Archive for ‘Cotidiano’

15 de junho de 2013

Por que isto é importante CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO São eles, somos nós

Por Lucília Maria Sousa Romão
Professora Livre-docente da Universidade de São Paulo
Na Turquia e no Egito, são eles. Na Grécia, na Síria e na Tunísia, idem. A Espanha tem visto com frequência suas ações reivindicatórias. França também. No Brasil, são eles. Em São Paulo, no Rio, em Florianópolis e Fortaleza. São eles, os jovens. Com diferentes pautas e operações de mobilização, são eles. A crise econômica da aldeia global, os não ajustes dos mercados e a incapacidade de o neoliberalismo produzir acessos têm feito os jovens irem para a rua. Em todos os sentidos, para a rua. Mas há um deles bastante indesejável, a mobilização. São eles.
São eles os que querem a esperança a todo curso, anseiam com urgência não apenas a redução da tarifa do transporte, mas (o pouco de) liberdade que o próprio modelo econômico diz garantir. O capitalismo tardio apresenta o mote de que os mercados resolveriam os desvios de percurso da produção e das disparidades sociais desde que o Estado restasse mínimo, regulando pouco, deixando a corda frouxa para a integração de blocos econômicos com livre trânsito de capital, mercadoria e pessoas. A promessa de um sem-fronteira incluía o dinheiro ter seus escoamentos com maior facilidade. Mais ainda, desde que ele pudesse produzir mais dinheiro, adubando e nutrindo-se de investimento cuja mobilidade depende de um clique para ser transportado de um continente a outro. Capital transnacional, livre, leve, solto e forte. Ao Estado resta(ria) o trabalho de fortalecer-se apenas na função de controlar a segurança, assegurar a ordem e reprimir o político quando ele irrompe de modo indesejável, de aparar as pontas de resistência dos descontentes e de arrancar os brotos vivos de mobilizações populares. São eles. Talvez nem eles mesmos saibam exatamente as novas configurações do capitalismo financeiro, mas percebem que algo não vai bem, que o pão anda pouco e a liberdade pequena. São eles, a antena parabólica da contemporaneidade.
Dito de modo rasteiro, o que se configura é o dragão da truculência de Estado, o uso da força bruta para esmagar o desconforto que o próprio sistema econômico cria, engendra e produz como sinais de sua própria contradição. Por isso, é preciso limpar a Paulista, epicentro econômico mais poderoso da América pobre, para que os negócios continuem a ser fechados, a Bolsa não caia, a “liberdade” de imprensa seja garantida e a ordem vigente vigore. Há que se indagar: de que ordem se trata? E, para além de abominar os mecanismos de repressão e violência da Polícia Militar diante de jovens gritando o mantra da conquista democrática no país “o povo unido jamais será vencido” e clamando “Violência não”, há que se questionar alguns pontos para além de obviedades: a que custo tal ordem tem sido mantida para os trabalhadores no país? Quanto custa impedir que a rua, a praça e a avenida sejam realmente do povo? A quem serve a violência de Estado? Como se aborda a esperança quando jovens são impedidos de cantar, de protestar, de interromper o transito acomodado pelas submissões que nos calam aos poucos? E quando são espancados violentamente, presos e submetidos à violência da ameaça e da tortura pela instituição que deveria protegê-los?
A resposta do mercado vem rapidamente pela boca de autoridades: porque a tarifa subiu menos do que o esperado. Esperado por quem? Subiu pouco para que setor? Ora, não se trata apenas disso. Por que deveríamos coadunar com a explicação sobre o aumento de tarifas, impostos, taxas de inflação, e outros nomes do economês de plantão? Por que aceitar calado o troco roubado que o neoliberalismo nos devolve sem protestar? São eles. Com palavras, flores, pedras e facas. Com o grito rouco, com as pernas trêmulas e assustadas, com os braços dados, com as mãos estudantis erguidas… São eles de joelhos diante dos soldados armados e blindados até as tripas… Hoje a fotografia de capa do jornal Folha de S. Paulo estampa tal assimetria. São eles no palco público para dizer, com sua presença esperançosamente escandalosa, o que se denomina no discurso jornalístico como “vandalismo, depredação do patrimônio público, guerra, confronto de horror”. O que assusta, mas não tanto se considerarmos a nossa longa narrativa como país, é o modo como se denomina os que se organizam politicamente, os que se postam contra e se mobilizam a produzir fendas na ordem vigente: são falados como criminosos. E a tropa de choque com caminhões, cavalaria, helicóptero, viaturas e todo o aparato que lhe cabe, escancarou isso em rede nacional e internacional (afinal as empresas de comunicação são trans), mostrando, em detalhes, táticas, manobras e estratégias de ocupação de um território tratado como se fosse apenas do Estado e não daqueles que ele representa. A didatização da violência e da repressão contou ainda com indicadores quantitativos do “sucesso” da operação, já que o número de presos encaminhados a delegacias foi grande, e os de feridos ainda maior. Diga-se de passagem, muitos foram presos antes que a mobilização tivesse início. São eles. Fogo neles.
Os “bandidos” de plantão quebram os vidros da Estação Trianon do metrô, sujam a rua e deixam um “rastro de destruição” por onde passam, o riso da jornalista é nervoso, talvez enigma até para ela. As entrevistas se somam com transeuntes denominados “trabalhadores” da região, que se dizem “ameaçados” e não especificam se diante dos manifestantes ou dos policiais, mas a jornalista não pôde ouvir a opacidade desse dizer. Afirma algo como “se fossem trabalhadores, não seria assim”. São eles, os jovens. São estudantes trabalhadores, porque profissão maior não há. São eles cuja voz não foi divulgada por nenhum telejornal; nenhuma reportagem ao vivo quis saber quanto modifica a vida deles o aumento da tarifa, quanto lhes falta o emprego digno, como é duro viver de bicos e de bolsas, o que anseiam para si e para o país. São eles, a maioria jovens universitários cuja emoção, dinamismo e intensidade turbilhonaram momentos importantes de luta pela liberdade e pela democracia no Brasil e no mundo.
São eles, os jovens que fomos, e o que ainda somos ao dizer não. Não, não e não. Não queremos pagar caro para andar como gado em ônibus lotados e desconfortáveis, não é justo que nosso salário seja atualizado com tarifa desigual àquela garantida a serviços quaisquer que sejam, não nos cabe ser tratados como criminosos por um sistema sem espaço para nos acolher com nossa voz, não aceitamos a violência de Estado. Não, não e não. Não admitimos nossa fala interrompida e nosso labor pisoteado no asfalto, asfalto este em que servimos para trabalhar como mão-de-obra. Não roubem a nossa voz porque dela não abrimos mão. Não, não e não. São eles, os jovens. Somos nós.
* Se você concorda, compartilhe, grite, discuta, assine a petição: http://www.avaaz.org/po/petition/Protesto_contra_a_violencia_do_Estado/?pv=1
9 de junho de 2013

