Archive for ‘Cotidiano’

20 de março de 2012

Por um amor que dure

Por Carolina P. Fedatto

O amor é algo que desperta a atenção das pessoas. Amamos histórias de amor, amamos amar, como dizia Santo Agostinho. E amamos que os outros amem. Mas por que o amor tem essa força, esse alcance, tão universal? Por que o amor nos atrai dessa forma?

Alain Badiou, no seu “O elogio do amor”, diz basicamente que há três concepções dominantes sobre o amor:

1) A primeira é a visão romântica, baseada, sobretudo, no êxtase do encontro, em que o outro é idealizado como aquele que nos completa e vai nos fazer feliz para sempre. É a visão dos contos de fada e das grandes histórias de amor da literatura, como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. E embora ela tenha uma beleza artística extraordinária, essa ideia fusional do amor, essa ideia de que duas vidas se transformam em uma, dá importância demais para o momento do encontro e reduz o amor à magia do começo da relação. Mas o amor não acaba no encontro, muito pelo contrário, ele começa aí, é uma construção.

2) A segunda concepção bastante comum do amor é aquela que enxerga a relação amorosa como uma troca de vantagens recíprocas. Nós ficamos juntos enquanto nos fizermos bem. E para garantir o sucesso da relação, as pessoas selecionam seu par de acordo com características pré-definidas, tentando afastar qualquer risco. Em nome da segurança, evita-se todo acaso, todo encontro inesperado e, finalmente, toda beleza das histórias de amor.

3) Diante dessas duas ideias totalmente frustradas das relações amorosas, surge uma terceira concepção que nos leva a desconfiar do amor para nos protegermos das suas armadilhas. Segundo os pessimistas, o amor não seria mais do que uma ilusão. Mas quem já amou de verdade, sabe que ele não é um simples artifício da natureza para que se cumpra a reprodução da espécie, nem uma artimanha da sociedade para que se garanta a hereditariedade dos privilégios.

O amor, segundo a filosofia de Badiou, é uma construção de verdade. Mas verdade sobre o quê? O que é o mundo se experimentado a partir do ‘dois’ e não do ‘um’? O que é o mundo vivido a partir da diferença e não da identidade? Isso é o amor! Experimentar o mundo a partir da diferença. Incluindo o desejo sexual e suas provas, incluindo o nascimento de uma criança, mas incluindo igualmente mil outras coisas, na verdade, qualquer coisa, desde que se viva sob o ponto de vista do ‘dois’ e não do ‘um’. O amor é uma posição existencial, é a construção de um mundo descentrado em relação à minha simples vontade. O amor inventa uma forma diferente de durar na vida. E, mais do isso, ele é o desejo de uma duração desconhecida, imprevisível. Não sabemos como será o amanhã, não temos garantias, mas o amor nos faz querer reinventar a vida todos os dias.

Badiou fala também que o fato de dizer o amor é fundamental. Porque o início do amor é absolutamente acidental: encontramos alguém que até então não conhecíamos e nos apaixonamos. Mas para que o amor exista, esse acaso deve ser fixado. E dizer ‘eu te amo’ é um passo fundamental. É assim que o acaso é fixado: a absoluta eventualidade do encontro acaba tomando as feições de um destino, como se só pudesse ter sido assim. E é por isso que a declaração de amor é tão perigosa, tão apavorante, porque ela é a passagem do acaso ao destino. Mas a declaração de amor não é algo pontual, ela é longa, confusa, difusa, complicada, declarada e redeclarada e destinada a ser sempre redita. Dizer eu te amo, com essas ou outras palavras, é justamente dizer que isso que poderia ter sido um simples acaso, é, para mim, um engajamento, uma duração, uma obstinação, uma fidelidade. E fidelidade, no sentido filosófico dado por Badiou, é a passagem do encontro ocasional a uma construção tão sólida como se ela fosse necessária.

É por isso que estamos aqui: para dizer um ao outro que depois de nos encontrarmos queremos continuar experimentando a vida pelo ponto de vista da diferença. E se esse nosso gesto é uma promessa de eternidade, nós pensamos a eternidade de uma forma menos milagrosa e mais laboriosa. Há um trabalho do amor, não apenas um milagre. É preciso estar a postos, ter cuidado, se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então sim, como recompensa do trabalho, ter felicidade.

E eu não como saberia terminar essa fala de uma forma diferente do modo como Badiou terminou seu elogio ao amor:

Comédia? Tragédia? Os dois. Amar é estar preso, além de toda solidão e com tudo o que o mundo oferece para animar nossa existência. Amar é ver no mundo a fonte da nossa alegria, da sua primeiro.

12 de março de 2012

O Muro de Campos Altos

Por Carolina P. Fedatto e André de Paiva Toledo*

Conhecemos a cidade de Campos Altos há quatro anos. Neste período nos apaixonamos por sua gente e por sua geografia. Consideramo-nos cidadãos campos-altenses e no intuito de contribuir para o alargamento da discussão democrática de nossa sociedade, resolvemos nos pronunciar acerca do Muro de Campos Altos, assunto que tanto tem ocupado os veículos locais de informação por mais rudimentares que sejam.

Nos primeiros passeios, percebemos que havia uma obra que não ornava com o ambiente bucólico e pacato da cidade. Tratava-se de um viaduto para automóveis aparentemente abandonado com ar de elefante branco sem serventia aparente. Desde 1912 corta a cidade de leste a oeste uma estrada de ferro, fazendo com que haja aqui uma fronteira que separa a zona sul da zona norte. É uma via muito utilizada, embora os trens que nela passam impressionam mais pelo barulho do que pela velocidade. O viaduto de automóveis inacabado liga as regiões norte e sul por cima da ferrovia.

