O supermercado

Por Carolina P. Fedatto

Hoje é segunda, e de manhã; não sexta, dia que me foi designado para publicar croniquetas n’A rês. Podia escrever em qualquer dia, de qualquer lugar, mas guardava o pequeno texto, seu esboço ou ideia, de modo a que todas as sextas – durante pouco tempo, é verdade – entardecessem com o anúncio de uma nova postagem de minha autoria.

O fato é que há quase dois meses perdi o hábito de encarar os eventos quotidianos com olhos de crítica e fantasia, aqueles olhos que podem transformar bobagens em algo que atire interesse de leitura. Mas esta manhã olhei para umas palavras de Agustina Bessa-Luís sobre o supermercado. E me deu vontade de escrever, também graças aos últimos acontecimentos domésticos: primeiro dia útil no novo escritório, aventuras caseiras pelas redondezas, mercados, utensílios domésticos, recepção de dia das mães. O supermercado faz parte, como nunca, dos dias dessa recém-casada. Vivendo no centro da cidade, trombando com gente o tempo todo, gente boa, pobre, rica, doida, solícita, drogada, apressada, passando, pedindo, morando, eu, que já era sensível às determinações que os espaços impõem, não consegui escapar aos encantos de uma crítica aos grandes mercados como consequência do estilo de vida que as grandes cidades proporcionam.

Quem nunca se alegrou nesses lindos hipermercados com o clima de festa, a iluminação excessiva e a oferta banal de tudo o que pode existir no mundo? E em seguida não se descontentou, dor no fundo dos olhos, com a falta justamente daquilo que procurava, filas espantosas nos caixas e ambições triviais plenamente satisfeitas [ao menos temos sacolas para carregar pão, manteiga, leite, dois travesseiros da NASA, cobertores de microfibra e uma toalha que, ainda não sabemos, vai encolher à primeira lavagem e deixar à mostra a ponta esquerda da mesa de jantar]? Como catedrais da conveniência, os supermercados dão, e isso quem me soprou ao ouvido foi a portuguesa A. Bessa-Luís, “a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece.”

Por que será? Será mesmo? Ou seria somente o corpo a corpo com o desconhecido que nos faz temer a cidade sem a intervenção de câmeras de segurança, sem o olhar treinado de agentes estaduais, municipais e privados, sem estacionamento, cobertura ou ar condicionado? Apesar desse medo normal que nos acomete como a grande mão reguladora de mercados, como o grande irmão sempre vigilante, acredito ainda na capacidade de encanto pelo inesperado. É por isso que celebro a liberdade da vida tumultuada em um apartamento alugado no centro. Meio idealista. Mas vejamos novamente o contexto.

Li nos últimos dois meses dois livros de conferências e ensaios de dois grandes escritores estrangeiros. Os discursos de Garcia Marques me encheram de realismo e certezas que caem por terra ao menor sinal de envolvimento e paixão.[1] As interinvenções de Mia Couto acalentaram meu desejo de pés nas nuvens e aquela dificuldade em fazer o que é preciso porque os questionamentos de mundo mais paralisam do que movem.[2] Isso para dizer que não consigo me sentir em casa em ambientes ascéticos e homogêneos. Que se as multidões podem ser perigosas, viver é mesmo muito perigoso, como repetia Guimarães Rosa, e ainda prefiro viver ilusões a viverem uma só ilusão.


[1] Garcia Marques, Gabriel. Eu não vim fazer um discurso. Rio de Janeiro: Record.

[2] Couto, Mia. E se Obama fosse africano? São Paulo: Companhia das Letras.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: