Archive for junho, 2012

20 de junho de 2012

Uma súplica por Campos Altos

Depois que se cruza o rio São Francisco rumo do Oeste, assiste-se a uma sucessão de várzeas alagadas antes de iniciar a subida da Serra que empareda o lago de Furnas ao Leste, o rio Grande ao Sul e o rio Paranaíba ao Norte. No ponto em que todas as bacias hidrográficas e as microrregiões queijeiras se unem; ali se encontra um pequena estação ferroviária construída há um século no meio de uma fazenda. Os trens que cruzavam aqueles campos de terras altas na direção do caminho solar trouxeram para ali passageiros, que diante do esplendor daqueles matos, por ali ficavam sempre a adiar a partida até que, quando menos percebiam, já faziam parte daquela paisagem.

Com o processo de urbanização e industrialização, a cidade que naqueles cumes surgiu perdeu importância para outras mais próximas do litoral e de São Paulo – berço da indústria brasileira. Não havia mais aquela efevercência dos primeiros anos em que o País andava sobre o carro-de-boi levando o café e o leite. A decadência econômica levou os poucos fazendeiros daqueles campos altos a se voltarem para si mesmo a fim de proteger-se daquela estranha modernidade. Afinal de contas, aquilo tudo ali sempre fora uma grande fazenda. A urbe que ao redor da estação de trem se formou perdeu uma boa parcela de sua população de outrora que se encaminhava para os lados do Araxá ou davam marcha ré rumo a Belo Horizonte, depois de reatravessar o rio São Francisco.

Aqueles que resistiam por amor à terra ou por falta de opção tiveram que se submeter à velha lógica agrícola em que se inseriam na lida em troca de alimentos e moradia. Viver ali voltou a ser uma concessão dos poucos proprietários de terra que ali estavam desde tempos imemoriais. O vínculo de trabalho era mais um ato de gratidão do que a venda da força de trabalho aos donos dos meios de produção. O suspiro de capitalismo deu lugar ao velho feudalismo à brasileira. A perda da oportunidade de industrialização, isto é, de uma maior especialização das relações capitalistas no alto daquelas montanhas nunca mais pôde de ser recuperada. Anos depois, diante do início da crise econômica mundial, que já dura 40 anos com altos e baixos, aquela cidade encrustrada onde “o vento faz a curva”, “dançou conforme a música” sem muita coragem de arriscar. Os poucos bem-de-vida temem perder o que têm diante da ameaça que sempre trazem as novidades dessa maluca globalização. Os muitos mal-de-vida só pensam em sobreviver e têm diante dos líderes políticos locais, representantes da elite econômica, uma atitude de passividade absoluta, pois para eles o risco de perder tudo é ainda muito maior do que para o pessoal da “prateleira de cima”.

No meio dessa confusão toda, um menino que sempre passava por ali vindo da capital para visitar a avó naqueles altiplanos, como os passageiros de trem da primeira metade do séc. XX, apaixonou-se por aquela serra de onde, segundo uma prima do Ibiá, podia-se enxergar à noite a iluminação de sete cidades do vale do São Francisco. A Canastra começava ali e só aquele pedacinho de chão foi o suficiente para embasbacar aquele rapaz, fã de mapas e globos. Era com o coração na boca que ele em vão tentava contar o número de tons de verde, vermelho e azul daqueles campos, que muitas vezes se confundiam naquele céu enorme, considerado por muitos – locais, naturalmente – “o mais belo horizonte de Minas”.

Quando adulto, o adulto, que era rapaz e menino ao mesmo tempo, teve a oportunidade de escolher onde trabalhar. Havia uma lista enorme de cidades do estado, mas um nome lhe saltou às vistas no primeiro olhar: Campos Altos. Enfim, a criança, o jovem e o adulto puderam realizar a promessa de um dia mergulhar naquele paraíso da natureza. Há cinco anos ele está lá com um olho na lida e outro no céu. Nesse tempo, entretanto, aprendeu ele a muito contragosto a letargia da sociedade local para a comunitarização dos benefícios econômicos e sociais em favor dos privilégios daqueles poucos que não precisam de mais benesses. Há um clamor silencioso, subterrâneo, implícito para que aquela sociedade partilhe entre todos uma parte maior das riquezas concentradas nas mãos de uma meia-dúzia. Ato este que não fará nem cócegas para esse pequeno grupo, enquanto para o resto poderá corresponder ao ponta-pé inicial de uma vida condizente com aquele espaço de abundância.