As sete lições de autodefesa intelectual de Daniel Dennett

Por François Doyon[1]

Daniel Dennett é um dos mais importantes filósofos estadunidenses. Em sua última obra, Intuition Pumps and Other Tools for Thinking, ele nos ensina como propor respostas sérias, e às vezes mesmo elegantes, às mais difíceis questões que se pode colocar a um ser humano. Num extrato publicado sob o título de “Daniel Dennett’s seven tools for thinking”[2], ele dá sete breves dicas de autodefesa intelectual. Eis um rápido resumo.

1. Aproveite seus erros

Uma das características do ser humano é sua capacidade de refletir sobre seus erros. Ele pode se perguntar por que tal ideia lhe pareceu interessante e por que ela se revelou finalmente mais ou menos válida. Quando se comete um erro, deve-se analisá-lo impiedosa e friamente. Tente desenvolver o estranho hábito de saborear seus erros tendo o prazer de descobrir o que o fez errar.

Mas apenas isso ainda não é suficiente. Você deve se expor voluntariamente a cometer erros a fim de multiplicar as ocasiões de aprender. Os cientistas vão ainda mais longe: eles expõem deliberadamente seus erros publicando os resultados de seus trabalhos!

2. Respeite seus adversários

Quando se critica as ideias de um adversário, até que ponto é preciso interpretá-las de modo indulgente? Como resistir à tentação de caricaturá-lo? Veja como escrever um comentário crítico honesto:

  • Apresente as ideias de seu adversário de forma tão clara e objetiva que seu autor poderia lhe dizer: “Obrigado, eu adoraria poder exprimir eu mesmo minhas ideias desse modo.”
  • Mencione todos os elementos com os quais você concorda (sobretudo se se trata de ideias pouco populares ou marginais).
  • Mencione tudo o que você aprendeu com seu adversário.
  • É somente a partir desse momento que você poderá se permitir fazer críticas negativas.

Seguindo esse método, seus adversários ficarão mais dispostos a lhe escutar já que você terá demonstrado que compreendeu seu ponto de vista tão bem quanto ele mesmo e terá, assim, demonstrado um julgamento que reconhece os pontos fortes de sua posição.

3. Desconfie das certezas

Quando ler um texto argumentativo, sobretudo em filosofia, procure todas as ocorrências da palavra “certamente”: é quase sempre aí que se encontram os pontos mais fracos de uma argumentação.

4. Responda às questões retóricas

Uma questão retórica é uma afirmação formulada sob a forma de uma questão de modo a forçar o leitor a aceita-la como evidente. É preciso estar atento às questões retóricas em uma argumentação, pois elas frequentemente exprimem os atalhos intelectuais do autor. É preciso desenvolver o hábito de sempre tentar encontrar uma resposta ao mesmo tempo pertinente e surpreendente a uma questão retórica, isso pode servir para criticar as ideias de um autor.

5. Utilize a navalha d’Ockham

Atribuído ao filósofo do século XIV Guillaume d’Ockham, este princípio é simples: diante potenciais explicativos equivalentes, é preciso sempre privilegiar a teoria mais simples, isto é, a que implica a existência do menor número de entidades possível. Por exemplo, as leis de Kepler explicam mecanicamente a órbita dos planetas, é inútil, portanto, postular a existência de uma alma motora neles.

6. Não perca tempo com lixo

Existem muitos trabalhos medíocres em todos os domínios. Não perca seu tempo nem o de seus leitores criticando mediocridades. Concentre-se nos melhores trabalhos que encontrar, nas noções principais dos mais renomados autores de um campo de estudo, os trabalhos mais importantes e ignore o lixo.

7. Desconfie das profundidades

Uma profundidade é uma afirmação que parece ser tão profunda quanto verdadeira, mas esta aparência se deve unicamente a sua ambiguidade. A afirmação é manifestadamente falsa em um sentido, mas seria terrível se ela fosse verdadeira; em outro sentido, ela é verdadeira, mas absolutamente banal. O leitor desatento confunde o brilho de verdade do segundo sentido com a radical importância do primeiro, ficando completamente atordoado. É assim que funciona uma profundidade.

Eis um exemplo: “O amor é apenas uma palavra.”

Em um sentido, isso é evidentemente falso. Ninguém sabe o que é verdadeiramente o amor, mas todos nós sabemos que é mais que uma palavra. Pode-se também focalizar outro sentido dessa afirmação pensando que quando se fala de uma palavra, ela é escrita entre aspas. “Amor” é apenas uma palavra. “Cheeseburger” é apenas uma palavra. “Palavra” é apenas uma palavra. A frase “O amor é apenas uma palavra” quer dizer mais que isso. Mas ela apenas quer dizer algo sem dizê-lo.

Tradução de Carolina P. Fedatto.

28 de janeiro de 2013

Qual trabalho enobrece?