Parada esta obra, iniciou-se outra a poucos metros a oeste da primeira. Foi concluída rapidamente, sem dar tempo de qualquer debate a respeito. Construiu-se uma passarela de pedestre para atravessar a ferrovia que mais parece um exemplo de arquitetura espontânea de Gaudí do que um trabalho de utilidade pública. Por causa da altura dos trens, a passarela é mais alta do que larga. Para ocupar menos espaço, fez-se um sistema de curvas que obriga o transeunte a subir uma rampa de três círculos, antes de caminhar poucos metros para atravessar a estrada de ferro para depois descer mais três círculos do outro lado. Todo o trajeto faz o cidadão percorrer uma distância razoável se comparado aos poucos centímetros de largura da via facilmente atravessada com uma passada ligeiramente mais larga.

A passarela abandonada pela população. O viaduto abandonado pelo poder público. Tudo levava a crer que poucos tinham se dado bem com aquilo tudo e que muitos teriam que suportar o encargo, como infelizmente acontece freqüentemente em nosso país. Essa era a impressão quando neste ano as obras do viaduto foram retomadas num ritmo tal que hoje se encontra praticamente pronta. Nada demais se não fosse o fato de que junto com o andar das obras do viaduto, deu-se início ao projeto de construção de um muro ao longo da ferrovia, o que obrigará a população a usar em breve as ditas obras.

Mês passado, vimos uma faixa em protesto ao Muro de Campos Altos. As obras continuam. Na edição 159 do periódico quinzenal “Classificados Campos Altos” de 24 de junho de 2011, publicou-se na primeira página uma pequena entrevista com o prefeito, que motivou este artigo. O jornalista inicia a reportagem afirmando que a cerca dividirá a cidade, prejudicando o comércio local. Embora não concordemos com a veemência da afirmação de que os empresários terão “muito prejuízo”, a informação é válida, pois a rua do comércio ficará definitivamente murada, sendo então o melhor ponto comercial transferido para a rua do viaduto, o que não interessa aos comerciantes da primeira e agrada muito aos da segunda.

Diz o jornalista que a população já demonstrou o descontentamento com o muro. Não temos visto isso, fora a tal faixa de repúdio sem autoria. Fora isso, não presenciamos qualquer outra manifestação, seja desfavorável, seja favorável. Diz o prefeito que está com o “povo”. Mas quem é o povo neste caso? Os comerciantes, talvez. Ele afirma que Campos Altos precisa mais do que uma passarela e um viaduto. Concordamos com ele e gostaríamos muito de ver a prefeitura agindo mais em favor daqueles que circulam pela cidade a pé ou de carro. Que a prefeitura construa mais passarelas e viadutos! Só que esta solução não é nem mencionada, pois para o poder executivo municipal tudo deve ficar como está, isto é, obras feitas e acabadas, mas sem o muro. O projeto da prefeitura é então “impedir a construção desta cerca” de qualquer forma. Descobrimos assim que tudo é coisa do governo federal. É Brasília que constrói o Muro de Campos Altos.

Vamos tentar analisar a situação de forma mais imparcial.

De fato, o ministério dos transportes é o competente pela obra. O projeto é antigo, do governo do presidente Lula. A cerca vai dividir a cidade e haverá duas passagens, uma para veículos e outra para pedestres. O muro vai separar a parte mais rica da mais pobre, o que tende a tornar a cidade ainda mais desigual. O comércio da parte sul, mais desenvolvida sócio-economicamente, é moderno e desenvolvido basicamente no estilo supermercado, enquanto os comerciantes do norte se caracterizam por ser pequenos empresários, que trabalham junto com os empregados nas charmosas vendas.

A passarela é realmente desconfortável, o que provavelmente levará os pedestres a usarem a calçada do viaduto, melhor projetada. Logo, para pedestres, haverá duas alternativas para cruzar a ferrovia. Para veículos, apenas uma, mas suficientemente grande para toda a frota local, seja de carros, motos, tratores, carroças e cavalos. Além disso, a segurança aumentará, pois não haverá – pelo menos no primeiro momento – brecha para que alguém atravesse a estrada de ferro que não seja pelas obras federais. Portanto, o problema não é a preocupação com os idosos que motiva a prefeitura a ser contra as obras prontas.

Questões surgem. Impressiona, primeiramente, ninguém na cidade ter se preocupado com as conseqüências dos projetos enquanto elas estavam em fase de construção. Há, pelo menos, quatro anos que se vê os alicerces do plano de construção do viaduto, da passarela e do muro. Este, claro, faz parte da lista do que o ministério pretendia realizar em Campos Altos. Quando se construíram as duas primeiras obras ninguém reclamou. Na hora de vir aquela que dará segurança aos pedestres, o empresariado grita.

Para nós, ou é má-fé ou ingenuidade esperar anos e o fim das duas primeiras etapas do projeto para iniciar uma campanha contra apenas o muro. Logo, a pressão é do setor empresarial do norte. Só ele perde com o muro. Ele será obrigado a se transferir para a nova rua do comércio, que beneficiará o setor empresaria do sul e os proprietários dos casarões do norte. Mas também beneficiará num primeiro momento os mais carentes do nordeste, que ficarão mais próximos da principal via da cidade até o momento em que a especulação imobiliária os expulsar para um lugar menos interessante economicamente. É assim que acontece e sempre aconteceu. Não só aqui como alhures.

*Escrito em Campos Altos/MG no dia 27 de junho de 2011.