No estágio atual em que relações econômica de tipo feudal ainda são a regra, não serão nem os senhores, nem os servos, capazes de enfrentar de peito aberto essa estrutura de poder em que nada fazem os poucos que ganham algo e os muitos que deixam de perder o pouco que têm. Uma covardia engessada. Daí advém a importância de uma intervenção consciente do Poder Público em direção da atualização das relações de produção locais em vista do capitalismo. Claro que isso não será cômodo, pois depende do convencimento do povo, que tanto teme as mudanças. Tem-se que mostrar de maneira transparente a necessidade de uma tributação municipal justa. Hoje em Campos Altos é motivo de riso a legislação que trata do ITBI e do IPTU, as principais fontes de renda da Prefeitura. Como pode alguém desejar ter uma cidade desenvolvida quando o Poder Público municipal abre mão de recursos importantíssimos para agradar aquela mesma meia-dúzia que vai adquirir bens noutras cidades por conta da ausência de um setor terciário forte em Campos Altos? Como pode uma cidade se vangloriar de ter o melhor café do mundo, se não há no seu território nenhuma indústria que coloque o café para o consumo diário? O setor privado precisa de apoio do setor público. Mas de maneira positiva e não através de “isenções” indiretas.

Há alguns meses das eleições municipais, o povo camposaltense tem a oportunidade de dar uma virada nesse jogo, que já se esgotou. Nada melhor pode acontecer se não houver uma Administração Pública interessada em aliar a rica produção agrícola existente com uma indústria e uma prestação de serviço que estejam à altura do primeiro. Quem primeiro vai se beneficiar de uma mudança política é a própria elite agrícola, que terá mais oportunidades de negócio. Todo mundo só tem a ganhar.

Falta só aparecer um candidato com coragem. Faço votos para que ele apareça. Se isso acontecer, aquele menino-rapaz-adulto não só lhe promete seu voto, como também uma participação ativa na sua campanha eleitoral. E tenho dito!

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19 de junho de 2012

O Grupo Tortura Nunca Mais precisa de ajuda!

CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE

AOS AMIGOS E COMPANHEIROS DO GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ

 

Durante mais de 27 anos, o GTNM/RJ tem mantido o seu compromisso com os Direitos Humanos, denunciando crimes que ocorreram durante a ditadura civil-militar, e que ocorrem até hoje, embora seja propagandeado que vivemos em um Estado democrático de direito pleno.

 

O Grupo tem sido eticamente coerente com seus princípios: suprapartidário, não aceitando ajuda de nenhum governo. Desde sua fundação, em 1985, sobrevive graças ao empenho de seus amigos e parceiros e, com verbas de entidades internacionais de Direitos Humanos, desenvolve projeto pioneiro no Brasil de atendimento clínico e jurídico.

 

Neste momento, atravessamos uma grave crise financeira. Até os projetos de atendimento aos atingidos pela violência do Estado foram minimizados e estão ameaçados de acabar, pois as verbas vindas da Europa estão escasseando. Embora tenhamos reduzido ao máximo as nossas despesas, a situação é muito grave.

 

Esta nova Campanha de Solidariedade tem por objetivo conseguir uma ajuda mensal fixa daqueles que sempre têm ajudado a manter viva essa luta. Essas cotas, determinadas por cada um que queira participar, serão acompanhadas por nós e usada para a manutenção da nossa sede.

 

Contamos com vocês para continuarem a contribuir com essa causa que não é somente nossa, mas de todo o povo brasileiro, que continua almejando um verdadeiro Estado democrático de direito, que coloque à luz a verdadeira história do nosso país.

COMPLEMENTO


AOS AMIGOS E COMPANHEIROS DO GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ

Agradecemos aos e-mails recebidos de apoio e solidariedade financeira.

 

Informamos que gostaríamos de poder acompanhar os depósitos que estarão sendo feitos em nossa conta:Banco Itaú, agência 0389, Conta 77791-3, em nome de Tortura Nunca Mais/RJ, CNPJ 29.249.950/0001-36.

 

Para isto, solicitamos que aqueles que estão contribuindo façam contato conosco             (21) 22868762       ou e-mail: gtnm@alternex.com.br no horário das 13h às 19 horas, de 2ª à 6ª feira.