Por Carolina P. Fedatto

2326_org[1]Relendo o velho Marx descubro algo que já sabemos: quando a mercadoria perde seu valor, o trabalho que a produziu se desvaloriza, declinando também o homem por traz do produto. E isso nunca esteve tão em voga: quantos objetos inúteis acumulamos e quantos serviços inúteis (nos) obrigamos (alguém) a realizar para confirmar a importância dessa acumulação… Refiro-me ao universo doméstico, pois é nessa esfera que se manifesta com mais força a relação de poder que funda a sociedade capitalista e se repete em outros campos. Do meu ponto de vista, deve haver algo errado quando valorizamos uma camisa bem passada em detrimento dos vincos que se expressam no rosto de alguém numa conversa franca. Ou quando nos recusamos a ariar panelas porque temos coisas mais importantes a fazer, mas desejamos que um funcionário mal pago o faça por nós. Se meu tempo é precioso demais para desperdiçar lustrando o piso, o tempo da empregada doméstica também deveria ser. Mas não é.

No Brasil, a limpeza da casa representa o esmero com que a mulher administra seu lar. E isso em todas as classes sociais, a diferença é apenas que algumas põem a mão na massa, outras ordenam e pagam o mínimo (literalmente). Mas se o serviço doméstico é tão sem valor, por que continuamos a desejá-lo tão bem feito, tão mal pago e a relacioná-lo com o sucesso do papel feminino? Muito além da questão da higiene e da ordem, o trabalho de casa brasileiro é um castigo, a encarnação das razões sem motivo, é a cobrança pela cobrança, seu único fim é ser o estandarte da dominação – de gênero e de classe.

Quando nos engajamos na manutenção possível de uma casa – juntamente é claro com a continuidade de todos os outros projetos de vida – nos liberamos da necessidade equívoca de determinados esmeros caseiros como roupa com vinco, chão brilhando e panela ariada. Há trabalhos bestas, que não tem valor (quando ninguém faz). Por isso, para aqueles que refletem sobre suas práticas, eles deixam de ser feitos, deixam de ter importância e deixam de existir. Lutar pela valorização do salário dos trabalhadores que realizam serviços inúteis é pouco. Seria preciso brigar para que o sentido do trabalho se aproxime do gozo oferecido pelo ócio. Isso é o verdadeiro luxo: fazer aquilo que dá prazer (não negando o sofrimento que essa busca causa). Mas para ter prestígio social, acumular e ganhar o reino dos céus somos privados de exercer profissionalmente o que o dinheiro não compra. Luxo de quem não caiu nessa armadilha…

20 de junho de 2012

Uma súplica por Campos Altos

Depois que se cruza o rio São Francisco rumo do Oeste, assiste-se a uma sucessão de várzeas alagadas antes de iniciar a subida da Serra que empareda o lago de Furnas ao Leste, o rio Grande ao Sul e o rio Paranaíba ao Norte. No ponto em que todas as bacias hidrográficas e as microrregiões queijeiras se unem; ali se encontra um pequena estação ferroviária construída há um século no meio de uma fazenda. Os trens que cruzavam aqueles campos de terras altas na direção do caminho solar trouxeram para ali passageiros, que diante do esplendor daqueles matos, por ali ficavam sempre a adiar a partida até que, quando menos percebiam, já faziam parte daquela paisagem.

Com o processo de urbanização e industrialização, a cidade que naqueles cumes surgiu perdeu importância para outras mais próximas do litoral e de São Paulo – berço da indústria brasileira. Não havia mais aquela efevercência dos primeiros anos em que o País andava sobre o carro-de-boi levando o café e o leite. A decadência econômica levou os poucos fazendeiros daqueles campos altos a se voltarem para si mesmo a fim de proteger-se daquela estranha modernidade. Afinal de contas, aquilo tudo ali sempre fora uma grande fazenda. A urbe que ao redor da estação de trem se formou perdeu uma boa parcela de sua população de outrora que se encaminhava para os lados do Araxá ou davam marcha ré rumo a Belo Horizonte, depois de reatravessar o rio São Francisco.

Aqueles que resistiam por amor à terra ou por falta de opção tiveram que se submeter à velha lógica agrícola em que se inseriam na lida em troca de alimentos e moradia. Viver ali voltou a ser uma concessão dos poucos proprietários de terra que ali estavam desde tempos imemoriais. O vínculo de trabalho era mais um ato de gratidão do que a venda da força de trabalho aos donos dos meios de produção. O suspiro de capitalismo deu lugar ao velho feudalismo à brasileira. A perda da oportunidade de industrialização, isto é, de uma maior especialização das relações capitalistas no alto daquelas montanhas nunca mais pôde de ser recuperada. Anos depois, diante do início da crise econômica mundial, que já dura 40 anos com altos e baixos, aquela cidade encrustrada onde “o vento faz a curva”, “dançou conforme a música” sem muita coragem de arriscar. Os poucos bem-de-vida temem perder o que têm diante da ameaça que sempre trazem as novidades dessa maluca globalização. Os muitos mal-de-vida só pensam em sobreviver e têm diante dos líderes políticos locais, representantes da elite econômica, uma atitude de passividade absoluta, pois para eles o risco de perder tudo é ainda muito maior do que para o pessoal da “prateleira de cima”.

No meio dessa confusão toda, um menino que sempre passava por ali vindo da capital para visitar a avó naqueles altiplanos, como os passageiros de trem da primeira metade do séc. XX, apaixonou-se por aquela serra de onde, segundo uma prima do Ibiá, podia-se enxergar à noite a iluminação de sete cidades do vale do São Francisco. A Canastra começava ali e só aquele pedacinho de chão foi o suficiente para embasbacar aquele rapaz, fã de mapas e globos. Era com o coração na boca que ele em vão tentava contar o número de tons de verde, vermelho e azul daqueles campos, que muitas vezes se confundiam naquele céu enorme, considerado por muitos – locais, naturalmente – “o mais belo horizonte de Minas”.

