Archive for maio 14th, 2012

14 de maio de 2012

O supermercado

Por Carolina P. Fedatto

Hoje é segunda, e de manhã; não sexta, dia que me foi designado para publicar croniquetas n’A rês. Podia escrever em qualquer dia, de qualquer lugar, mas guardava o pequeno texto, seu esboço ou ideia, de modo a que todas as sextas – durante pouco tempo, é verdade – entardecessem com o anúncio de uma nova postagem de minha autoria.

O fato é que há quase dois meses perdi o hábito de encarar os eventos quotidianos com olhos de crítica e fantasia, aqueles olhos que podem transformar bobagens em algo que atire interesse de leitura. Mas esta manhã olhei para umas palavras de Agustina Bessa-Luís sobre o supermercado. E me deu vontade de escrever, também graças aos últimos acontecimentos domésticos: primeiro dia útil no novo escritório, aventuras caseiras pelas redondezas, mercados, utensílios domésticos, recepção de dia das mães. O supermercado faz parte, como nunca, dos dias dessa recém-casada. Vivendo no centro da cidade, trombando com gente o tempo todo, gente boa, pobre, rica, doida, solícita, drogada, apressada, passando, pedindo, morando, eu, que já era sensível às determinações que os espaços impõem, não consegui escapar aos encantos de uma crítica aos grandes mercados como consequência do estilo de vida que as grandes cidades proporcionam.

Quem nunca se alegrou nesses lindos hipermercados com o clima de festa, a iluminação excessiva e a oferta banal de tudo o que pode existir no mundo? E em seguida não se descontentou, dor no fundo dos olhos, com a falta justamente daquilo que procurava, filas espantosas nos caixas e ambições triviais plenamente satisfeitas [ao menos temos sacolas para carregar pão, manteiga, leite, dois travesseiros da NASA, cobertores de microfibra e uma toalha que, ainda não sabemos, vai encolher à primeira lavagem e deixar à mostra a ponta esquerda da mesa de jantar]? Como catedrais da conveniência, os supermercados dão, e isso quem me soprou ao ouvido foi a portuguesa A. Bessa-Luís, “a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece.”

Por que será? Será mesmo? Ou seria somente o corpo a corpo com o desconhecido que nos faz temer a cidade sem a intervenção de câmeras de segurança, sem o olhar treinado de agentes estaduais, municipais e privados, sem estacionamento, cobertura ou ar condicionado? Apesar desse medo normal que nos acomete como a grande mão reguladora de mercados, como o grande irmão sempre vigilante, acredito ainda na capacidade de encanto pelo inesperado. É por isso que celebro a liberdade da vida tumultuada em um apartamento alugado no centro. Meio idealista. Mas vejamos novamente o contexto.

Li nos últimos dois meses dois livros de conferências e ensaios de dois grandes escritores estrangeiros. Os discursos de Garcia Marques me encheram de realismo e certezas que caem por terra ao menor sinal de envolvimento e paixão.[1] As interinvenções de Mia Couto acalentaram meu desejo de pés nas nuvens e aquela dificuldade em fazer o que é preciso porque os questionamentos de mundo mais paralisam do que movem.[2] Isso para dizer que não consigo me sentir em casa em ambientes ascéticos e homogêneos. Que se as multidões podem ser perigosas, viver é mesmo muito perigoso, como repetia Guimarães Rosa, e ainda prefiro viver ilusões a viverem uma só ilusão.


[1] Garcia Marques, Gabriel. Eu não vim fazer um discurso. Rio de Janeiro: Record.

[2] Couto, Mia. E se Obama fosse africano? São Paulo: Companhia das Letras.

14 de maio de 2012

A falácia dos dois lados

Por Paulo Moreira Leite*

Leio na Folha que, conforme José Carlos Dias, um dos mais conhecidos integrantes da Comissão da Verdade formada para investigar crimes de direitos humanos, ela deverá focalizar as responsabilidades dos “dois lados”.

José Carlos Dias foi advogado de presos políticos durante a ditadura. Também foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Este ponto de vista é preocupante.

A Comissão não foi criada como um seminário genérico sobre desrespeito aos direitos humanos – onde caberia avaliar erros e desvios de conduta de qualquer pessoa, autoridade ou não, de direita ou de esquerda, em qualquer  tempo e espaço do território brasileiro. Caberia, nessa situação, discutir o papel dos “dois lados”. Ou três “lados,” quatro, ou cinco…

Criou-se a Comissão da Verdade com uma finalidade específica, que é examinar os crimes da ditadura,  porque esta foi a lacuna deixada pela história. Estamos falando de crimes cometidos por representantes do Estado, em nome dele, e não por qualquer pessoa.

