Nossa experiência com a versão cefálica externa no Hospital Sofia Feldman

Por Carolina P. Fedatto

 

Há um quase consenso no sistema de saúde sobre o parto de bebês pélvicos em primíparas (bebês sentados em mulheres que nunca pariram): eles não podem nascer de parto normal, é preciso fazer uma cesariana, porque haveria uma chance de não ter passagem para a cabeça do bebê. É o chamado “pesadelo obstétrico”, como nomeou um médico que palestrava sobre o assunto num dos cursos de preparação para o parto que fizemos na rede privada de Belo Horizonte. Isso foi lá no início da gestação, quando ainda não estávamos preocupados com a posição do bebê, já que ele se mexe a todo momento até quase o final de sua vida intrauterina. Nessa mesma ocasião, um casal relatou sua experiência de insucesso com todos os recursos disponíveis para virar um bebê pélvico: acupuntura, homeopatia, ginástica, caminhada, lanterna, conversas, música, reza brava e versão cefálica externa. O bebê deles continuou sentado até o final da gravidez e eles decidiram, orientados pelos médicos e sob o pavor de viver um “pesadelo obstétrico”, a fazerem uma cesariana – respeitosa, após entrada em trabalho de parto, etc. final feliz! Nesse dia eu nem sabia que teria que me haver com essa questão alguns meses depois…

Pois então, lá pela 32ª semana de gestação, meu médico anunciou meio receoso: ela está pélvica, vamos ver se ela vira, precisa virar até 34ª, 35ª, depois fica mais difícil, não tem espaço suficiente para uma cambalhota. Saí da consulta desanimadíssima, pois embora não fosse uma notícia trágica, eu sabia – e o médico humanizado que me acompanhava disse claramente – que era um caso para a cesárea que eu não queria fazer. Mas ainda havia esperança de o bebê virar. Orientada pelo médico, fiz de tudo, tentamos todas as conhecidas técnicas naturais: moxabustão no dedinho do pé todo fim de tarde, Pulsatilla três vezes ao dia, bumbum pra lua de 20 em 20 minutos, lanterna mostrando o caminho para a saída, caminhadas como se não houvesse amanhã. Nada!

Comecei, então, a pesquisar sobre a versão cefálica externa (VCE), uma manobra realizada por médicos para virar o bebê por fora da barriga. Há poucos profissionais que fazem a versão, embora seja uma técnica simples, não invasiva, de baixo risco e que oferece cerca 50% de chance para a mãe se livrar da faca e o bebê ter uma experiência ativa de nascimento. Em Belo Horizonte, sei de um ou dois médicos que fazem o procedimento pela rede particular e do Hospital Sofia Feldman, referência em humanização do parto e em práticas integrativas e naturais baseadas em evidências científicas. Foi pra lá que fui quando vi que seria difícil virar aquela menina só com minhas rezas e desejos. Depois de alguns telefonemas, a grávida da zona sul descobriu como ser atendida no hospital do SUS da zona norte! Eu precisava gerar um número de Sisprenatal na unidade de saúde mais próxima da minha casa. Com esse número em mãos, fui para o pronto-atendimento do Sofia conversar sobre a versão. Eu estava com 34 semanas de gravidez. Fiquei esperando umas quatro horas no plantão, pois o hospital atende muitas mulheres em estados bem mais graves que o meu. O atendimento foi ótimo, objetivo, sem frescura nem luxos. Não tem papel higiênico no banheiro, mas a medicina é padrão ouro!

Contamos o caso para a médica de plantão, que nos explicou o procedimento e me pediu para voltar no final da 36ª semana para realizarmos a VCE. Ela nos indicou também a leitura de um estudo francês, conhecido como PREMODA, sobre partos de bebês pélvicos. O estudo mostra que, quando assistido por uma equipe experiente e seguindo algumas recomendações como bebê de até 3,5 kg, parto sem necessidade de intervenções e induções, o parto normal de bebê pélvico não representa maior risco para mãe ou para o bebê do que uma cesárea. Nascem bebês pélvicos de parto normal todos os dias no Sofia! Mas o caso é um enorme tabu entre os médicos da rede privada. Por falta de prática, inexperiência, medo de processos judiciais, são muitos e complexos os fatores que levam mesmo os profissionais que seguem a linha da chamada humanização do parto e têm clara preferência pelos partos normais e naturais a decretarem a necessidade de uma cirurgia nos casos de bebês sentados ou transversos.