9 de março de 2012

Nem tão mudos

Por Carolina P. Fedatto

Mesmo mudos, em silêncio, em sonho ou na mais tenra infância, à nossa revelia, as palavras nos atravessam e direcionam nossa relação com o mundo e com o outro, nos colocando na cultura e na história. Deve ser por isso que as amamos e odiamos a ponto de julgá-las, relegando algumas à condição de chulas (inadequadas a grande parte das situações formais e escritas) e outras à classe das eruditas (mais apropriadas não só às circunstâncias cultas, mas acima de qualquer suspeita em ocasiões informais também). Mais grave que isso: muitas vezes imputamos esse juízo de valores lexical às pessoas que as utilizam, chegando à conclusão de que são, as pessoas mesmo, essencialmente, juntamente com suas ações e falares, reles ou doutas. E como a linguagem é algo de obrigatório e ao mesmo tempo profundamente ligado às questões sociais e históricas, essa etiqueta permanece colada nos sujeitos, deixando pouco espaço para a passagem entre as duas esferas. É justamente nisso que consiste o famigerado preconceito linguístico, conceito forte no domínio dos estudos da linguagem, mas que vem sendo diluído por reducionismos reacionários. Do meu ponto de vista, o preconceito linguístico é a fixação, o engessamento das categorias de popular e erudito como se estivessem protegidas dos fatores históricos e sociais, como se a língua fosse o último exemplar de uma espécie rara e não uma das condições que nos faz homens e não bichos.

Mas cada vez mais o popular se impõe como algo que existe de forma tão respeitável quanto o erudito e, nesse jogo de forças pela permanência histórica, muitas vezes é o erudito quem se mostra inadequado, não usual e fora de contexto. Quantas vezes numa conversa com um legítimo capiau não nos surpreendemos incompreensíveis porque pronunciamos na ordem correta todos os ‘s’ e ‘r’? Em dez minutos de papo já começamos a relaxar a articulação dos fonemas para que a conversa corra solta, de igual para igual. A grande perversidade dessas situações é que quem passou pela escola e/ou teve uma criação ilustrada tem maiores chances de transpor essa barreira e se aproximar do interlocutor. Mas aqueles que, pela iniquidade das condições de acesso e continuação, não avançaram nos estudos, não dispõem de ferramentas para compreender e participar do mundo instruído. É por isso que saber e poder andam juntos. Quem mais sabe, pode mais, porque experimentou situações diversas e deve ter aprendido a ser maleável com elas. E se nesse início de milênio continuamos a tentar encontrar suas diretrizes, acredito que a tônica do século XXI está na flexibilidade, na disposição para a mudança e para a subversão de ordens que não fazem mais sentido.

Sensível ao real estatuto do popular no mundo atual, o juiz Carlos Roberto Loiola, lá naquela beirada de sertão chamada Divinópolis, transgrediu os costumes jurídicos com maestria. Ele se insurgiu contra o pedantismo de uma das advogadas, que pediu que se retirasse dos autos de um processo a palavra “catireiro”, vocábulo tão marginalizado que nem o dicionário do Word reconhece… O excelentíssimo juiz tomou partido, não repetiu as litanias exigidas por sua função e negou o pedido da advogada justificando-se de forma brilhante e inusitada. O senhor Loiola fez constar na sentença, como segue, sua posição em relação às palavras e seus desdobramentos sociais. Também acho que chamar um falecido de ‘de cujus’ é bastante desrespeitoso com a memória do morto, assim como se referir a maridos e esposas como cônjuge-varão e cônjuge-varoa. Quando se trata, entretanto, do domínio erudito, as justificativas de filiação ao latim vestem como luva aqueles que desejam conservar o rei na barriga; nesses casos todos enxergam muito bem a roupa nova do imperador… O difícil é admitir a importância social das classes populares. Mas o que o funcionamento social não cansa de mostrar é que as discussões do velho Marx fazem ainda bastante sentido: os homens não fazem a história, ou pelos menos não como gostariam. A história é como é. E as palavras também.

 

8 de março de 2012

A cidade e a negação do outro

Por Lucas de Melo Melgaço*

Originalmente publicado na revista Com Ciência em 10 de maio de 2010 (www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=56&id=709)

Historicamente as cidades nunca foram locais igualmente acolhedores a todos. Elas nascem justamente do encontro e identificação entre um grupo de “iguais” interessados em se enriquecer e se defender da presença indesejada do “outro”. Os outros na cidade grega clássica eram, por exemplo, os estrangeiros e os prisioneiros de guerra. Na cidade medieval europeia, doentes como os leprosos eram os detentores dessa alcunha de “indesejáveis”. Atualmente, os imigrantes latinos nos Estados Unidos, os árabes e os negros africanos na Europa Ocidental e os nordestinos, homossexuais, negros, prostitutas, usuários de drogas, portadores de necessidades especiais, mendigos e desempregados no Brasil, são aqueles mais comumente considerados como os outros. A principal mudança em relação ao passado é que, mais do que questões de raça, credo, saúde ou nacionalidade, no atual período de globalização neoliberal tem sido a pobreza o principal atributo de diferenciação.

Muitas vezes a negação do outro não se dá apenas no âmbito das falas e das ações, mas se materializa em formas urbanas voltadas a separar e afastar os indesejáveis. Um exemplo muito presente na arquitetura das casas e apartamentos brasileiros são as dependências de empregada e as entradas e elevadores de serviço. Tais formas têm a função de demarcar os espaços de circulação e presença dos empregados e de lhes assinalar sua condição de outro.

