O amor nos tempos da globalização

Por Sara Bachner, nascida Cordeiro*

Tudo começou em Paris, no dia 24 de novembro de 2007 quando conheci meu “futuro marido”, o romeno Ioan Bachner, durante uma festa na Maison do Brasil. Estávamos na França para estudar, eu para fazer um ano do meu doutorado e ele uma parte da sua residência médica. Como a maioria das pessoas que se conhecem em semelhante circunstância, imaginamos que não passaria de um affaire, que retornaríamos aos nossos respectivos países e deixaríamos lá, na cidade das luzes, uma história de amor impossível. Mas o destino e nós, decidimos que não seria assim. Por que não um happy end? Para isso, ou ele iria para o Brasil ou eu voltaria para a Europa (digo para a Europa porque nem ele sabia ao certo onde iria morar). Porém, antes de uma decisão peremptória, decidi visitar a Romênia e acabar com a insegurança e uma pontinha de dúvida que me afligia. Cheguei em Cluj Napoca em abril de 2009, onde passei dois meses encantadores. Não era só a emoção de reencontrar o Ioan sete meses depois da nossa despedida em Paris, era também a primavera. A cidade estava florida, fiquei deslumbrada com a beleza de alguns bulevares ornados de cerejeiras e magnólias e o clima era perfeito. Mas como da minha estada em Cluj dependia também uma escolha muito séria, comecei a apreciar aspectos negativos da cidade. Não vale nem a pena citá-los, são irrelevantes e hoje posso dizer que apenas os invoquei para proteger o meu futuro. Depois disso voltei ao Brasil para terminar de escrever a minha tese de doutorado e o Ioan foi trabalhar em Luxemburgo. Ficamos separados ainda algum tempo e em junho de 2010 vim de mala e cuia (perdoem-me a expressão sulista, esqueci de dizer que sou catarinense), trazendo comigo muita esperança e um pouquinho de medo também. Em nove de julho de 2010 nos casamos na Embaixada da Romênia em Luxemburgo e aqui eu faço um parêntese para expressar meu sincero agradecimento à senhora Andreea Voico, cônsul da Romênia naquele país, que prontamente nos auxiliou em todas as questões pertinentes, assim como ao meu primo-irmão Ricardo, dito o Catarina, por ter se deslocado de Paris a Luxemburgo para assinar como testemunha o meu “contrato de casamento”. O outro contrato, o de trabalho em Luxemburgo, terminava em setembro do mesmo ano e em outubro eu estava novamente instalada em Cluj-Napoca, mas dessa vez era pra ficar. Também não era primavera, era um outono cinza e frio. Confesso que depois ter vivido em cidades como Florianópolis, Paris e Luxemburgo o fato de mudar para Cluj não me agradava muito e no começo tive dificuldade em aceitar a nova morada. Mas o começo não passou de uma semana e logo eu estava inserida no cotidiano romeno, fazendo compras na Piata Marasti (espécie de feira popular existente em cada bairro da cidade), frequentando a academia, assistindo a seminários na Universidade Babes-Bolyai e até dando aulas de português. Sim, tive um aluninho, o Tudor, ele tinha onze anos, fazia aula de capoeira e era apaixonado pelo Brasil. Foi isso que o levou a aprender português. Um detalhe que me chamou atenção por lá, foi o fato de o Brasil ser a destinação dos sonhos de muitos romenos. Quando eu dizia que era brasileira, ficavam encantados como se estivessem vendo a praia de Copacabana. Não por algum atributo particular, mas simplesmente pelo fato de ser brasileira. Para os romenos que conheci, o Brasil não era mais que o Rio de Janeiro e uma vez até me falaram em Buenos Aires. Eu explicava que o nosso país é muito grande e muito diverso e chega a nevar no sul. Ficavam novamente boquiabertos e então eu mostrava-lhes fotos de São Joaquim (SC). Outro fator que me ajudou a superar a melancolia dos primeiros dias foi a hospitalidade do povo romeno. Eles se parecem muito com os brasileiros. São curiosos sem serem indiscretos, têm relações de vizinhança muito parecidas com as nossas, gostam de futebol e são “apaixonados por carro”. Lembra um pouco o Brasil da minha infância, lá no interior de Santa Catarina, com as mesmas comidas, a polenta (mamaliga), o repolho refogado (varza) , a nata  (smantana), os queijos coloniais (cascaval), os salames (carnati), algumas conservas, etc. Tão parecido que numa manhã de sábado acordei com um vizinho matando um porco em plena luz do dia, numa cidade universitária como Cluj com mais de trezentos mil habitantes. Dessa vez fui eu quem ficou boquiaberta. Sim, a Transilvânia tem dessas coisas!

Não conheci nenhum brasileiro por lá, mas me sentia em casa, e não foi sem tristeza que deixei Cluj–Napoca no dia 29 de abril de 2011 rumo a Paris, dando continuidade à minha vida cigana.

Ah, já ia me esquecendo de dizer que eu e o Ioan vamos muito bem obrigado !

*Sara Bachner é doutora em sociologia e mora em Paris.

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