Antes de ter que obrigatoriamente me submeter a uma cesariana – já que meu marido não toparia tentar um parto pélvico no Sofia e essas decisões são conjuntas, compartilhadas… – eu ainda podia tentar a VCE! As chances, como disse, eram de 50% de sucesso, dependendo da experiência do médico. Os riscos são bem teóricos, segundo a médica, de haver alguma ruptura de membrana e a necessidade de um parto de urgência. Por isso, o procedimento é feito lá pela 37ª semana, quando o bebê já não é mais considerado pré-maturo. O Sofia tem muita experiência na versão e nunca houve um caso de cesariana de emergência. Os batimentos cardíacos do feto são monitorados durante todo o procedimento e a mãe toma uma medicação para relaxar a musculatura uterina meia hora antes. Li muito sobre a versão na internet. Há vários relatos de que o procedimento é doloroso, de que a mãe não conseguiu prosseguir por causo do desconforto. Há também poucos casos de sucesso. Em muitos relatos, os bebês não viram. E o médico do Sofia me disse que o procedimento, quando funciona, é simples e rápido. Se demorar mais do que cinco, dez minutos é porque o bebê não vai virar. Sabe se lá porque…. Felizmente, não foi o meu caso.

Fui para o Sofia no dia marcado tranquila – não sou de ter medo de dor, aguento bem – e tentando não fantasiar ou criar grandes expectativas. Chegamos cedo. A médica de plantão que nos atendeu no primeiro dia chegou e me direcionou um sorriso de reconhecimento do tipo: ah, é você, da versão, que bom que você veio! Quando deu tempo, ela verificou a disponibilidade do aparelho de ultrassom para que confirmássemos se o bebê continuava pélvico. Eu sabia que sim, sentia que ela não tinha dado cambalhota nenhuma, mas tinha se mexido um pouco…. Entrei na sala de US e constatamos a cabecinha pra cima, a posição da placenta, discussão sobre o melhor lado para tentar a virada. Tudo rápido, porque lá a fila anda! Recebi a medicação para relaxar o útero, uma injeção intramuscular indolor e, em mim, sem reações. Meia hora depois, a médica chamou outros colegas, incluindo um médico mais experiente na versão. Dois estudantes de medicina pediram para assistir o procedimento. Concordamos, claro! Quanto mais gente souber fazer isso, melhor! Ultrassom na barriga e dois médicos com as mãos sobre o bebê: um na pelve, outro na cabeça. Fechei os olhos. Meu marido observava tudo, em pé, na minha frente. Força, força, força. O bebê virou uns 45 graus. Troca de um dos médicos, que assumiu o posto que empurrava a cabeça. Força, força, força. O bebê deu uma escorregadinha, como um peixe, para baixo. Senti o deslizamento dela! Delícia! Todos comemoram com discrição, mas claramente felizes! Virou! Eu senti a força, a pressão das duas mãos na minha barriga, na pele. Nada mais que isso. Não foi dolorido nem incômodo. Queria tanto que desse certo. Não pensava em dor. Pensava que os médicos podiam fazer o que achassem necessário. Deixei que trabalhassem! Foi tudo tão simples, tão mágico. Um verdadeiro presente!

O Hospital Sofia Feldman é a maior maternidade do Brasil, referência em assistência humanizada, de qualidade e gratuita, mas está passando por uma grave crise financeira por falta de repasse de verbas. Há mobilizações marcadas para continuarmos a luta por esse hospital que possibilita a muitas mulheres e bebês uma experiência engajada, responsável e fisiológica de acompanhamento pré-natal e parto.

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