Qual trabalho enobrece?

Por Carolina P. Fedatto

2326_org[1]Relendo o velho Marx descubro algo que já sabemos: quando a mercadoria perde seu valor, o trabalho que a produziu se desvaloriza, declinando também o homem por traz do produto. E isso nunca esteve tão em voga: quantos objetos inúteis acumulamos e quantos serviços inúteis (nos) obrigamos (alguém) a realizar para confirmar a importância dessa acumulação… Refiro-me ao universo doméstico, pois é nessa esfera que se manifesta com mais força a relação de poder que funda a sociedade capitalista e se repete em outros campos. Do meu ponto de vista, deve haver algo errado quando valorizamos uma camisa bem passada em detrimento dos vincos que se expressam no rosto de alguém numa conversa franca. Ou quando nos recusamos a ariar panelas porque temos coisas mais importantes a fazer, mas desejamos que um funcionário mal pago o faça por nós. Se meu tempo é precioso demais para desperdiçar lustrando o piso, o tempo da empregada doméstica também deveria ser. Mas não é.

No Brasil, a limpeza da casa representa o esmero com que a mulher administra seu lar. E isso em todas as classes sociais, a diferença é apenas que algumas põem a mão na massa, outras ordenam e pagam o mínimo (literalmente). Mas se o serviço doméstico é tão sem valor, por que continuamos a desejá-lo tão bem feito, tão mal pago e a relacioná-lo com o sucesso do papel feminino? Muito além da questão da higiene e da ordem, o trabalho de casa brasileiro é um castigo, a encarnação das razões sem motivo, é a cobrança pela cobrança, seu único fim é ser o estandarte da dominação – de gênero e de classe.

Quando nos engajamos na manutenção possível de uma casa – juntamente é claro com a continuidade de todos os outros projetos de vida – nos liberamos da necessidade equívoca de determinados esmeros caseiros como roupa com vinco, chão brilhando e panela ariada. Há trabalhos bestas, que não tem valor (quando ninguém faz). Por isso, para aqueles que refletem sobre suas práticas, eles deixam de ser feitos, deixam de ter importância e deixam de existir. Lutar pela valorização do salário dos trabalhadores que realizam serviços inúteis é pouco. Seria preciso brigar para que o sentido do trabalho se aproxime do gozo oferecido pelo ócio. Isso é o verdadeiro luxo: fazer aquilo que dá prazer (não negando o sofrimento que essa busca causa). Mas para ter prestígio social, acumular e ganhar o reino dos céus somos privados de exercer profissionalmente o que o dinheiro não compra. Luxo de quem não caiu nessa armadilha…

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