Quando adulto, o adulto, que era rapaz e menino ao mesmo tempo, teve a oportunidade de escolher onde trabalhar. Havia uma lista enorme de cidades do estado, mas um nome lhe saltou às vistas no primeiro olhar: Campos Altos. Enfim, a criança, o jovem e o adulto puderam realizar a promessa de um dia mergulhar naquele paraíso da natureza. Há cinco anos ele está lá com um olho na lida e outro no céu. Nesse tempo, entretanto, aprendeu ele a muito contragosto a letargia da sociedade local para a comunitarização dos benefícios econômicos e sociais em favor dos privilégios daqueles poucos que não precisam de mais benesses. Há um clamor silencioso, subterrâneo, implícito para que aquela sociedade partilhe entre todos uma parte maior das riquezas concentradas nas mãos de uma meia-dúzia. Ato este que não fará nem cócegas para esse pequeno grupo, enquanto para o resto poderá corresponder ao ponta-pé inicial de uma vida condizente com aquele espaço de abundância.

No estágio atual em que relações econômica de tipo feudal ainda são a regra, não serão nem os senhores, nem os servos, capazes de enfrentar de peito aberto essa estrutura de poder em que nada fazem os poucos que ganham algo e os muitos que deixam de perder o pouco que têm. Uma covardia engessada. Daí advém a importância de uma intervenção consciente do Poder Público em direção da atualização das relações de produção locais em vista do capitalismo. Claro que isso não será cômodo, pois depende do convencimento do povo, que tanto teme as mudanças. Tem-se que mostrar de maneira transparente a necessidade de uma tributação municipal justa. Hoje em Campos Altos é motivo de riso a legislação que trata do ITBI e do IPTU, as principais fontes de renda da Prefeitura. Como pode alguém desejar ter uma cidade desenvolvida quando o Poder Público municipal abre mão de recursos importantíssimos para agradar aquela mesma meia-dúzia que vai adquirir bens noutras cidades por conta da ausência de um setor terciário forte em Campos Altos? Como pode uma cidade se vangloriar de ter o melhor café do mundo, se não há no seu território nenhuma indústria que coloque o café para o consumo diário? O setor privado precisa de apoio do setor público. Mas de maneira positiva e não através de “isenções” indiretas.

Há alguns meses das eleições municipais, o povo camposaltense tem a oportunidade de dar uma virada nesse jogo, que já se esgotou. Nada melhor pode acontecer se não houver uma Administração Pública interessada em aliar a rica produção agrícola existente com uma indústria e uma prestação de serviço que estejam à altura do primeiro. Quem primeiro vai se beneficiar de uma mudança política é a própria elite agrícola, que terá mais oportunidades de negócio. Todo mundo só tem a ganhar.

Falta só aparecer um candidato com coragem. Faço votos para que ele apareça. Se isso acontecer, aquele menino-rapaz-adulto não só lhe promete seu voto, como também uma participação ativa na sua campanha eleitoral. E tenho dito!

19 de junho de 2012

O Grupo Tortura Nunca Mais precisa de ajuda!

CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE

AOS AMIGOS E COMPANHEIROS DO GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ

 

Durante mais de 27 anos, o GTNM/RJ tem mantido o seu compromisso com os Direitos Humanos, denunciando crimes que ocorreram durante a ditadura civil-militar, e que ocorrem até hoje, embora seja propagandeado que vivemos em um Estado democrático de direito pleno.

 

O Grupo tem sido eticamente coerente com seus princípios: suprapartidário, não aceitando ajuda de nenhum governo. Desde sua fundação, em 1985, sobrevive graças ao empenho de seus amigos e parceiros e, com verbas de entidades internacionais de Direitos Humanos, desenvolve projeto pioneiro no Brasil de atendimento clínico e jurídico.

 

Neste momento, atravessamos uma grave crise financeira. Até os projetos de atendimento aos atingidos pela violência do Estado foram minimizados e estão ameaçados de acabar, pois as verbas vindas da Europa estão escasseando. Embora tenhamos reduzido ao máximo as nossas despesas, a situação é muito grave.

 

Esta nova Campanha de Solidariedade tem por objetivo conseguir uma ajuda mensal fixa daqueles que sempre têm ajudado a manter viva essa luta. Essas cotas, determinadas por cada um que queira participar, serão acompanhadas por nós e usada para a manutenção da nossa sede.

 

Contamos com vocês para continuarem a contribuir com essa causa que não é somente nossa, mas de todo o povo brasileiro, que continua almejando um verdadeiro Estado democrático de direito, que coloque à luz a verdadeira história do nosso país.

COMPLEMENTO


AOS AMIGOS E COMPANHEIROS DO GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ

Agradecemos aos e-mails recebidos de apoio e solidariedade financeira.

 

Informamos que gostaríamos de poder acompanhar os depósitos que estarão sendo feitos em nossa conta:Banco Itaú, agência 0389, Conta 77791-3, em nome de Tortura Nunca Mais/RJ, CNPJ 29.249.950/0001-36.

 

Para isto, solicitamos que aqueles que estão contribuindo façam contato conosco             (21) 22868762       ou e-mail: gtnm@alternex.com.br no horário das 13h às 19 horas, de 2ª à 6ª feira.

 

Lembramos, ainda, que o funcionamento cotidiano do GTNM/RJ está dependendo exclusivamente destas contribuições. Por isso, pedimos a quem esteja conosco colaborando que o faça sistematicamente, ou seja, mensalmente. Tomaremos a liberdade de lembrá-los todo início de mês.

 

Desde já, agradecemos o apoio e nos colocamos a inteira disposição para quaisquer informações que vocês necessitem.

 

Solicitamos que este complemento da nossa Campanha de Solidariedade seja o mais amplamente divulgado.

 

Manter nossa autonomia e independência dos poderes constituídos tem sido para nós desde 1985, uma postura ético política.

 

Contamos com vocês para continuarem a contribuir com essa causa que não é somente nossa, mas de todo o povo brasileiro.

Pela Memória, Verdade e Justiça!

 

Pela Vida, Pela Paz

Tortura Nunca Mais!

 

 

 

Rio de Janeiro, 12 de junho de 2012.

