Archive for ‘Política’

17 de abril de 2012

O novo Código Florestal é mais um gol da Copa do Mundo

O governo federal autorizou a formalização de um acordo sobre o novo Código Florestal cujo texto flexibiliza ainda mais a recuperação de áreas ilegalmente desmatadas pela anistia de pequenos e médios proprietários rurais, mantendo as penas por desmatamento ilegal aos grandes proprietários.

No embate de posições políticas divergentes, prevaleceu o entendimento dos parlamentares da bancada ruralista quanto à necessidade de supressão do texto legislativo do dispositivo estabelecendo faixas mínimas de recomposição das áreas de preservação permanente (APP) nas margens dos rios. Esse assunto seria regulado por medida provisória ou seria enviado ao Congresso Nacional um projeto de lei específico ao tema.

Segundo análises divulgadas pela grande imprensa, a supressão deste dispositivo significaria a consolidação do desmatamento em APP de 92% das propriedades rurais do Brasil. Consegue-se por vias tortas aprovar o espírito da então descartada proposta de anistia a qualquer desmate em APP ocorrido até 2008 e que foi duramente criticada em 2011.

A bancada ruralista fez o jogo certinho da democracia contemporânea. Elegeu-se em número suficiente para pressionar os outros parlamentares e o Poder Executivo quanto à aprovação de demandas pertinentes. Dessa vez a pressão foi feita com a ameaça de travar a aprovação da Lei Geral da Copa. Com os prazos vencendo, a presidente Dilma Rousseff tentou reverter o quadro até o momento em que a realização da Copa do Mundo nos moldes acertados com a FIFA passou a ficar comprometida. Mais um dos inúmeros prejuízos que este evento causará ao País.

Democracia é assim. Enquanto não surgirem verdadeiramente políticos comprometidos com a questão ambiental, capazes de serem eleitos em número suficiente para enfrentar os interesses ecologicamente nocivos de outros segmentos sociais e impor sua vontade, não dá para culpar ninguém pelo melancólico resultado das discussões legislativas sobre o novo Código Florestal.

Se há culpa, ela é do povo que democraticamente ainda prefere assistir no território nacional ao desmatamento de matas ciliares que a manutenção da diversidade biológica. Uma pena para nós outros que desejamos viver num outro mundo em que o homem possa viver em harmonia com a natureza. Cabe a nós continuar a participar politicamente da vida social a fim de alcançar o grau de engajamento e eficiência dos ruralistas.

7 de março de 2012

Patrus para prefeito de BH

José Serra anunciou sua candidatura à prefeitura de São Paulo/SP pelo PSDB como um desafio eleitoral de âmbito nacional. Exageros à parte como é próprio de Serra, famoso por sua arrogância e seu orgulho, há certa verdade quando diz que o resultado da eleição municipal na capital paulista pode influenciar a disputa presidencial em 2014, quando a presidente Dilma Rousseff do PT poderá concorrer à reeleição. Isso se deve ao fato de que São Paulo é a principal cidade do Brasil em termos econômicos. Lá vivem mais de onze milhões de habitantes, o que equivale que neste município se encontram cerca de 6% dos brasileiros. Se se levar em conta a população da Grande São Paulo, esse índice sobe para pouco mais de 10% da população nacional. Em termos eleitorais, só a cidade de São Paulo corresponde a mais de sete milhões de pessoas aptas a votar. Não se pode desprezar a força eleitoral dos paulistanos em termos nacionais.

Fora a questão quantitativa, São Paulo, como todas as demais capitais estaduais, possui uma influência política muito forte nos municípios do interior. O estado de São Paulo, como seus mais de 40 milhões de habitantes, é democraticamente o suporte eleitoral do governo federal. Em vista desta conjuntura, ser prefeito da capital paulista pode, sim, moldar politicamente o estado, ainda mais levando-se em conta a homogeneidade socioeconômica dos municípios do estado.

