Muro de Campos Altos”

  1. Acredito q não foi repassado tudo pra população. assim como eu achava q a passarela e o viaduto foram justamente pra não precisar searar com o “muro”. Não tem pq separar, bastava empregar uma pessoa e colocar uma cancela. Como se não bastasse aquela passarela ridicula. quem fechar?! Não vamos aceitar.

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