Diretoria do GTNM/RJ

12 de junho de 2012

O amor nos tempos da globalização

Por Sara Bachner, nascida Cordeiro*

Tudo começou em Paris, no dia 24 de novembro de 2007 quando conheci meu “futuro marido”, o romeno Ioan Bachner, durante uma festa na Maison do Brasil. Estávamos na França para estudar, eu para fazer um ano do meu doutorado e ele uma parte da sua residência médica. Como a maioria das pessoas que se conhecem em semelhante circunstância, imaginamos que não passaria de um affaire, que retornaríamos aos nossos respectivos países e deixaríamos lá, na cidade das luzes, uma história de amor impossível. Mas o destino e nós, decidimos que não seria assim. Por que não um happy end? Para isso, ou ele iria para o Brasil ou eu voltaria para a Europa (digo para a Europa porque nem ele sabia ao certo onde iria morar). Porém, antes de uma decisão peremptória, decidi visitar a Romênia e acabar com a insegurança e uma pontinha de dúvida que me afligia. Cheguei em Cluj Napoca em abril de 2009, onde passei dois meses encantadores. Não era só a emoção de reencontrar o Ioan sete meses depois da nossa despedida em Paris, era também a primavera. A cidade estava florida, fiquei deslumbrada com a beleza de alguns bulevares ornados de cerejeiras e magnólias e o clima era perfeito. Mas como da minha estada em Cluj dependia também uma escolha muito séria, comecei a apreciar aspectos negativos da cidade. Não vale nem a pena citá-los, são irrelevantes e hoje posso dizer que apenas os invoquei para proteger o meu futuro. Depois disso voltei ao Brasil para terminar de escrever a minha tese de doutorado e o Ioan foi trabalhar em Luxemburgo. Ficamos separados ainda algum tempo e em junho de 2010 vim de mala e cuia (perdoem-me a expressão sulista, esqueci de dizer que sou catarinense), trazendo comigo muita esperança e um pouquinho de medo também. Em nove de julho de 2010 nos casamos na Embaixada da Romênia em Luxemburgo e aqui eu faço um parêntese para expressar meu sincero agradecimento à senhora Andreea Voico, cônsul da Romênia naquele país, que prontamente nos auxiliou em todas as questões pertinentes, assim como ao meu primo-irmão Ricardo, dito o Catarina, por ter se deslocado de Paris a Luxemburgo para assinar como testemunha o meu “contrato de casamento”. O outro contrato, o de trabalho em Luxemburgo, terminava em setembro do mesmo ano e em outubro eu estava novamente instalada em Cluj-Napoca, mas dessa vez era pra ficar. Também não era primavera, era um outono cinza e frio. Confesso que depois ter vivido em cidades como Florianópolis, Paris e Luxemburgo o fato de mudar para Cluj não me agradava muito e no começo tive dificuldade em aceitar a nova morada. Mas o começo não passou de uma semana e logo eu estava inserida no cotidiano romeno, fazendo compras na Piata Marasti (espécie de feira popular existente em cada bairro da cidade), frequentando a academia, assistindo a seminários na Universidade Babes-Bolyai e até dando aulas de português. Sim, tive um aluninho, o Tudor, ele tinha onze anos, fazia aula de capoeira e era apaixonado pelo Brasil. Foi isso que o levou a aprender português. Um detalhe que me chamou atenção por lá, foi o fato de o Brasil ser a destinação dos sonhos de muitos romenos. Quando eu dizia que era brasileira, ficavam encantados como se estivessem vendo a praia de Copacabana. Não por algum atributo particular, mas simplesmente pelo fato de ser brasileira. Para os romenos que conheci, o Brasil não era mais que o Rio de Janeiro e uma vez até me falaram em Buenos Aires. Eu explicava que o nosso país é muito grande e muito diverso e chega a nevar no sul. Ficavam novamente boquiabertos e então eu mostrava-lhes fotos de São Joaquim (SC). Outro fator que me ajudou a superar a melancolia dos primeiros dias foi a hospitalidade do povo romeno. Eles se parecem muito com os brasileiros. São curiosos sem serem indiscretos, têm relações de vizinhança muito parecidas com as nossas, gostam de futebol e são “apaixonados por carro”. Lembra um pouco o Brasil da minha infância, lá no interior de Santa Catarina, com as mesmas comidas, a polenta (mamaliga), o repolho refogado (varza) , a nata  (smantana), os queijos coloniais (cascaval), os salames (carnati), algumas conservas, etc. Tão parecido que numa manhã de sábado acordei com um vizinho matando um porco em plena luz do dia, numa cidade universitária como Cluj com mais de trezentos mil habitantes. Dessa vez fui eu quem ficou boquiaberta. Sim, a Transilvânia tem dessas coisas!

Não conheci nenhum brasileiro por lá, mas me sentia em casa, e não foi sem tristeza que deixei Cluj–Napoca no dia 29 de abril de 2011 rumo a Paris, dando continuidade à minha vida cigana.

Ah, já ia me esquecendo de dizer que eu e o Ioan vamos muito bem obrigado !

*Sara Bachner é doutora em sociologia e mora em Paris.

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29 de maio de 2012

Carta de Salvador

A participação de quase 300 ativistas digitais de todo o país, no III Encontro Nacional de Blogueiro@s, realizado entre os dias 25 e 27 de maio em Salvador, na Bahia, consolidou o primeiro ciclo do mais importante movimento digital do Brasil, iniciado em agosto de 2010.

Surgido como uma reação aos monopólios de mídia, que se baseiam num modelo usurpador quase que exclusivamente voltado à defesa dos interesses do grande capital em detrimento das aspirações populares, o movimento nacional dos Blogueiros e Blogueiras Progressistas desdobrou-se em inúmeros encontros municipais, regionais e estaduais, além de três encontros nacionais (São Paulo, Brasília e Salvador) e um internacional, realizado, em outubro de 2011, na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná.