José Serra, apesar dos crimes de lesa-pátria cometidos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso no esquema da privataria tucana, possui uma grande aceitação entre os paulistanos mais conservadores. As primeiras pesquisas dão conta de que Serra, após a divulgação da intenção de se candidatar à prefeitura de São Paulo, assumiu a ponta com 30% das intenções de voto. Já o candidato do PT, o também ex-ministro Fernando Haddad se encontra com 3%. Claro é que a campanha ainda não se iniciou e muita coisa pode acontecer. Inevitavelmente o tema da privataria tucana virá à tona e o candidato Serra não poderá ignorá-lo como insistentemente tem feito. O ex-presidente Lula, extremamente popular e quem bancou a candidatura de Haddad, entrará forte na campanha, ainda mais curado do câncer da laringe, como tem informado a imprensa. Com o Lula como cabo eleitoral, qualquer pessoa pode se eleger, haja vista o que aconteceu com a Dilma em 2010.

Entretanto, o PSDB é muito forte em São Paulo e, mesmo com Lula, o PT corre sério risco de não levar a parada. Por isso, as forças políticas populares que desejam continuar no poder federal a partir de 1o. de janeiro de 2015 não podem cruzar os braços e assistir à disputa eleitoral paulistana, como se apenas ali estivesse sendo travada a disputa pelo futuro nacional. É aqui que entra Belo Horizonte/MG.

Minas Gerais é o segundo colégio eleitoral do Brasil. É aqui que o Norte pobre e o Sul rico se encontram e são obrigados a conviver. É o mediterrâneo brasileiro. O estado é o fiel da balança e, para onde pender, aí caminhará a nação. Daí advém a importância da prefeitura de Belo Horizonte. Diferentemente do que acontece em São Paulo, Belo Horizonte sempre foi marcada por administrações de viés mais esquerdista. Desde 1993 até 2008, a capital mineira foi administrada por Patrus Ananias do PT, por Célio de Castro do PSB e por Fernando Pimentel do PT. Depois de 16 anos no comando do principal município do estado, na iminência de mais um mandato do PT, o PSDB mineiro comandado pelo então governador Aécio Neves resolveu adotar uma estratégia de rompimento do domínio petista em Belo Horizonte.

Quando da definição dos candidatos a prefeito no pleito de 2008, Aécio se aproximou do então prefeito, Pimentel, que não poderia concorrer a um terceiro mandato, propondo-lhe um acordo em que o PT e o PSDB apoiariam um candidato único à prefeitura naquele ano, que não fosse de nenhuma das duas legendas. Em troca, Aécio apoiaria Pimentel ao governo de Minas em 2010, quando tivesse que deixar o Palácio da Liberdade.

Apesar dos protestos de correntes independentistas, o PT mineiro acabou formalizando o acordo que propiciou a eleição de Márcio Lacerda do PSB, atual prefeito de Belo Horizonte. Dois anos depois, Aécio trairia Fernando Pimentel ao apoiar seu secretário Antonio Anastasia, candidato do PSDB, ao governo estadual. O PT mineiro, que contava com a candidatura “única” de Pimentel, foi pego de surpresa e não conseguiu reagir a tempo, deixando de apresentar candidato próprio e, o pior, indicando Patrus como vice na chapa de Hélio Costa do PMDB. Depois do desastre de Nilmário Miranda em 2006, quando o PT nacional, em vista do apoio do PMDB à reeleição de Lula, exigiu que os petistas mineiros apoiassem Newton Cardoso ao senado; em 2010, foi a vez de Patrus ser o mártir do apoio do PMDB à Dilma com a composição da chapa de Hélio Costa. No final da história, quem ganhou foi o PSDB de Aécio que elegeu Anastasia ao governo e tirou o PT da prefeitura de Belo Horizonte.

Em 2012, ano de eleição municipal. O prefeito Lacerda deseja se reeleger. Qual será o papel do PT mineiro? Há informação de que Pimentel, ministro de Dilma, apóia a reeleição de Lacerda em prol da coerência. Outros dizem que se Lacerda for apoiado pelo PT, isso fortaleceria ainda mais o PSDB mineiro em detrimento do PSDB paulista – o grande rival do PT nacional – e as chances de Serra não ser o candidato a presidente em 2014 aumentam. Mas o problema é que entregando mais uma vez de bandeja uma vitória eleitoral a Aécio, o PT poderá comprometer a reeleição de Dilma, pois Minas Gerais, como fiel da balança, penderia para o Sul.