Mais do que o interior das casas, porém, grandes complexos urbanísticos têm sido construídos como resposta a esse desejo de segregação. Os condomínios fechados, por exemplo, sejam horizontais ou verticais, têm no argumento da exclusividade o seu principal apelo publicitário. O ideal de felicidade vendido pelos agentes imobiliários passa pelo conceito de que é bom aquilo que pode ser usufruído de modo individual ou no máximo por um grupo de “semelhantes”. Muitas campanhas reforçam, por exemplo, o privilégio de se ter áreas verdes e praças de lazer exclusivas e sem a incômoda presença de “estranhos”. Ao invés de ter que lidar com o outro em uma praça pública de esportes, prefere-se o privilégio de se ter um campo de futebol particular, mesmo que ele passe a maior parte do tempo subutilizado por falta de jogadores.

Talvez seja, porém, um pouco demasiado dizer que os condomínios sejam totalmente intolerantes aos outros. Algumas dessas pessoas podem se tornar “desejáveis” quando úteis para o cumprimento de serviços pouco nobres, como a limpeza ou a vigilância. Sem faxineiros, empregadas domésticas e porteiros, funções geralmente delegadas a nordestinos, negros e pobres, seria inviável a existência dos condomínios fechados nos moldes em que foram pensados. Contudo, basta um furto dentro de um condomínio para que, de desejáveis, essas pessoas retornem à condição de indesejáveis. Na ocorrência de um crime, os primeiros suspeitos são sempre os outros, e nunca, por exemplo, um jovem morador do condomínio que faz pequenos furtos internos para manter seu vício em drogas.

A mesma lógica de criminalização do outro está presente também nas recentes estratégias de monitoramento das cidades através de câmeras de vigilância. Os suspeitos ali apontados são na maior parte das vezes aqueles que se enquadram no estereótipo do “marginal”, ou seja, cujos traços físicos, modo de vestir e de se comportar não estão dentro dos modelos considerados “normais”. As câmeras também são usadas como instrumentos de repulsa dos indesejáveis, como ocorre em São Paulo , onde elas foram instaladas no entorno do Jóquei Clube com o objetivo de inibir a presença de prostitutas.

O uso de instrumentos de vigilância também tem sido cada vez mais freqüente em escolas brasileiras, especialmente nas privadas, muitas vezes com o curioso argumento de que são estratégias contra o chamado bullying : um tipo de violência em que um grupo de estudantes promove humilhações e violência psicológica a colegas que não se enquadram nos padrões de estética e comportamento considerados normais. O bullying é uma violência de não aceitação da diferença, ou seja, de intolerância ao outro. As câmeras, porém, por serem instrumentos que primam pela homogeneização de comportamentos, surtirão efeito contrário ao esperado, pois reforçarão a intransigência a tudo que for excêntrico.

Ainda a propósito das escolas privadas, deve-se destacar que muitas delas têm servido como verdadeiros centros de formação para a não-aceitação da diferença. Desde cedo, as crianças que as frequentam são expostas a ambientes ultra-controlados e ultra-exclusivos. Na cidade de Campinas (São Paulo), por exemplo, o excesso de proteção fica claro no caso de uma escola que escolheu o interior de um shopping-center como local para a construção de uma de suas filiais. Não satisfeita, porém, apenas com a segurança fornecida pelo estabelecimento comercial, a direção da escola resolveu instalar câmeras de vigilância nos corredores do colégio e, até mesmo, no interior das salas de aula. O excesso de seletividade é evidente também graças aos altos valores das mensalidades praticados, o que faz com que apenas crianças de famílias com certas condições financeiras possam frequentar esses locais. Assim, ao invés de educarem as crianças a conviverem na diferença, essas instituições privadas inculcam, desde cedo, naquelas pequenas mentes, ideias de seletividade e de segregação. Além disso, enquanto a porcentagem de negros dentre os alunos de escolas particulares está evidentemente muito abaixo da média nacional, a porcentagem de negros em serviços de vigilância e limpeza desses estabelecimentos é certamente bem mais elevada.

A intolerância ao outro se faz ainda mais evidente em formas urbanas que são explicitamente construídas para impedir a presença dos indesejáveis. Em diversos lugares da cidade de Campinas podem ser vistos objetos pontiagudos cuja função é a de evitar que pessoas “estranhas” se sentem e ali permaneçam. Tais arquiteturas são muito comuns em frente a estabelecimentos comerciais (figura 1), mas podem também ser encontradas em lugares mais inusitados, como nas escadarias da Catedral de Campinas (figura 2).

Espetos colocados nas escadas da Catedral Metropolitana de Campinas, 2007. Autor: Tiago Macambira

Até mesmo a prefeitura da cidade, que deveria ser a principal representante do interesse público, tem o seu exemplar de arquitetura anti-indesejáveis. Na reforma de um viaduto em um bairro nobre, pedras pontiagudas foram instaladas com o intuito de afugentar moradores de rua e pedintes (figura 3). Essas são, obviamente, políticas que combatem o pobre, como ser indesejável na paisagem, e não exatamente a pobreza.

Esse tipo de arquitetura voltada à expulsão dos indesejáveis não é, contudo, exclusividade de Campinas, mesmo que nessa cidade a sua concentração seja incrivelmente alta. As duas fotos a seguir, a primeira de uma calçada de Londres e a segunda da entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne em Paris, mostram que essas formas arquitetônicas têm sido presentes em paisagens as mais diversas.

