Uma súplica por Campos Altos

Depois que se cruza o rio São Francisco rumo do Oeste, assiste-se a uma sucessão de várzeas alagadas antes de iniciar a subida da Serra que empareda o lago de Furnas ao Leste, o rio Grande ao Sul e o rio Paranaíba ao Norte. No ponto em que todas as bacias hidrográficas e as microrregiões queijeiras se unem; ali se encontra um pequena estação ferroviária construída há um século no meio de uma fazenda. Os trens que cruzavam aqueles campos de terras altas na direção do caminho solar trouxeram para ali passageiros, que diante do esplendor daqueles matos, por ali ficavam sempre a adiar a partida até que, quando menos percebiam, já faziam parte daquela paisagem.

Com o processo de urbanização e industrialização, a cidade que naqueles cumes surgiu perdeu importância para outras mais próximas do litoral e de São Paulo – berço da indústria brasileira. Não havia mais aquela efevercência dos primeiros anos em que o País andava sobre o carro-de-boi levando o café e o leite. A decadência econômica levou os poucos fazendeiros daqueles campos altos a se voltarem para si mesmo a fim de proteger-se daquela estranha modernidade. Afinal de contas, aquilo tudo ali sempre fora uma grande fazenda. A urbe que ao redor da estação de trem se formou perdeu uma boa parcela de sua população de outrora que se encaminhava para os lados do Araxá ou davam marcha ré rumo a Belo Horizonte, depois de reatravessar o rio São Francisco.

Aqueles que resistiam por amor à terra ou por falta de opção tiveram que se submeter à velha lógica agrícola em que se inseriam na lida em troca de alimentos e moradia. Viver ali voltou a ser uma concessão dos poucos proprietários de terra que ali estavam desde tempos imemoriais. O vínculo de trabalho era mais um ato de gratidão do que a venda da força de trabalho aos donos dos meios de produção. O suspiro de capitalismo deu lugar ao velho feudalismo à brasileira. A perda da oportunidade de industrialização, isto é, de uma maior especialização das relações capitalistas no alto daquelas montanhas nunca mais pôde de ser recuperada. Anos depois, diante do início da crise econômica mundial, que já dura 40 anos com altos e baixos, aquela cidade encrustrada onde “o vento faz a curva”, “dançou conforme a música” sem muita coragem de arriscar. Os poucos bem-de-vida temem perder o que têm diante da ameaça que sempre trazem as novidades dessa maluca globalização. Os muitos mal-de-vida só pensam em sobreviver e têm diante dos líderes políticos locais, representantes da elite econômica, uma atitude de passividade absoluta, pois para eles o risco de perder tudo é ainda muito maior do que para o pessoal da “prateleira de cima”.

No meio dessa confusão toda, um menino que sempre passava por ali vindo da capital para visitar a avó naqueles altiplanos, como os passageiros de trem da primeira metade do séc. XX, apaixonou-se por aquela serra de onde, segundo uma prima do Ibiá, podia-se enxergar à noite a iluminação de sete cidades do vale do São Francisco. A Canastra começava ali e só aquele pedacinho de chão foi o suficiente para embasbacar aquele rapaz, fã de mapas e globos. Era com o coração na boca que ele em vão tentava contar o número de tons de verde, vermelho e azul daqueles campos, que muitas vezes se confundiam naquele céu enorme, considerado por muitos – locais, naturalmente – “o mais belo horizonte de Minas”.

Quando adulto, o adulto, que era rapaz e menino ao mesmo tempo, teve a oportunidade de escolher onde trabalhar. Havia uma lista enorme de cidades do estado, mas um nome lhe saltou às vistas no primeiro olhar: Campos Altos. Enfim, a criança, o jovem e o adulto puderam realizar a promessa de um dia mergulhar naquele paraíso da natureza. Há cinco anos ele está lá com um olho na lida e outro no céu. Nesse tempo, entretanto, aprendeu ele a muito contragosto a letargia da sociedade local para a comunitarização dos benefícios econômicos e sociais em favor dos privilégios daqueles poucos que não precisam de mais benesses. Há um clamor silencioso, subterrâneo, implícito para que aquela sociedade partilhe entre todos uma parte maior das riquezas concentradas nas mãos de uma meia-dúzia. Ato este que não fará nem cócegas para esse pequeno grupo, enquanto para o resto poderá corresponder ao ponta-pé inicial de uma vida condizente com aquele espaço de abundância.

No estágio atual em que relações econômica de tipo feudal ainda são a regra, não serão nem os senhores, nem os servos, capazes de enfrentar de peito aberto essa estrutura de poder em que nada fazem os poucos que ganham algo e os muitos que deixam de perder o pouco que têm. Uma covardia engessada. Daí advém a importância de uma intervenção consciente do Poder Público em direção da atualização das relações de produção locais em vista do capitalismo. Claro que isso não será cômodo, pois depende do convencimento do povo, que tanto teme as mudanças. Tem-se que mostrar de maneira transparente a necessidade de uma tributação municipal justa. Hoje em Campos Altos é motivo de riso a legislação que trata do ITBI e do IPTU, as principais fontes de renda da Prefeitura. Como pode alguém desejar ter uma cidade desenvolvida quando o Poder Público municipal abre mão de recursos importantíssimos para agradar aquela mesma meia-dúzia que vai adquirir bens noutras cidades por conta da ausência de um setor terciário forte em Campos Altos? Como pode uma cidade se vangloriar de ter o melhor café do mundo, se não há no seu território nenhuma indústria que coloque o café para o consumo diário? O setor privado precisa de apoio do setor público. Mas de maneira positiva e não através de “isenções” indiretas.

Há alguns meses das eleições municipais, o povo camposaltense tem a oportunidade de dar uma virada nesse jogo, que já se esgotou. Nada melhor pode acontecer se não houver uma Administração Pública interessada em aliar a rica produção agrícola existente com uma indústria e uma prestação de serviço que estejam à altura do primeiro. Quem primeiro vai se beneficiar de uma mudança política é a própria elite agrícola, que terá mais oportunidades de negócio. Todo mundo só tem a ganhar.

Falta só aparecer um candidato com coragem. Faço votos para que ele apareça. Se isso acontecer, aquele menino-rapaz-adulto não só lhe promete seu voto, como também uma participação ativa na sua campanha eleitoral. E tenho dito!

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3 Comentários to “Uma súplica por Campos Altos”

  1. Como me orgulho de ser mineira, de saber que meu pai com seus braços fortes e au mesmo tempo ternos, foi um dos pioneiros de Campos Altos, esta pedra preciosa encastrada na aliança das serras. Te amo KZ.

  2. Parabéns! Muito bem escrito. Campos altos precisa de pessoas como vc.

  3. um que lindo parabens para o escritor,,, realmente muito lindo me orgulho de ser um cidadao camposaltense, temos que buscar a eleger pessoas que estao voltadas pr o bem da populacao e nao aos cofres publicos….

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