De acordo com esse raciocínio, a melhor alternativa ao PT mineiro é lançar o Patrus como candidato a prefeito dos belo-horizontinos e criar um contrapeso político na capital do segundo maior colégio eleitoral a uma eventual vitória de Serra na capital do primeiro. Patrus tem bagagem política similar a de Serra. Combateu a ditadura militar, era membro da esquerda católica, advogado e professor de Direito, foi reconhecidamente um bom prefeito de Belo Horizonte entre 1992 e 1996, liderou o ministério de combate a miséria de Lula. Não há candidato do PSDB capaz de bater Patrus em Belo Horizonte. Sua vitória é certa. O PT assim colocaria um excelente beque para marcar homem-a-homem o principal atacante do PSDB. Fora o fato de Dilma garantir um palanque exclusivo no coração das Alterosas.

3 de março de 2012

Há cheiro de golpe de Estado no ar do Brasil

Uma centena de militares da reserva assinaram um documento, denominado Manifesto à Nação, em reação ao enquadramento das agremiações militares feito pelo ministro da defesa, Celso Amorim, sob ordens da presidente Dilma Rousseff, após a divulgação de críticas dos reservistas contra o governo federal no que diz respeito à Comissão da Verdade. O primeiro manifesto polêmico foi assinado pelos presidentes do Clube Militar (Renato Cesar Tibau Costa), do Clube Naval (Ricardo Cabral) e do Clube da Aeronáutica (Carlos de Almeida Baptista), todos militares da reserva. O Manifesto à Nação reafirma a validade das críticas anteriores. Além disso, os reservistas elevam o tom ao acrescentar Amorim no rol de ministros sob suspeita. “Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade”, diz o novo documento militar.

Além do ministro da defesa, as ministras Eleonora Menicucci e Maria do Rosário e a própria comissão voltaram a ser alvo de crítica por parte dos reservistas. “A aprovação da Comissão da Verdade foi um ato inconsequente, de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”. Os militares continuam confundindo lei com interpretação da lei que cabe ao Poder Judiciário. Cabe exclusivamente a esta função estatal dizer se a comissão é uma afronta ou não à Lei da Anistia. O Poder Executivo só faz representar os anseios do povo de conhecer sua história, conforme o estabelecido pela Constituição. Se eventuais interessados vão procurar a Justiça para responsabilizar civil e penalmente os autores de violações aos direitos humanos, isso não é da alçada da Dilma ou de qualquer de seus ministros, mas uma atribuição exclusiva dos órgãos jurisdicionais que deverão apreciar o pedido. Se os militares estiverem com a razão, a causa será julgada improcedente. Simples assim. Mas o problema não é esse. A questão é que os militares não querem nem debater, o que de fato não é o forte da caserna. Os tempos são outros. Há enfim democracia depois que eles deixaram o Planalto e o diálogo aberto é a regra do jogo, inclusive para os militares, que são cidadãos como qualquer outro, submetidos igualmente à Lei, pois como diz o art. 5o. da Constituição promulgada com o fim da ditadura militar, “todos são iguais perante a Lei”.

Em face da insubordinação dos cem militares que subscreveram o Manifesto à Nação em que provocam o Estado de Direito ao complementarem o título com um “eles que venham, aqui não passarão”, o ministro Amorim comunicou que todos eles deverão ser punidos por indisciplina, conforme a legislação militar, o que pode implicar até a expulsão da corporação, independente de serem reservistas. Com o anúncio da punição dos autores do Manifesto à Nação, outros militares e até civis passaram a assinar o texto, atualizado com o título de A verdade sufocada, elevando a 386 o número de comprometidos. São 322 militares e 64 civis. Dois ex-chefes do Comando Militar do Leste (CML), que foram para a reserva recentemente e que promoveram dezenas de generais atualmente da ativa, também assinaram o documento. São eles, Luiz Cesário da Silveira Filho (reserva em 2009) e Rui Alves Catão (reserva em 2010). Cesário, em seu discurso de despedida do CML, exaltou o golpe militar de 1964, disse que participou deste movimento contra a legalidade sob a incontestável liderança do então general de brigada Emilio Garrastazu Médici, “de patriótica atuação posteriormente na Presidência”. Pode-se dizer assim, pautado pelo sentimento de hierarquia e gratidão próprios dos militares, que entre os insubordinados está gente capaz de arregimentar o pessoal que se encontra nos quartéis hoje. Antônio Araújo de Medeiros, general da reserva, que também aderiu ao movimento contra o governo federal, foi instrutor do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI). Valdésio Guilherme de Figueiredo, também subscritor d’A verdade sufocada, integrou o Superior Tribunal Militar (STM). Além deles, Gilberto Barbosa de Figueiredo, ex-presidente do Clube Militar, está dentro da ação de contestação ao comando militar da presidente da República. Fora os 44 generais, há o nome no manifesto atualizado de 195 coronéis, 32 tenentes-coronéis, 11 majores, 12 capitães, 14 tenentes, 9 subtenentes, 8 sargentos e um cabo. A lista com as adesões é atualizada diariamente e está publicada na página da internet d’A verdade sufocada, administrado pelo coronel Carlos Brilhante Ustra, que foi comandante do Doi-Codi entre 1970 a 1974. Gente acima do bem e do mal. Gente quite com a nação brasileira.