É lamentável constatar como alguns arquitetos direcionam sua imensa capacidade criativa em projetos como esses. Há, todavia, casos ainda mais engenhosos como o que ocorre na região da “Cracolândia” em São Paulo onde, para afastar usuários de craque, um equipamento gerador de “chuva artificial” foi instalado sob a marquise de um prédio. Outro exemplo inusitado pode ser encontrado em algumas cidades inglesas que instalaram aparelhos emissores de ruídos ultra-agudos imperceptíveis para os maiores de 25 anos de idade, mas extremamente incômodo para os jovens. Contudo, o mais curioso deles é certamente o da também inglesa Mansfield: luzes róseas, como aquelas utilizadas por dermatologistas, foram colocadas em algumas ruas da cidade com o objetivo de realçar as espinhas dos adolescentes arruaceiros e com isso desestimular a presença dos mesmos naqueles locais.

Há, assim, uma deliberada adaptação das cidades para que elas se tornem receptivas para alguns e repulsivas para os indesejáveis. Mais do que uma questão estética, porém, essas arquiteturas carregam uma profunda carga simbólica. Quando uma prefeitura chega ao ponto de construir formas urbanas para expulsar os pobres, ela revela que suas preocupações não são coletivas, mas direcionadas a servir aos interesses de uma pequena classe hegemônica.

Por fim, é importante que não nos esqueçamos da forma espacial que mais claramente revela o objetivo de negar e segregar os indesejáveis: a prisão. Independente do local onde tenham sido construídas, as prisões são sempre majoritariamente povoadas pelos outros, o que no caso brasileiro são, sobretudo, os pobres. Além disso, há muito, a preocupação da Justiça brasileira não é a de recuperar seus presidiários e trazer esses outros para perto dos iguais, mas sim mantê-los o maior tempo possível isolados e na eterna condição de outro. Assim como os espetos anti-indesejáveis, as prisões não resolvem os problemas estruturais e profundos da sociedade, mas se contentam em promover uma “limpeza da paisagem”, tirando da vista dos iguais a incômoda presença dos “diferentes”.

Pode se, então, concluir que a cidade de hoje, mais do que aquela do passado, nega ao outro a condição de cidadão, negação esta que tem na pobreza o seu principal argumento. E, como pôde ser visto, essa intransigência não se restringe aos atos, pois se concretiza em formas urbanas repulsivas e segregadoras. Com a existência dessas formas, as cidades passam a criar as condições para que a intolerância seja não só mantida como também reproduzida. Confirmando-se essa tendência, chegará certamente o momento em que as cidades de poucos “iguais” se tornarão insuportáveis para uma grande maioria de “outros”.

Figura 1: Arquitetura anti-indesejáveis no comércio do centro de Campinas/SP, 2009. Foto do autor.

Figura 2: Espetos colocados nas escadas da Catedral Metropolitana de Campinas, 2007. Foto de Tiago Macambira.

Figura 3: Arquitetura anti-indesejáveis sob o viaduto de Campinas, 2007. Foto de Tiago Macambira.

Figura 4: Calçada de Londres com arquitetura anti-indesejáveis, 2009. Foto do autor.

Figura 5: Arquitetura anti-indesejáveis na entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne, Paris, 2010. Foto do autor.

*Lucas de Melo Melgaço é doutor em geografia e colabora com A rês pública.

24 de fevereiro de 2012

A fissão do eu

Por Carolina P. Fedatto

Vivi, no último mês, uma experiência aterrorizante para o centramento do eu. Aceitei, como já havia feito outras poucas vezes, escrever coletivamente. Aqueles que enveredam para a área acadêmica, sobretudo em ciências humanas, lidam, em geral, de forma narcísica com a escrita. Para estes, escrever é se colocar no papel, é expor suas artimanhas, desnudar seus argumentos, exibir a sintaxe de si no vasto sistema de escolhas vocabulares e teóricas. Escrever é amarrar seu burro com o sol a pino: vigilância extrema, certo incômodo e uma dose de prazer ao se sentir à mostra – couro queimando, mas com o aspecto saudável e as feições coradas daqueles que se arriscam a dar o ar da graça. Condenações e louros só para si. Já escrever a quatro, ou seis mãos (mais que isso é terapia em grupo) é dividir. Tarefas, labor, expertises e responsabilidades, mas também o ego, esse baita núcleo duro do qual a tradição humanista forja o homem nos fazendo crer que só poderia ser assim. Mais fácil cindir o átomo.

Mas descobri que a fissão do autor, assim como a fissão do átomo, libera uma energia violenta. Para o bem e para o mal. O processo é análogo. No início parece ser impossível, não há meios de começar, o ego se impõe e diz eu sou eu, me inscrevo na minha escrita, daqui não saio, não saio se não daqui. Mas o bombardeamento de ideias alheias, novas, afins e pesadas torna o núcleo do ego instável; a divisão está por um triz. E ocorre geralmente no momento em que nos reconhecemos no dizer do outro. Eu teria dito exatamente assim, ai como eu queria ter dito isso. A quantidade de energia desprendida nessa implosão precipitada pela identificação de si nas palavras do outro provoca uma reação em cadeia: desestrutura o eu e arquiteta pontes com enorme poder heurístico. As cabeças pensantes estilhaçadas tornam as mãos mais ágeis para a escrita. Divididos, ficamos parcialmente livres da culpa e entregues ao erro que alguém sempre poderá ajustar. Daí nascem textos majestosos, lindos em forma e conteúdo. Grandes asneiras refugiadas no bom-senso dos coautores também. É preciso confessar ainda que aquele prazer solitário da tacada perfeita desfalece com o texto finalizado. A obra coletiva é a vitória do não-eu. E confere a cada um o direito de não ser uno, de se dispersar nas ideias alheias e ainda assim tirar sua dose de prazer no reconhecimento e na aceitação. Se, como diz Lacan (e como me ensinaram as duas mãos do autor que, aos pedaços, dividiu comigo uma escrita), a letra desenha a borda no furo do real, mais do que uma mera experiência do ego, as palavras partilhadas nos colocam no limite entre o que se pode dizer e o indizível. Por isso, elas beiram o impossível e mensuram o gozo que se pode tirar da própria incompletude. Ao menos para quem já esteja afeito ao estranhamento…