 

Lembramos, ainda, que o funcionamento cotidiano do GTNM/RJ está dependendo exclusivamente destas contribuições. Por isso, pedimos a quem esteja conosco colaborando que o faça sistematicamente, ou seja, mensalmente. Tomaremos a liberdade de lembrá-los todo início de mês.

 

Desde já, agradecemos o apoio e nos colocamos a inteira disposição para quaisquer informações que vocês necessitem.

 

Solicitamos que este complemento da nossa Campanha de Solidariedade seja o mais amplamente divulgado.

 

Manter nossa autonomia e independência dos poderes constituídos tem sido para nós desde 1985, uma postura ético política.

 

Contamos com vocês para continuarem a contribuir com essa causa que não é somente nossa, mas de todo o povo brasileiro.

Pela Memória, Verdade e Justiça!

 

Pela Vida, Pela Paz

Tortura Nunca Mais!

 

 

 

Rio de Janeiro, 12 de junho de 2012.

Diretoria do GTNM/RJ

12 de junho de 2012

O amor nos tempos da globalização

Por Sara Bachner, nascida Cordeiro*

Tudo começou em Paris, no dia 24 de novembro de 2007 quando conheci meu “futuro marido”, o romeno Ioan Bachner, durante uma festa na Maison do Brasil. Estávamos na França para estudar, eu para fazer um ano do meu doutorado e ele uma parte da sua residência médica. Como a maioria das pessoas que se conhecem em semelhante circunstância, imaginamos que não passaria de um affaire, que retornaríamos aos nossos respectivos países e deixaríamos lá, na cidade das luzes, uma história de amor impossível. Mas o destino e nós, decidimos que não seria assim. Por que não um happy end? Para isso, ou ele iria para o Brasil ou eu voltaria para a Europa (digo para a Europa porque nem ele sabia ao certo onde iria morar). Porém, antes de uma decisão peremptória, decidi visitar a Romênia e acabar com a insegurança e uma pontinha de dúvida que me afligia. Cheguei em Cluj Napoca em abril de 2009, onde passei dois meses encantadores. Não era só a emoção de reencontrar o Ioan sete meses depois da nossa despedida em Paris, era também a primavera. A cidade estava florida, fiquei deslumbrada com a beleza de alguns bulevares ornados de cerejeiras e magnólias e o clima era perfeito. Mas como da minha estada em Cluj dependia também uma escolha muito séria, comecei a apreciar aspectos negativos da cidade. Não vale nem a pena citá-los, são irrelevantes e hoje posso dizer que apenas os invoquei para proteger o meu futuro. Depois disso voltei ao Brasil para terminar de escrever a minha tese de doutorado e o Ioan foi trabalhar em Luxemburgo. Ficamos separados ainda algum tempo e em junho de 2010 vim de mala e cuia (perdoem-me a expressão sulista, esqueci de dizer que sou catarinense), trazendo comigo muita esperança e um pouquinho de medo também. Em nove de julho de 2010 nos casamos na Embaixada da Romênia em Luxemburgo e aqui eu faço um parêntese para expressar meu sincero agradecimento à senhora Andreea Voico, cônsul da Romênia naquele país, que prontamente nos auxiliou em todas as questões pertinentes, assim como ao meu primo-irmão Ricardo, dito o Catarina, por ter se deslocado de Paris a Luxemburgo para assinar como testemunha o meu “contrato de casamento”. O outro contrato, o de trabalho em Luxemburgo, terminava em setembro do mesmo ano e em outubro eu estava novamente instalada em Cluj-Napoca, mas dessa vez era pra ficar. Também não era primavera, era um outono cinza e frio. Confesso que depois ter vivido em cidades como Florianópolis, Paris e Luxemburgo o fato de mudar para Cluj não me agradava muito e no começo tive dificuldade em aceitar a nova morada. Mas o começo não passou de uma semana e logo eu estava inserida no cotidiano romeno, fazendo compras na Piata Marasti (espécie de feira popular existente em cada bairro da cidade), frequentando a academia, assistindo a seminários na Universidade Babes-Bolyai e até dando aulas de português. Sim, tive um aluninho, o Tudor, ele tinha onze anos, fazia aula de capoeira e era apaixonado pelo Brasil. Foi isso que o levou a aprender português. Um detalhe que me chamou atenção por lá, foi o fato de o Brasil ser a destinação dos sonhos de muitos romenos. Quando eu dizia que era brasileira, ficavam encantados como se estivessem vendo a praia de Copacabana. Não por algum atributo particular, mas simplesmente pelo fato de ser brasileira. Para os romenos que conheci, o Brasil não era mais que o Rio de Janeiro e uma vez até me falaram em Buenos Aires. Eu explicava que o nosso país é muito grande e muito diverso e chega a nevar no sul. Ficavam novamente boquiabertos e então eu mostrava-lhes fotos de São Joaquim (SC). Outro fator que me ajudou a superar a melancolia dos primeiros dias foi a hospitalidade do povo romeno. Eles se parecem muito com os brasileiros. São curiosos sem serem indiscretos, têm relações de vizinhança muito parecidas com as nossas, gostam de futebol e são “apaixonados por carro”. Lembra um pouco o Brasil da minha infância, lá no interior de Santa Catarina, com as mesmas comidas, a polenta (mamaliga), o repolho refogado (varza) , a nata  (smantana), os queijos coloniais (cascaval), os salames (carnati), algumas conservas, etc. Tão parecido que numa manhã de sábado acordei com um vizinho matando um porco em plena luz do dia, numa cidade universitária como Cluj com mais de trezentos mil habitantes. Dessa vez fui eu quem ficou boquiaberta. Sim, a Transilvânia tem dessas coisas!