Neste curto espaço de tempo, este movimento ganhou legitimidade política e enorme dimensão social. Foi capaz de influir fortemente no debate sobre a necessidade de se democratizar a comunicação no Brasil. Em suma, temos saído vitoriosos nesta guerra dura contra a mídia ainda hegemônica. Lutamos com as armas que temos, todas baseadas na crescente força da blogosfera e das redes sociais.

O principal reflexo dessa atuação, ao mesmo tempo organizada e fragmentada, tem sido o incômodo permanente causado nos setores mais conservadores e reacionários da velha mídia nacional, um segmento incapaz não apenas de racionalizar a dimensão do desafio que tem pela frente, mas totalmente descolado das novas realidades de comunicação e participação social ditadas, inexoravelmente, pelas novas tecnologias.

Apegam-se, de forma risível, a um discurso tardiamente articulado de defesa das liberdades de imprensa e de expressão, conceitos que mal entendem, mas que confundem, deliberadamente, para manipular o público em favor de interesses inconfessáveis. Posam, sem escrúpulo algum, de defensores de uma liberdade que não passa, no fim das contas, da liberdade de permanecerem à frente dos oligopólios de comunicação que tantos danos têm causado à democracia brasileira. Para tal, chegam a pregar abertamente restrições à internet, apavorados que estão com a iminente ruína de um modelo de negócios em franca crise em todo o mundo, com a queda de tiragem da mídia impressa e da audiência da radiodifusão, com consequências diretas no processo de captação de receita publicitária.

Para tornar ainda mais nítida e avançada a discussão sobre a democratização da comunicação no Brasil, o III BlogProg decidiu concentrar suas energias, daqui em diante, em duas questões fundamentais.

A primeira é a luta por um novo marco regulatório das comunicações assentado em uma Lei de Mídia capaz de estabelecer formalmente a questão da comunicação como um direito humano essencial. Neste sentido, o III BlogProg decidiu interagir com a campanha do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). Campanha esta que visa pressionar o governo federal, de modo a desencadear de imediato o debate sobre este tema estratégico para toda a sociedade brasileira.

A segunda batalha decisiva é a de reforçar a defesa da ação da blogosfera e das redes sociais diante do constante ataque de setores conservadores estimulados e financiados pela velha mídia. Trata-se de um movimento articulado, inclusive, no Congresso Nacional, com o objetivo de criar obstáculos e amarras capazes de cercear a livre circulação de ideias pela internet, além de criminalizar o ativismo digital. Em outro front, cresce a judicialização da censura, feita com a cumplicidade de integrantes do Poder Judiciário, utilizada para tentar asfixiar financeiramente blogs e sítios hospedados na rede mundial de computadores. Mais preocupante é o aumento de casos de violência contra Blogueiros e ativistas digitais em todo o país, inclusive com assassinatos, como no caso dos Blogueiros Edinaldo Filgueira, do Rio Grande do Norte, e Décio Sá, do Maranhão.

A nossa luta, portanto, não é a luta de um grupo, mas de toda a sociedade pela neutralidade e pela liberdade na rede. É pela implantação de uma cultura solidária e democrática do uso e da difusão das informações. É uma luta pela igualdade das relações desse uso com base única e exclusivamente no que diz e manda a Constituição Federal, a mesma Carta Magna que proíbe tanto o monopólio da comunicação como a propriedade de veículos de comunicação por parte de políticos – duas medidas solenemente ignoradas pelas autoridades, pelos agentes da lei e, claro, pelos grupos econômicos que há décadas usufruem e se locupletam desse estado de coisas.

Para tanto, este III Encontro adota – como norte para orientar a nova fase da luta – uma ideia simples e direta: Nada além da Constituição!
As bandeiras da liberdade de informação e de expressão, assim como a da universalização do acesso à banda larga, são nossas. Qualquer tentativa de usurpá-las – ainda mais por parte de quem jamais defendeu a democracia no Brasil – é uma manipulação inaceitável.

29 de maio de 2012

Um presente para o patrão

Na última semana recebemos a visita do compadre Gustavo Alonso, historiador do Rio de Janeiro (recuso-me a tratá-lo de fluminense, embora o seja), que esteve nas Alterosas para, além de resolver assuntos de sua alçada que serão inevitavelmente disponibilizados ao público em pouco tempo, matar a saudade do clima, do queijo, da pinga e de pimenta-biquinho destas paragens. Fora tudo de bom que aconteceu naqueles dias em que tivemos um hóspede tão ilustre, houve uma situação em que protagonizamos que merece ser publicada.

No domingo ensolarado, véspera de sua partida ao litoral, Gustavo pediu-me emprestados a câmera fotográfica e alguns livros de fotografias antigas que seriam digitalizadas em seu computador pessoal. Claro que consenti e deixei-o trabalhar por um bom tempo, enquanto fiquei à mesa curtindo uma cerveja gelada com tira-gosto em prosa com a minha família.

Depois de algumas horas digitalizando as fotos do meu livro com a minha câmera, Gustavo me questionou acerca da possibilidade de diminuir a qualidade da imagens. Aparentemente ele propunha isso para facilitar seu envio por imeio posteriormente. Foi quando inocentemente afirmei, “deixe como está, pois quero ficar com uma cópia de qualidade delas”. Nesse momento, minha mulher maliciosamente colocou o dedo na ferida, afirmando que eu estaria me aproveitando do trabalho do compadre para ficar com uma parte do resultado de seu trabalho. Foi aí que dei por mim, vendo a simplicidade de uma relação de trabalhista de tipo capitalista.

Sou o proprietário da câmera e do livro de fotografia, isto é, sou o dono dos meios de produção. Meu compadre não tem nada disso, mas deseja se apropriar de determinados bens, que seriam as cópias digitalizadas das fotografias impressas no livro. Assim, cedi a ele o direito de usufruit dos meios de produção, garantindo a mim a propriedade dos mesmos mais parte do resultado da aplicação da força de trabalho do Gustavo. Rindo da situação – pois além do que já havia, a cena apresentou-se bizarra pelo fato de eu estar sentado na cabeceira da mesa enquanto ele se ajoelhava sobre o livro no canto da sala -, o almoço foi servido naquele momento quando aproveitei a deixa e disse: “e como sou um homem bom e generoso, vou permitir que você sente à mesa e coma algo antes de voltar ao trabalho”…

Este artigo é uma homenagem a Gustavo Alves Alonso Ferreira, autor de Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga.