#Este texto é uma homenagem a Jacques Fux e Humberto M. de Oliveira, com quem escrevi sobre enunciação, psicanálise e Georges Perec e a André de Paiva Toledo, com quem partilho – desigualmente, é claro, a escrita deste blogue.#

18 de fevereiro de 2012

De volta a São José

26 dias após a remoção forçada dos moradores do bairro Pinheirinho numa operação ilegal levada a cabo pela Polícia Militar de São Paulo e o Tribunal de Justiça de São Paulo, diante da omissãoda presidente Dilma Rousseff, diante da impunidade prepretada pelo governador Gerlado Alckmin, voltei a São José dos Campos/SP, cidade que aprendi a gostar nesses últimos anos de convivência. Dessa vez entretanto senti uma tristeza imensa ao entrar na cidade. Fiquei envergonhado ao ver a população agindo como se nada tivesse acontecido aqui há menos de um mês. Pinheirinho foi varrido para debaixo do tapete tanto pelo governo municipal, quanto pelos governos estadual e federal. Ainda no anel viário vi um motoqueiro, um motoboy, que poderia ser um ex-morador do bairro, trabalhando em alguma empresa de entrega de mercadorias. Ele vestia o uniforme do São José Esporte Clube, clube que aprendi a gostar por ser da cidade natal de minha noiva e por ter uma camisa do tom de azul do Cruzeiro de Belo Horizonte/MG, minha cidade natal. A Águia do Vale sempre representou um sentimento bom. A união de duas belas histórias. Hoje, a camisa se tornou o símbolo da cidade que virou as costas a uma parcela desfavorecida de sua população, que mais necessitava da solidariedade do concidadão. Vejo o prefeito Eduardo Cury naquele escudo… Por enquanto, aquela camisa 9 nada mais é do que a materialização de uma decepção. De uma decepção do tamanho da ilegalidade cometida pela Justiça e pelo Governo do estado paulista.

Será que algum dia ela voltará a ver a luz ou terminará para sempre nas trevas da vergonha?

10 de fevereiro de 2012

O oráculo de Delfos nos persegue a vida inteira

Por Carolina P. Fedatto*

Já não lembro quando comecei a ler esse romance da filóloga Maria Dueñas. Sei que o encontrei numa pequena livraria-café de Belo Horizonte, em prateleira destacada, aparentando ser um sucesso de crítica. Sua capa me chamou a atenção pela semelhança com a figura de Coco Chanel, uma esparsa, mas presente companheira na despedida das ruas parisienses, no cinema a sós e numa madrugada em claro quando encontrei uma de suas biografias ilustradas na mesa de jantar da minha sogra e me diverti entre fofocas, fotografias antigas da cidade-luz e lembranças queridas. Para além de qualquer modismo, a pequena Grabrielle me seduz por sua allure, seu corte de cabelo que me inspira e define, pelas pérolas e marinières, enfim, por ter sido ousada, prática, materialista. Digo isso querendo explicar, de maneira sentimental, o que me levou a abrir “O tempo entre costuras”.

Gostei do que vi, mas não comprei o livro. Amor à primeira vista talvez por Chanel (que só se fez presente por uma analogia banal de minha parte) ou pelo processo sem ação a que o título do romance remetia. Essas imagens me marcaram, no entanto, a ponto de um dia encomendar o livro pela internet, num só e certeiro golpe! Desde que o tive nas mãos, confesso que li sem muito entusiasmo as previsíveis tragédias quotidianas da pobre Sira Quiroga: uma costureirinha criada sem pai na Madri do início dos 1900 que se apaixona por um canalha e aceita viver com ele no Protetorado Espanhol do Marrocos. Durante 150 páginas ficamos às voltas com seus amores mal vividos e à mercê da consequente vidinha sem graça de quem tenta se reerguer das desilusões afetivas. Até que nossa inculta espanhola, enganada e sozinha, mas decidida a se reinventar, inaugura uma casa de costura com a ajuda da muambeira dona da pensão que a acolheu em Tetuán no momento em que a Guerra Civil estourou na Espanha, impedindo-a de retornar à casa materna.

As coisas começam, de fato, a melhorar para o leitor quando a heroína se aproxima de seu vizinho Félix, um tipo gay ilustrado que vive uma relação de amor e ódio com a mãe. Os finais de noite dessa dupla entretiveram minhas madrugadas insones durante a escrita da tese. Do interior de seu atelier, Sira conhece a intimidade das mulheres dos poderosos da época e desvenda sutilmente os jogos políticos da guerra passada, presente e futura. Ponto alto da trama, a meu ver, é o curto capítulo em que uma linda inglesa pede um vestido de festa com urgência para aquela noite. Acreditando não ter o tempo hábil que a empreitada exigia, a modista despede a moça com pesar. Ao bater a porta, no entanto, dá de encontro com uma página aberta da Madame Figaro, onde reconhece um modelo familiarmente simples e charmoso. Era um Delphos de Fortuny, uma legenda da moda forjada da antiguidade romana em dobras de seda que a talentosa costureira sabia remedar com perfeição. É brilhante a descrição das etapas de modelagem do vestido, tanto que mesmo nunca o tendo visto, inventei uma imagem mental que corresponde exatamente aos modelos reais.