E queremos a verdade – não uma guerra de versões nem uma história declaratória.

Ou será que vamos julgar o “lado bom” e o “lado ruim” da da ditadura, ou lado “bom” e o lado “ruim” de quem lhe fazia oposição?

A idéia é mostrar que “os dois lados” cometeram erros e devem ser igualmente perdoados?

Ninguém percebeu que toda ditadura é, por definição, um regime de “um lado só”?

Os atos – violentos ou não, legítimos ou não — cometidos pelos adversários do regime militar foram apurados, avaliados e punidos em seu devido tempo, como demonstram as  7.367 denuncias apresentadas à Justiça Militar entre 1964 e 1979.

No esforço para punir brasileiros que não aceitavam submeter-se a um regime de força, criado a partir de um golpe que derrubou um governo constitucional, o Estado brasileiro cometeu crimes inaceitáveis e vergonhosos. Executou pessoas indefesas, não informou seu paradeiro às famílias nem deu esclarecimentos fidedignos sobre os acontecimentos envolvidos em suas mortes. São estes fatos que a Comissão deve apurar.

O esforço para olhar os “dois lados” do período só faria sentido se naquele período estivéssemos diante de um Poder legítimo, que teria cometido excessos e abusos em nome de seu direito de exercer a violência para garantir o respeito à lei e à ordem.

Mas não é disso que se trata. Estamos falando do massacre da Lapa, ocorrido em 1976, quando três militantes foram executados sem que pudessem representar perigo algum, ameaça alguma. Ou sobre Rubens Paiva, empresário que compareceu em seu carro para prestar um depoimento  ao Exército e nunca mais foi visto.

A maioria dos atos de violência cometidos pelos adversários do regime foram julgados e esclarecidos, com emprego de tortura e violência nos interrogatórios, inclusive contra menores, às vezes na presença de crianças.

Quando isso não ocorreu, é porque os acusados não tiveram direito de defesa. Foram executados de modo sumário e covarde em vez de serem levados aos tribunais. Eliminá-los tinha prioridade sobre garantir o respeito à Lei – mesmo a lei do regime militar.

Não por acaso, todo esforço de esclarecer mesmo crimes atribuídos a oposição se volta contra a ditadura e seus responsáveis — mais uma vez, é o regime de um lado só.

Por exemplo: quem gosta de lembrar que o capitão Carlos Lamarca foi um dos responsáveis pelo julgamento e execução do tenente PM Alberto Mendes, no Vale da Ribeira, deveria perguntar a quem perseguiu e fuzilou o próprio Lamarca, faminto e doente, no interior da Bahia, por que não se quis levar um dos chefes da guerrilha ao banco dos réus. Ali Lamarca poderia esclarecer as circunstâncias e motivações daquela decisão trágica.

Outro exemplo: quem gostaria de apurar assaltos e atos de violência cometidos pelos Grupos Táticos Armados da ALN poderia conseguir um depoimento dos policiais ainda vivos da equipe do delegado Fleury. Eles poderiam explicar por que se preferiu executar Carlos Marighella numa rua dos Jardins, em São Paulo, em vez de lhe dar uma chance de explicar-se num tribunal civilizado.

Isso aconteceu porque, entre 1964 e 1985 o Brasil foi governado por um regime que usurpou o Estado brasileiro ao impedir que a população escolhesse seus governantes por métodos democráticos.

A longa noite da ditadura foi uma sucessão de atos anti democráticos e ilegais, que tiveram início com um golpe de Estado e prosseguiram em medidas autoritárias contra a Justiça e os direitos do cidadão.

Por isso seus atos não podem ser nivelados à resistência de quem teve disposição e capacidade de sacrifício para enfrentar um regime de força.

Fazer isso implica em embelezar a ditadura, dar-lhe uma estatura moral que ela não possuía e nunca pretendeu possuir, pois governava essencialmente a partir da força bruta.

Guardando todas as diferenças entre os dois casos, alguém acharia razoável que, para se investigar Klaus Barbie, o carrasco nazista de Lyon, se apurasse a violência organizada pela Resistência Francesa de Jean Moulin?

Ou que as investigações sobre o ditador Rafael Vidella, chefe de uma ditadura que matou milhares de argentinos, só pudessem ser iniciadas depois que se esclarecesse o papel de Mário Santucho, um dos líderes da luta armada,  em atos de violência?

*Originalmente publicado na página eletrônica da revista “Época”, conforme http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/05/14/a-falacia-dos-dois-lados/