Há cheiro de tentativa de golpe de Estado no ar… Dilma tem que agir rápido para abafar o movimento antes que tenha que dar um tiro no peito ou fugir para o Uruguai.

29 de fevereiro de 2012

FHC e Aécio nas mãos de Serra

Realmente esse mundo político é imprevisível e incoerente. Em início de dezembro de 2011, a carreira política de José Serra parecia definitivamente encerrada com a publicação do livro A Privataria Tucana em que são enfim divulgados detalhes dos crimes cometidos pelo alto escalão do PSDB no processo de privatização de empresas estatais, ocorrido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. As informações apresentadas pelo autor não só inviabilizam qualquer eleição de Serra, então ministro, a qualquer cargo público, como é mais que suficiente para a apresentação de denúncia pelo Ministério Público em vista de sua responsabilização penal. É questão de tempo a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dedicada à análise do esquema de lavagem de dinheiro e propina nas privatizações financiadas com dinheiro público via BNDES.

Diante do fato incontestável, restou a Serra dizer que o livro era um lixo. As demais lideranças do partido não opinaram a respeito, mas Fernando Henrique, cuja reputação não há como piorar, chegou a confidenciar em fins de janeiro de 2012 que “a minha cota de Serra deu. Ele foi duas vezes meu ministro, duas vezes candidato a presidente, candidato a governador e a prefeito. Chega, não tenho mais paciência com ele”. Fernando Henrique, fundado no seu currículo político inatingível por Serra, transformava-se em menino de recados das lideranças do partido. O PSDB informava a Serra que sua história de candidatura havia chegado ao fim, não só no que dizia respeito à presidência mas também a cargos inferiores como o de governador e… prefeito.

Satisfeito ficou Aécio Neves, concorrente eterno de Serra, que pôde vislumbrar pela primeira vez o caminho tranquilo à candidatura à presidência da República pelo PSDB. Fernando Henrique, o menino de recados do PSDB, em entrevista a The Economist afirmou que o ex-governador de Minas Gerais era o candidato “óbvio” do seu partido para enfrentar a presidente Dilma Rousseff. Serra, incomunicável depois da publicação do livro de Amaury Ribeiro Jr., entendia muito bem o segundo recado do PSDB. O partido não contava mais com ele para ser candidato a nada. Além disso, soube que a escolha para as eleições de 2014 havia sido feita. Seu arqui-inimigo mineiro teria sua chance de disputar a presidência da República.

 

Aécio, relaxado, parou de se preocupar com a constante presença de Serra. Este era carta fora do baralho. Agora era só comemorar. Foi considerado a decepção parlamentar de 2011. Em 2012, faz tudo, menos trabalhar no Congresso Nacional. O senador está por todo o Brasil, salvo em Brasília onde deveria exercer o mandato concedido pelo povo mineiro. Há quem diga que é assim mesmo; que ele está na verdade em campanha presidencial com dois anos de antecedência. Mesmo assim não se justifica a sua omissão parlamentar. Ele poderia tentar se destacar naquela função para a qual foi eleito em 2010. Mas parece que o político só pensa mesmo em festa e curtição. A última notícia dá conta de que ele foi visto fazendo mergulho em Fernando de Noronha ao lado de Fafá de Belém. É Globeleza, meu povo!