Parei nesse ponto do livro porque a experiência – forçosa – de imaginar algo que nunca tinha visto através de uma descrição me fez perceber que é impossível não atravessar a ponte que liga as palavras às coisas. Não pude simplesmente saborear o som das vogais entrecortadas de consoantes e deixar de pensar na correspondência entre aquela sequência de letras e o mundo que nos rodeia. Não escapei de relacionar substantivos e verbos à imagem que culturalmente construo a partir dessas amarrações de vocábulos. Uma história ainda não representada pesou sob meus pensamentos tal como as previsões nefastas do Oráculo de Delfos ao rei de Tebas. Uma tragédia se anuncia sempre que ousamos não aproveitar a carona da língua para chegar a esse mundo que se apresenta como o único possível. Não entender é um drama do qual a imaginação se esforça para escapar. E há quem acredite em seu poder libertador…

As palavras não são as coisas, bem entendido, mas se passam muito bem por elas! Eis o triunfo da civilização sobre a barbárie: só a cultura para nos impedir de inventar objetos inexistentes…

*Carolina P. Fedatto é doutora em linguística e escreve n’A rês pública todas as sextas.

3 de fevereiro de 2012

O que quer uma tese?

Por Carolina P. Fedatto*

Freud formulou esta mesma pergunta em outros termos: “o que quer a mulher?” E Lacan desdobrou o enunciado freudiano em duas afirmações cruas: “a mulher não existe” e “não há relação sexual”; declarações que devem ser compreendidas em relação ao desejo e sua satisfação. A mulher não tem, como o homem, um objeto que a represente de forma imaginariamente inabalável, assim como não há saturação plena do desejo, há uma falta constitutiva da qual tentamos escapar mentindo.  Mentimos em nossa neurose. O obsessivo mente porque o que não está sob seu domínio não existe, não importa, não interessa. A histérica mente porque acredita existir relação sexual em algum lugar, só que não é essa, não é você.

Lucian Freud

De uma forma um pouco patológica ludibriamos a falta que nos constitui. E pode-se sempre, através dessas mentiras fundamentais, tentar responder a qualquer questão de maneira obsessiva – com listas intermináveis, critérios sociológicos, recortes temáticos, históricos exaustivos e enquetes estatisticamente garantidas – ou de maneira histérica – acreditando que as questões não têm resposta, que a dúvida é mais importante do que todo seu universo possível de explicações. Mas é apostando no poder desestabilizador dos temas exaustivamente tratados (obsessivo) ou das perguntas sem resposta (histérica) que escrevemos uma tese.

Rembrant

Ao substituir, na questão freudiana, o artigo definido (a) pelo indefinido (uma) e o substantivo animado (mulher) por um inanimado (tese), exploro os sentidos do verbo querer, evidenciando seu caráter volitivo. O desajuste começa aí. Uma tese pode ser feita de palavras, imagens e silêncios ou de conteúdo, dados e descobertas. Uma tese quer provar algo. Uma tese é uma posição diante de uma questão. Uma tese pode também querer mostrar algo. E há sempre o desejo de um sujeito por trás desse querer e dessa posição. Quando se faz uma tese o desejo do sujeito parece se esconder sob o desejo da ciência (sempre obsessivo). E fica parecendo que uma tese é o tratamento de uma questão em todos os seus aspectos, a exaustão de um tema, a descoberta de um novo objeto ou, para os mais audaciosos, uma revolução no regime da verdade. Esquecendo-se que há alguém que quer uma tese, esquece-se que ela é feita de suor e desgaste, de fatos e dúvidas, de noites mal-dormidas, contraturas musculares, miopia, amor e ódio. Uma tese é um processo no qual o desejo de um sujeito está implicado. Já acreditar que ela é o resultado da vontade desse sujeito seria cair de um dos lados da armadilha obsessiva científica que separa o exato e o biológico do humano. Apesar de todo método, a vontade de uma tese se impõe. É a essa vontade que temos que responder ao ousar continuar querendo-a.

*Carolina P. Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.

27 de janeiro de 2012

Das coincidências ou de como toda história é remorso

Por Carolina Padilha Fedatto*

Esse é um relato de viagem e suas coincidências. Na virada do ano que passou, percorremos um trecho da Estrada Real, de Diamantina a Ouro Preto. Após um tempo fora do país, achamos por bem nos entregarmos à primeira estrada oficial brasileira, um velho caminho que derramava nossas riquezas até os navios portugueses e que poderia, naquele fim de ano, dar vazão ao desejo de reencontrar diversos brasis. A região da ER é hoje objeto contraditório de muita publicidade e abandono, o que exalta nossas tradições coloniais e ao mesmo tempo relega pequenas cidades e povoados ao quase isolamento.

Tentamos ao máximo permanecer na Estrada Real, tal como a seguiam as mulas carregadas de valores, mas o trajeto aberto e consagrado pelo interesse exploratório português se deteriorou junto com o esgotamento das minas. De Diamantina a Alvorada de Minas são 77 km de terra. Chovia constantemente enquanto viajávamos, o que deixou a estrada encharcada de incertezas. Até Conceição do Mato Dentro seguimos pela MG010, uma paralela da ER em tão mal estado de conservação que em muitos momentos duvidamos de que fosse verdadeiramente uma via asfaltada. Caímos em dois atoleiros e junto com mais uma dezena de outros carros fomos socorridos pela retro-escavadeira da empresa encarregada pela manutenção da pista.