14 de maio de 2012

A falácia dos dois lados

Por Paulo Moreira Leite*

Leio na Folha que, conforme José Carlos Dias, um dos mais conhecidos integrantes da Comissão da Verdade formada para investigar crimes de direitos humanos, ela deverá focalizar as responsabilidades dos “dois lados”.

José Carlos Dias foi advogado de presos políticos durante a ditadura. Também foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Este ponto de vista é preocupante.

A Comissão não foi criada como um seminário genérico sobre desrespeito aos direitos humanos – onde caberia avaliar erros e desvios de conduta de qualquer pessoa, autoridade ou não, de direita ou de esquerda, em qualquer  tempo e espaço do território brasileiro. Caberia, nessa situação, discutir o papel dos “dois lados”. Ou três “lados,” quatro, ou cinco…

Criou-se a Comissão da Verdade com uma finalidade específica, que é examinar os crimes da ditadura,  porque esta foi a lacuna deixada pela história. Estamos falando de crimes cometidos por representantes do Estado, em nome dele, e não por qualquer pessoa.

E queremos a verdade – não uma guerra de versões nem uma história declaratória.

Ou será que vamos julgar o “lado bom” e o “lado ruim” da da ditadura, ou lado “bom” e o lado “ruim” de quem lhe fazia oposição?

A idéia é mostrar que “os dois lados” cometeram erros e devem ser igualmente perdoados?

Ninguém percebeu que toda ditadura é, por definição, um regime de “um lado só”?

Os atos – violentos ou não, legítimos ou não — cometidos pelos adversários do regime militar foram apurados, avaliados e punidos em seu devido tempo, como demonstram as  7.367 denuncias apresentadas à Justiça Militar entre 1964 e 1979.

No esforço para punir brasileiros que não aceitavam submeter-se a um regime de força, criado a partir de um golpe que derrubou um governo constitucional, o Estado brasileiro cometeu crimes inaceitáveis e vergonhosos. Executou pessoas indefesas, não informou seu paradeiro às famílias nem deu esclarecimentos fidedignos sobre os acontecimentos envolvidos em suas mortes. São estes fatos que a Comissão deve apurar.

O esforço para olhar os “dois lados” do período só faria sentido se naquele período estivéssemos diante de um Poder legítimo, que teria cometido excessos e abusos em nome de seu direito de exercer a violência para garantir o respeito à lei e à ordem.

Mas não é disso que se trata. Estamos falando do massacre da Lapa, ocorrido em 1976, quando três militantes foram executados sem que pudessem representar perigo algum, ameaça alguma. Ou sobre Rubens Paiva, empresário que compareceu em seu carro para prestar um depoimento  ao Exército e nunca mais foi visto.

A maioria dos atos de violência cometidos pelos adversários do regime foram julgados e esclarecidos, com emprego de tortura e violência nos interrogatórios, inclusive contra menores, às vezes na presença de crianças.

Quando isso não ocorreu, é porque os acusados não tiveram direito de defesa. Foram executados de modo sumário e covarde em vez de serem levados aos tribunais. Eliminá-los tinha prioridade sobre garantir o respeito à Lei – mesmo a lei do regime militar.

Não por acaso, todo esforço de esclarecer mesmo crimes atribuídos a oposição se volta contra a ditadura e seus responsáveis — mais uma vez, é o regime de um lado só.

Por exemplo: quem gosta de lembrar que o capitão Carlos Lamarca foi um dos responsáveis pelo julgamento e execução do tenente PM Alberto Mendes, no Vale da Ribeira, deveria perguntar a quem perseguiu e fuzilou o próprio Lamarca, faminto e doente, no interior da Bahia, por que não se quis levar um dos chefes da guerrilha ao banco dos réus. Ali Lamarca poderia esclarecer as circunstâncias e motivações daquela decisão trágica.

Outro exemplo: quem gostaria de apurar assaltos e atos de violência cometidos pelos Grupos Táticos Armados da ALN poderia conseguir um depoimento dos policiais ainda vivos da equipe do delegado Fleury. Eles poderiam explicar por que se preferiu executar Carlos Marighella numa rua dos Jardins, em São Paulo, em vez de lhe dar uma chance de explicar-se num tribunal civilizado.

Isso aconteceu porque, entre 1964 e 1985 o Brasil foi governado por um regime que usurpou o Estado brasileiro ao impedir que a população escolhesse seus governantes por métodos democráticos.

A longa noite da ditadura foi uma sucessão de atos anti democráticos e ilegais, que tiveram início com um golpe de Estado e prosseguiram em medidas autoritárias contra a Justiça e os direitos do cidadão.

Por isso seus atos não podem ser nivelados à resistência de quem teve disposição e capacidade de sacrifício para enfrentar um regime de força.

Fazer isso implica em embelezar a ditadura, dar-lhe uma estatura moral que ela não possuía e nunca pretendeu possuir, pois governava essencialmente a partir da força bruta.

Guardando todas as diferenças entre os dois casos, alguém acharia razoável que, para se investigar Klaus Barbie, o carrasco nazista de Lyon, se apurasse a violência organizada pela Resistência Francesa de Jean Moulin?

Ou que as investigações sobre o ditador Rafael Vidella, chefe de uma ditadura que matou milhares de argentinos, só pudessem ser iniciadas depois que se esclarecesse o papel de Mário Santucho, um dos líderes da luta armada,  em atos de violência?