O fato novo é que parece que Aécio se esqueceu que as informações d’A Privataria Tucana só foram obtidas depois que ele pediu ao jornal Estado de Minas que descobrisse quem era o responsável pela espionagem que ele sofria quando da definição do candidato do PSDB à sucessão de Lula no Planalto. Amaury Ribeiro Jr. soube que eram serristas os espiões que acompanham Aécio pelas baladas cariocas. Foi assim que o jornalista mineiro passou a investigar Serra e descobriu a podridão do esquema criminoso das privatizações do governo de Fernando Henrique.

Mas onde está o dossiê contra Aécio, feito em 2009? Onde está o dossiê contra Fernando Henrique, feito durante o seu governo?

É só perguntar para o atual candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo/SP e quem volta “à cena política com força”, podendo inclusive disputar a presidência no futuro… Quem seria esse político?

 

27 de fevereiro de 2012

Aécio Neves (PSDB-RJ) tira férias até 2014

Aécio Neves que fora considerado a decepção parlamentar de 2011, diante do anúncio de que José Serra se candidatará à prefeitura de São Paulo/SP neste ano, parece querer ainda menos compromissos políticos que não sejam aqueles próprios dos ambiente que frequenta e que despertaram tanto a curiosidade dos espiões de Serra em 2009, quando os dois ainda eram postulantes à candidatura do PSDB à sucessão de Lula. Não se sabe ainda o que os serristas têm em mãos, mas foi o suficiente para Aécio tirar seu time de campo e dar o troco na mesma moeda. Ele, que controla a imprensa mineira, colocou a tropa de choque do Estado de Minas atrás do Serra, o que resultou no livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr. O que há no dossiê de Aécio não se sabe, embora os Departamentos de Trânsito do Brasil já tenham publicado uma prévia.

Agora que as pretensões de Serra não cabem mais no território nacional, ele volta sua atenção a São Paulo, único lugar em que pode tentar renascer das cinzas, o que parece missão impossível para quem é o articulador do maior esquema de lavagem de dinheiro da história da humanidade. Aécio, que já era um bon vivant com o rival paulista em cima pressionando-o de todos os lados com suas chantagens e intimidações, agora se vê temporariamente livre de qualquer rival direto dentro do partido à candidatura presidencial para poder se dedicar ao trabalho político em Brasília.

Doce engano a quem pensa assim. Aécio é imediatista e prefere tudo a trabalhar como um verdadeiro político, daqueles que fato querem algo além de frequentar as festas para very very important people da zona sul carioca. Por isso, ignora seus compromissos eleitorais, esquece de exercer o mandato lhe entregue pela maioria do povo mineiro e resolve tirar férias de dois anos até a entrada no jogo eleitoral contra a presidente Dilma Rousseff, contando com as manipulações midiáticas coordenadas por sua irmã, Andrea Neves, também conhecida como a Goebbels das Alterosas, virtual candidata ao governo mineiro para suceder Antonio Anastásia, também filhote político de Aécio.

Além disso, ninguém acompanha mesmo o trabalho de um senador, não é verdade? O mandato é de oito anos. Qual o problema de ficar dois anos sem trabalhar pelo estado no Congresso Nacional? Para falar a verdade, se for para ir ao Senado para defender os interesses dos outros estados em detrimento de Minas Gerais, como ele andou fazendo quando do debate sobre os royalties do petróleo em que se tornou o quarto senador fluminense, é melhor que se abstenha mesmo das votações… Não sei o que é pior: ver o senador viajando e curtindo a vida adoidado sem pisar em Brasília ou vê-lo piorar a situação do estado que lhe deu o mandato.

No dia 12 de fevereiro de 2012, Aécio estava no Paraná em festa agropecuária. Na semana passada foi visto em Pernambuco para praticar o mergulho, acompanhado da sempre animada e festeira, Fafá de Belém.