Apesar do atestado negativo da chuva, enfrentamos o desconhecido Caminho dos Diamantes da ER até Morro do Pilar. Cruzamos com poucos veículos, mas eles nos faziam acreditar na possibilidade de transitar por ali. Após curvas escorregadias e algumas patinantes subidas, o povoado perdido finalmente apareceu nos reafirmando a vontade de seguir. “A estrada até Itambé tá boa, moço?” “S’ocê veio d’Alvorada até aqui… deve tá do mesmo jeito. Tá na chuva é pra se molhar!” Mais a frente, perguntamos a um casal se a estrada era sinalizada. A mulher, solícita, interrompeu a explicação do marido: “Placa, não tem não, mas tem uma árvore.” Sem pé no freio, o carro desceu a rua tão reticente quanto nós. Com barro até as juntas, alguma empáfia, um GPS e a experiência de um motorista com formação rural continuamos animados. Os pingos intermitentes ficavam desimportantes perto das belezas naturais.

Éramos bons companheiros de viagem: deslumbrados, apaixonados e corajosos, mas… o inevitável: tinha uma voçoroca no meio do caminho que nos impediu definitivamente de seguir pela antiga estrada. Cabisbaixos, demos uma conformada marcha à ré. Retrilhamos não sem surpresas uns 10 km de chão até o trevo de Santo Antônio do Rio Abaixo, cidadela que nos levaria a novos barreiros antes da BR mais próxima. Caminho desconhecido e muito charmoso de rios caudalosos e gente que tem a simplicidade de nos olhar nos olhos. São Sebastião do Rio Preto, recanto dos mosaicos, Passabém, Santa Maria de Itabira, Itabira, terra dos feios minérios explorados e do poeta que reencontraremos ao fim desta viagem. Só em Barão de Cocais demos novamente com a Estrada Real num trecho já metropolitano. Daí a Catas Altas foi um pulo rumo ao merecido repouso.

Em 12 horas percorremos cerca de 400 km. Exaustos, mas satisfeitos, jantamos uma lingüiça caseira com mandioca na manteiga e dormimos ao som da fina garoa que não nos deixou em nenhum momento do percurso. Foi nesta noite também que descobrimos por acaso que o livro escolhido de última hora para nos acompanhar na viagem, Poesia completa e prosa de Manuel Bandeira, continha um guia de Ouro Preto elaborado pelo poeta em 38. Acredito que as coincidências só nos escoltam quando estamos atentos, pois se há acaso, ele tem sempre uma história. Nesse caso, a história do acaso tem a ver com nossa paixão por poesia, o conforto de adormecer ouvindo recitações e certo prazer em retrilhar as impressões alheias sobre os caminhos que se apresentam. Seguiríamos no fim da tarde daquele último dia de 2010 ainda mais entusiasmados para a antiga Vila Rica. Antes, conhecemos o complexo do Caraça: uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com igreja neogótica e as ruínas – consumidas por um incêndio, mas transformadas em museu – do primeiro colégio de ensino médio do Brasil. Belas surpresas, incluindo um almoço digno de padres e um silêncio monástico quebrado apenas pelos pingos de chuva caindo dos grandes telhados. O tempo (meteoro e cronológico) nos impediu de explorar as veredas abertas entre Mata Atlântica e Cerrado. Partimos com vontade de voltar.

Ouro Preto nos aguardava com belas igrejas talhadas por Aleijadinho e cobertas pelo pincel de mestre Ataíde. Andamos pela cidade através dos passos deixados por Manuel Bandeira e tivemos como maior atração as ruas só nossas: escarpadas, lisas e esvaziadas pelo feriado agaroado. Nada além. Museus, igrejas, sobrados e tempo fechado. Tocando os pés naquele chão pisávamos em memórias esquecidas ao passo de conversas sobre outros lugares e desejos próximos. Lá se foi um primeiro de janeiro, com direito a prato predileto, cansaço e cochilo. Dia seguinte, aguardamos na vizinha e rival Mariana a abertura do Museu da Inconfidência. Lá cumprimos nosso derradeiro dever de viajantes e nos despedimos da cidade mais rica do mundo em meados do dezessete entre dois paus da forca de Tiradentes, instrumentos de punição de escravos, retratos encomendados de imperadores, imagens e pinturas sacras. Já em casa, novamente (não) por acaso, abro um livro do Drummond: claro enigma.

Museu da Inconfidência

São palavras no chão

E memórias nos autos.

As casas inda restam,

Os amores, mais não

E restam poucas roupas,

Sobrepeliz de pároco

E vara de um juiz,

Anjos, púrpuras, ecos

Macia flor de olvido,

Sem aroma governas

O tempo ingovernável.

Muitos pranteiam. Só.

Toda a história é remorso.

   

*Carolina Padilha Fedatto é doutora em Linguística e escreve n’A rês pública às sextas-feiras.

20 de janeiro de 2012

O Frevo de São Paulo

Por motivo de força maior, nenhuma polêmica ou assunto mais sério será tratado neste espaço de debate sobre a coisa pública, no fim deste 20 de janeiro de 2012. Tal força maior tem nome e sobrenome. Trata-se de um sanduíche de salame com queijo em pão ciabata, acompanhado de duas canecas de cerveja de um boteco muito charmoso de nome Frevo. Fica na rua Oscar Freire de São Paulo, capital paulista, e se mantém o mesmo desde 1956. Uma ilha de simplicidade e tradição, cercada de sofisticação por todos os lados. Ambiente claro, arejado e limpo. Funcionários vestidos à moda antiga com direito inclusive à gravata borboleta. Não deixa nada a desejar aos mais badalados cafés parisienses. E o melhor, preço justíssimo! Por isso, aos queridos leitores d’A rês pública o pedido de compaixão àqueles que, envoltos pela atmosfera típica de uma jornada de verão, foram tentados no deserto por esta cobra maldita, bela e muito gostosa. Até amanhã!

http://www.frevinho.com.br/historia.html

 

A logomarca do boteco "Frevo" de São Paulo/SP, em 2006.

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