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25 de maio de 2014

O pão da vó – ou uma história afetiva do pão

Por Carolina Garcia Padilha Daniel Altimari Codeguesi Fedatto 

 

Minha avó é a primogênita de uma família de seis mulheres. Já meu avô, caçula de seis: cinco homens – Martinho, Mário, Armando e Antonio – e uma mulher, Irma. Muitos desses irmãos se casaram e viveram sempre muito próximos, quase em comunidade, eu diria. Eram descendentes de italianos do norte e do sul misturadas e abrasileiradas no oeste paulista. As mulheres de todas essas famílias faziam pão em casa. Pão caseiro, denso, aromático, delicado, peculiar dessa região, o pão da minha infância, o pão da vó.

Carolina era a minha bisa, mãe de Irene, Maria, Alzira, Aparecida, Geralda e Emília. Era Altimari de pai e Godeguesi de marido. De sua mãe, sabemos que era Emília, Rosante de pai, de mãe não se sabe. Minha outra bisa era Stella, Daniel de pai, Fedatto de marido. Tantos nomes de mulheres que ficaram pelo caminho. E foram essas mulheres de quem não sabemos mais o nome que alimentaram a prática do pão caseiro sem passar receita, pois embora haja receita, e ela seja seguida ao pé da letra e do faro da cozinheira, cada mulher faz um pão com sabor e textura únicos, a sua moda. E esses pães são o orgulho e a desventura delas!

Irene é minha avó. Codeguesi de pai – culpa do escrivão. Fedatto de marido. Não herdei seu nome de pai, só seu nome de marido. Também não recebi o nome de pai de minha avó materna, Valdira – Garcia de pai, só seu nome de marido – Padilha, que é o nome de pai da minha mãe, Fátima. Minha mãe, mesmo não sendo filha da Irene, também fazia pão quando queria me agradar. Pão de batata. Igual ao das mulheres antigas, só que a seu modo.

Ao me receberem em suas casas lá no interior, para breves visitas ou longas férias, vó Irene, tias Alziras, Carmelas e Marias sempre disseram: “Carolina, tem pão! Mas hoje não ficou bom. Não cresceu direito. Sapecou. Ficou feio.” Pura modéstia! Quando o pão era servido, lá estava ele, belo em aparência e aroma, com dois bicos decrescentes, corado, perfumado, irresistível. Na mesa tinha sempre manteiga, queijo, goiabada, leite, café. Mas eu queria mesmo era pão sozinho, como também me confidenciou uma amiga dia desses. Ah essas sensações de simplicidade assustadora que nos reúnem por horas e provocam suspiros!

Só que, mais do que estar à mesa em volta do pão, sempre sofri do desejo de me tornar uma daquelas mulheres que fazem pão; o seu pão, mas, ao mesmo tempo, esse pão coletivo, ancestral, tradicional, familiar. Perdi a conta das vezes em que elas me ensinaram suas receitas. Desde muito cedo coloquei a mão na massa delas. Anotei, palpitei, provei, esperei, mas nunca tive a pretensão de fazer um pão igual ao delas. Descobri que a tradição mais gostosa era essa de ter o hábito de fazer pão, guardar certo parentesco com o resultado final da receita que foi transmitida, mas ter um pão com gosto de seu. O pão da vó, o pão da mãe, o pão da tia e o pão da Cá são iguais e diferentes, são o mesmo e são outros, eles nos unem e nos particularizam e como toda boa tradição são laço, não amarra.

É por essas e outras que não posso deixar de recontar essa história e mostrar a mão da minha avó fazendo pão. Aí vai a receita que ela inventou e anotou para não esquecer. Caderno marcado, pautado, manchado pelo tempo, por sua letra, sua fala, seu entendimento. Receita que não deve ser tomada como uma instrução seguida à risca. É uma receita-inspiração que nos deixa imaginar um savoir faire milenário, que se confunde com a própria história do homem e diz muito sobre a história das mulheres.

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Pão liquidificador (As linhas que seguem são pura poesia)

2 tablete de fermento fleche

3 ovo 2 copo de leite morno

1 colher de sal 2 colher açúcar

5 colher de óleo 1 colher de margarina

Bata tudo no liquidificador

faz a massa pacote de farinha

deixa com bola no copo

Daqui em diante não falo mais nada, deixarei falar a história imagética de um pão que eu pedi pra minha avó fazer numa manhã de domingo nessa mítica cozinha de vó. O olhar é de André de Paiva Toledo:

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ImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageImageE pra terminar a história sem muito arremate, só queria dizer que meu avô foi padeiro. Ele e seus irmãos cuidaram de uma panificadora nos anos de juventude. Vô Zico era o encarregado de levantar na madrugada, acender o forno de lenha, desamarrar o cavalo e sair, logo nascido o dia, para entregar pão na freguesia. A casa onde ele mais gostava de passar era a do velho Godeguesi, que tinha seis filhas, as moças mais bonitas da cidade. Irene era enviada pelas irmãs a atender a porta e pegar o pão das mãos do padeirinho que arrastava asa pra ela…

 

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