Para Aécio no PR: http://historiaspraboiacordar.wordpress.com/2012/02/12/aecio-neves-mata-o-trabalho-no-senado-para-fazer-campanha-politica-no-parana

Para Aécio em PE: http://historiaspraboiacordar.wordpress.com/2012/02/26/preocupado-com-as-eleicoes-de-2014-aecio-neves-descansa-em-fernando-de-noronha/

8 de fevereiro de 2012

Copa de 1978: um golaço da ditadura militar

Na Copa do Mundo de 1978, sediada pela Argentina, ocorrida no tempo em que 24* equipes participavam do torneio, a seleção brasileira de futebol havia vencido a Polônia às 16h45 de 21 de junho, no estádio Malvinas Argentinas de Mendoza. O Brasil, com a vitória, atingia a pontuação máxima do grupo. A vaga na quinta final em 48 anos e a chance do tetracampeonato dependiam apenas de um detalhe: o saldo de gols da Argentina que, se vencesse o Peru, atingiria a mesma pontuação do Brasil.

Por ter feito uma melhor campanha, o Brasil possuía um saldo de gols que obrigava a Argentina a vencer, às 19h15 do mesmo 21 de junho, o Peru por uma diferença de quatro gols, algo não muito fácil de conseguir em jogos profissionais. As chances brasileiras eram enormes.

Dois anos antes, em 24 de março de 1976, o governo de Isabelita Perón sofreu um golpe de Estado organizado pelas forças armadas argentinas, instaurando uma ditadura militar presidida pelo comandante do Exército, Jorge Rafael Videla.

Antes mesmo da deposição de Perón da presidência da Argentina pelo militares, houve em Santiago do Chile no dia 25 de novembro de 1975 uma reunião presidida por Manuel Contreras, chefe da polícia secreta chilena –  Dirección de Inteligencia Nacional ou DINA – com representantes dos serviços de inteligência militar de outros países sul-americanos, dentre os quais a Argentina peronista.

O objetivo da reunião foi traçar diretrizes comuns e acordos de cooperação entre os serviços de inteligência militar com o objetivo de eliminar do continente a subversão marxista do continente. O resultado dessa reunião foi batizado de “Operação Condor”, uma ideia levantada em 3 de setembro de 1973 pelo general brasileiro Breno Borges Fortes para o aumento da integração dos serviços em favor da luta contra a subversão, em consonância com os princípios ditados em 1968 pelo general Robert W. Porter em nome do Exército dos Estados Unidos.

Naquela ocasião em que os exércitos americanos se encontravam na 10a. Conferência de Caracas, Venezuela; o Brasil já vivia seu nono ano sob o regime autoritário dos militares. Nosso país era veterano no ramo da perseguição política e não é de se admirar que fosse o mais experiente a propor projetos mais ousados.

O inventor da Operação Condor foi o Exército brasileiro. Quem o fundou foi um consórcio formado por Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

Poucos meses antes da reunião de fundação da Operação Condor, o comandante geral do exército peruano, Francisco Morais Bermúdez, liderava um golpe de Estado contra o então presidente Juan Velasco Alvarado, assumindo em 30 de agosto de 1975 o poder ditatorial daqueles país.  O diretor da divisão do hemisfério ocidental do serviço de inteligência estadunidense, a CIA (Central Intelligence Agency) na época, Ted Shackley, deu todo o apoio para a consolidação do golpe de Estado no Peru, assim como haviam procedido no Chile, dois anos antes, quando Augusto Pinochet tomou o poder à força das mãos de Salvador Allende.

Em 1978, ano de Copa do Mundo na Argentina, o senador peruano, Genaro Ledesma Izquieta, foi sequestrado pela polícia política do regime ditatorial de Bermúdez para ser enviado clandestinamente à Argentina pelo governo local, que os queria bem longe do Peru e sob a vigilância da duríssima estrutura repressiva argentina, conforme previam os acordos da Operação Condor. Muitas vezes, essas transferências internacionais de prisioneiros políticos eram, na verdade, meros voos da morte em que os perseguidos decolavam, mas não aterrissavam.

Em 25 de maio de 1978, a um mês do jogo da Argentina contra o Peru pela semifinal da Copa do Mundo, a remessa peruana de presos políticos desembarcava no campo de concentração de Jujuy para sessões de tortura.

Pouco tempo antes do jogo entre Argentina e Peru, em que a seleção local necessitava de vencer por mais de quatro gols de diferença para chegar à final no lugar do Brasil, Videla entrou em contato com Bermúdez para, dentro do espírito de camaradagem próprio da cooperação da Operação Condor, pedir um favor ao parceiro. Ele queria que o Peru perdesse por mais de quatro gols para que  seu país, anfitrião da Copa, pudesse ir à final ao invés do grande rival sul-americano, o Brasil.