*Originalmente publicado na página eletrônica da revista “Época”, conforme http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/05/14/a-falacia-dos-dois-lados/

7 de abril de 2012

Lições de um ladrão de galinha

Vive-se numa sociedade em que seus componentes democraticamente elegeram determinados limites jurídicos de ação fundados na propriedade privada. Se o acordo democrático estabelecido entre os membros de uma sociedade corresponde a um resultado político ideal do ponto de vista econômico, isso não significa que os indivíduos não procurem alcançar seus objetivos materiais à margem dos limites normativos.

O fato é que se vive numa sociedade economicamente desigual cujo motor de ação é a própria desigualdade, isto é, juridicamente todos são iguais e, por isso mesmo, todos podem alcançar a riqueza material dentro dos limites impostos pelo direito. Aqueles que não respeitam tais limites devem sofrer as sanções abstratamente previstas na norma jurídica. Todos podem se enriquecer, contanto que isso se dê de acordo com a lei democraticamente estabelecida pela sociedade.

O problema desse modelo reside na determinação da ideia de igualdade. No sistema capitalista, fundado na propriedade privada, os membros de uma sociedade são indivíduos com a mesma capacidade produtiva que se encontram numa saudável disputa por recursos materiais finitos. O problema é que, neste sistema, não há limite para a aquisição da propriedade, o que implica concluir que, em tese, um sujeito pode ser proprietário de todos os bens juridicamente apropriáveis encontrados no meio ambiente. Por ser a pedra fundamental do sistema, a partir do momento em que o vínculo de propriedade se estabelece entre a pessoa e a coisa, toda a força coercitiva do Estado passa a estar disponível à proteção da propriedade privada.

Sociologicamente, o sujeito que possui mais bens que o resto, torna-se politicamente mais forte, conseguindo assim manobrar os mecanismos de representação política em favor de seus interesses. Juridicamente as pessoas são iguais, mas não economicamente e, consequentemente, são politicamente desiguais. É no âmbito da política que as normas são criadas. Logo, o próprio direito acaba por privilegiar, dentro dos limites da democracia, pessoas que se encontram na mesma situação em detrimento daquelas economicamente, politicamente e, por que não?, juridicamente mais frágeis.

O que faz então o Direito formado por concepções de vida burguesas? Pune implacavelmente aqueles que não respeitam a propriedade alheia, mas que são frágeis econômica e politicamente; não dispensando o mesmo tratamento no que diz respeito àqueles que não respeitam a propriedade alheia, mas que são fortes econômica e politicamente.

Assim, as cadeias estão cheias de ladrões de galinha enquanto nas esferas governamentais outros tantos ladrões de fortunas vivem tranquilamente à margem do Direito. Em Brasília/DF, circulam livremente gente da laia do deputado federal por Minas Gerais, Newton Cardoso*, e do deputado federal por São Paulo, Paulo Maluf**; democraticamente eleitos para representar a vontade geral no Poder Legislativo nacional.

Enquanto isso, milhares*** de ladrões de galinha superlotam as cadeias do Brasil. A classe média, tradicionalmente covarde, faz vista grossa aos roubos do colarinho branco enquanto defende a pena de morte para os pés-de-chinelo. A “igualdade” de todos perante a lei, tão difundida pela sociedade burguesa, é apenas uma fábula criada pelos econômica e politicamente poderosos para fazer a classe média crer que a propriedade privada é sempre protegida pelo Estado. Na verdade, ela só é protegida quando o ladrão vem da ralé. Os peixes grandes nunca são fisgados…

De vez em quando, no momento em que um  pé-rapado não tem mais nada a perder; a classe média é obrigada a engolir a verdade nua e crua.

Essa é a lição do vídeo abaixo.

*Enquanto foi governador de Minas Gerais, suas contas foram rejeitadas. Por isso mesmo chegou a enfrentar dois processos de impeachment, algumas ações penais por enriquecimento ilícito, por denúncia de grilagem fundiária, uso indevido da máquina administrativa, fraude em projeto habitacional e causas trabalhistas contra o estado de Minas Gerais. Em 1992, foi denunciado por peculato, por ter adquirido joias às suas tão prestativas secretárias quando do segundo mandato de prefeito de Contagem entre 1983 e 1985. Em 19 de janeiro de 2009, o jornal O Globo informava que o patrimônio do deputado federal é avaliado em três bilhões de reais. Faz parte de seu patrimônio particular mais de 100 fazendas, vários aviões, centenas de outros imóveis, contas em paraísos fiscais e um hotel em Paris, França, o Residence des Halles. O conjunto da propriedade privada de Newton Cardoso é duzentas vezes maior que o declarado à Justiça Eleitoral durante sua campanha ao Senado em 2006.

**De acordo com a Justiça, Paulo Maluf é o titular de uma movimentação financeira de US$ 446 milhões em contas  em bancos estrangeiros. Há uma decisão judicial em ação popular em que o deputado federal foi condenado a restituir ao estado de São Paulo o montante desviado no episódio Paulipetro, quando ele era o governador. Em valores de 2008, a parte que ficou com Maluf era de R$716 milhões. Embora esteja transitada em julgado, a execução judicial da sentença não avança, pois se encontra sujeita a vários agravos e medidas cautelares. A própria condenação ainda pode ser anulada por ação rescisória (AR 4206) que corre junto à primeira turma do STJ. Os valores discutidos são quase vinte vezes superiores ao patrimônio declarado por Paulo Maluf em 2010. Ele também é acusado judicialmente de possuir conta no paraíso fiscal das Ilhas Jersey. Em 10 de junho de 2006 o jornal Folha de S. Paulo revelou sua conta nas Ilhas de Jersey havia sido bloqueada pela polícia local com cerca de US$200 milhões. Em março de 2010, seu nome foi incluído na lista de procurados da Interpol, a partir de solicitação dos Estados Unidos. Por isso, ele pode ser preso em 181 países. No Brasil, ele continua solto.

***Dados do IBGE apontam que aproximadamente 2% da mão-de-obra ativa brasileira estão presos. Em termos absolutos, isso corresponde a cerca de meio milhão de pessoas presas. Nesse grupo ainda não fazem parte os deputados federais Newton Cardoso e Paulo Maluf.