Não conheci nenhum brasileiro por lá, mas me sentia em casa, e não foi sem tristeza que deixei Cluj–Napoca no dia 29 de abril de 2011 rumo a Paris, dando continuidade à minha vida cigana.

Ah, já ia me esquecendo de dizer que eu e o Ioan vamos muito bem obrigado !

*Sara Bachner é doutora em sociologia e mora em Paris.

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7 de junho de 2012

Caso Lira Neto, ou Brasil, o país da indiferença e da impunidade

Por Juremir Machado da Silva*

Sim, estou chocado com o que chamarei de Caso Lira Neto.

Fosse na França, país de grandes historiadores, seria um escândalo.

Se um jornalista, penetrando na campo da historiografia, dissesse ter descoberto documentos e informações inéditos sobre a Revolução de 1789 e alguém provasse imediatamente se tratar de material requentado, intelectuais marchariam de faca nos dentes para denunciar a fraude, a falsificação, a tentativa de manipulação mercantilista do passado e do presente.

Editora e mídia seria duramente atacadas.

Haveria manifestações de repúdio. Intelectuais se sentiriam ultrajados.

O caso Lira Neto, com sua biografia de Getúlio Vargas, é sintomático: explicita a ignorância e a má-fé de jornalistas, a conivência da mídia, a indiferença da academia, o conluio entre uma grande editora e certos veículos de comunicação.

Lira Neto poderia ter dito que abordou melhor tema, que explorou melhor a documentação, que interpretou melhor, mas não poderia ter dito que descobriu o discurso de formatura de Getúlio Vargas (abordado e citado antes por Fernando Jorge), que foi o primeiro a manusear o processo de um crime cometido pelos irmãos Vargas em Ouro Preto (amplamente citado por Augusto de Lima Júnior)  e que inocentou Getúlio de um crime cometido por um homônimo contra um índio (esclarecimento que se encontra no livro de Lutero Vargas, citado, entre outros, por mim). Essa tentativa de legitimação é um embuste, uma trapaça, um lance desonesto, uma atitude entre infantil e arrogante de alguém que parece apostar na impunidade e na certeza de que ganhará a disputa por ter a força midiática do seu lado, zombando dos pudores dos pesquisadores acadêmicos.

O caso do discurso de formatura foi plantado por Lira Neto na coluna de Lauro Jardim, na revista Veja. Fernando Jorge contestou imediatamente o ineditismo da descoberta enviando carta a Jardim. Foi ignorado.

Álvaro Larangeira publicou no Observatório de Imprensa artigo desmascarando as falsas descobertas de Lira.

Eu mesmo mostrei o ridículo desse procedimento (ver outros post neste blog).

Inútil. Repercussão zero.

A versão de Lira Neto se imporá.

O caso Lira Neto prova que a mídia produz fatos, manipula e impõe sua visão.

Demonstra o que Pierre Bourdieu e Serge Halimi denunciaram em pequenos livros que provocaram muito polêmica: o sistema de conivência no campo cultural entre editoras, mídia e certos autores em operações de interesse comercial.

O contra-argumento mais trivial a este tipo de crítica é: ressentimento, inveja.

Como disse Guy Debord, o espetáculo se apresenta como uma enorme positividade. É incriticável. Toda crítica é reduzida a uma confissão de fracasso. Escrevi um romance sobre Getúlio Vargas. Não estou em concorrência com Lira Neto.

Getúlio é objeto permanente de livros. Depois de meu romance, o historiador da USP Boris Fausto publicou uma boa biografia do maior político da história brasileira. Não se gabou de fazer descobertas sensacionalistas. Foi quase ignorado.

O caso Lira Neto deve ser estudado em Crítica de Mídia como o famoso Caso da Escola Base ou como o Caso Cachoeira – Policarpo Jr. São casos de incesto midiático, de precipitação e de falta de rigor no jornalismo.

O que chama mais a atenção, no entanto, é a indiferença. A mentira se impõe como verdade. O silêncio impera.

Admira-se no Brasil mais o sucesso do que a seriedade. Lira Neto, com seu golpe midiático, já conseguiu agendamento na mídia: um veículo segue o outro e tem-se a onipresença, o que cria sensação de importância e verdade.

Num país de cultura, o caso Lira Neto chamaria tanto a atenção quanto a confissão de Xuxa de que sofreu abuso sexual quando era criança. No Brasil, país de entretenimento, uma polêmica de intelectuais só arranca bocejos.

O compradismo impera: jornalistas com alguma grife emprestam seus nomes para legitimar a fraude.

Nenhum historiador europeu calaria diante deste blefe de Lira sobre o caso do homônimo: “O processo se referia a esse Getúlio como nascido em ano e município que não condiziam com os do ex-presidente. Pensei: ou está errado ou é outro”, disse Neto.

Após pesquisar as certidões de nascimento, descobriu que de fato havia, no Rio Grande do Sul, um segundo Getúlio Dorneles Vargas, homônimo ao presidente. “Era um erro histórico que estava sendo perpetuado”, concluiu Neto.

Em “Getúlio Vargas: a revolução inacabada”, como já escrevi, Lutero Vargas, no item “Os quatro crimes da Tribuna de Imprensa”, trata dos “quatro crimes de morte da vida pregressa de Getúlio Vargas”, conforme denúncia caluniosa de Carlos Lacerda em 10 de agosto de 1954. Diz: “O relatório foi apresentado em 15 de agosto de 1923; um dos assassinos chamava-se Getúlio Vargas e o outro Soriano Serra. Os dois foram presos em flagrante. O que tem Getúlio a ver com isso? Somente o nome”.

Por que estou repetindo isso?

Pelo espanto que me causa.

Os casos do discurso de formatura e do processo de Ouro Preto são ainda mais chocantes.

Entramos na era dos falsos biógrafos, os biógrafos jornalistas, marqueteiros, com grandes amizades na mídia, dispostos a tudo por uma manchete sensacional, prontos a requentar o passado e a esquentar o presente, certos de qualquer contestação irá para o ralo da história como uma marca de amargura. A biografia de Getúlio feita por Lira Neto é um epitáfio para a academia.

Também é a prova definitiva da morte da mídia de cultura no Brasil.

Finalmente a História transformou-se em mercadoria total e não é mais escrita pelos vencedores, salvo pelos vencedores atuais, aqueles que dominam a mídia. São Paulo terá, enfim, a biografia de Getúlio capaz de atender aos seus interesses.

A verdade histórica dobra-se diante da narrativa de mídia.

Lira Neto inaugura um novo tempo, o tempo da história documental como ficção da mídia.

A voz de Boris Fausto dizendo que a biografia de Lira Neto “não traz nenhuma grande novidade” já foi abafada pela potência da revista Veja assegurando que a esfinge foi, enfim, decifrada.

A legitimação não vem da academia, mas da mídia.

Na França, programas no estilo Jô Soares e Marília Gabriela mergulhariam no debate.

No Brasil, certamente levantarão a bola para que Lira Neto confirme sua falsificação.

Eis porque a mídia brasileira não é respeitável.

*Originalmente publicado no Correio do Povo em 7 de junho de 2012. Vide http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=2694.