Às 21h00 de 21 de junho de 1978, o placar do estádio Gigante de Arroyito de Rosário marcava: Argentina 6 x 0 Peru.

A Copa do Mundo presta homenagem ao ditador Videla.

*Hoje são 32 seleções que disputam uma edição de Copa do Mundo.

6 de fevereiro de 2012

A Folha de S. Paulo mente à moda da Veja

Em Belo Horizonte tenho a oportunidade de ver a edição impressa da Folha de S. Paulo. Na edição de ontem, dobrada e abandonada na área de serviço, há uma reportagem assinada por Bernardo Mello Franco, na página A12, que trata do massacre do Pinheirinho. Fiquei sinceramente surpreso de ver o jornal sabidamente comprometido com os interesses oligárquicos paulistas dar espaço ao fato, mesmo que fosse com um atraso de 17 dias. Ao ler, percebi que a Folha de S. Paulo adotou de vez o discurso da revista Veja, defensora escancarada dos valores fascistas. Isso me preocupou muito, pois o jornal, por mais que sempre tenha demonstrado suas preferências políticas, era mais elegante, ponderado, tentando dentro do possível demonstrar o outro lado da questão. Tanto é que considero-o ainda o melhor jornal do Brasil. Ver a Folha de S. Paulo argumentar à moda da Veja significa que a direita brasileira, especialmente a oligarquia de São Paulo, resolveu radicalizar o discurso contra as reivindicações populares, especialmente após o lamentável episódio do Pinheirinho.

Segundo o argumento do jornal, em plágio do que vem sendo sustentado pela revista, o movimento de resistência do Pinheirinho foi uma estratégia exclusiva do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unido), que tem optado pela “luta direta” em menosprezo pela democracia. O jornalista até transcreve frase de Zé Maria, presidente nacional do PSTU, segundo a qual “nossa prioridade não é disputar eleições”, para depois ridicularizar o partido com seus resultados pífios nas últimas eleições, como se o partido fundado por “uma ala à esquerda do PT” quisesse impor pela força sua forma de ver o mundo.

Ora, reduzir a resistência do Pinheirinho e de outros movimentos sociais a uma estratégia do PSTU pelo confronto direto é uma mentira e uma irresponsabilidade, pois é tentar passar ao seu leitor – sujeito capaz de pagar R$5,00 por aquela edição – que a atuação do Estado foi pautada pela Lei contra alguns fanáticos marxistas que pregam a luta de classes direta através da manipulação das massas. Isso é uma mentira. O próprio fiasco do PSTU nas últimas eleições demonstra que não se trata de uma sigla capaz da arregimentar as massas. Por sua vez, é lógico que o PSTU estava no meio daqueles civis massacrados ilegalmente pelo Estado paulista.

Os moradores resistiram porque estavam perdendo tudo o que tinham. Estavam perdendo sua vida, sua história. Estavam sendo removidos forçosamente por uma polícia que em nenhum momento se preocupou com o bem-estar daquelas pessoas. Estavam sendo expulsos de sua moradia em virtude de uma decisão ilegal em conflito de competência que deveria ser resolvido antes de qualquer ação. Estavam eles resistindo porque a polícia fascista de São Paulo praticou todo tipo de violência, chegando inclusive a assassinar e abusar sexualmente daqueles cidadãos. Reduzir esse movimento justo a uma reação inconsciente às manobras de um partido de extrema esquerda é continuar idiotizando o povo como sempre fez a oligarquia.

A elegância e a sutileza não se perderam de todo. Ao lado da reportagem de Mello Franco em que se comunica às classes abastadas paulistas a declaração de luta aberta de classes pelo Zé Maria, há uma foto do governador Geraldo Alckmin em ação, plantando uma árvore, cuja legenda foca no fato de ele ter criticado um dirigente do PSDB que incitou a militância tucana a “ir para o pau” contra a manifestação de opositores. Depois de tudo o que tem acontecido em São Paulo desde os problemas na USP, alguém ainda duvida que PSDB deseje mais do que tudo o embate antidemocrático contra a esquerda? Depois de A Privataria Tucana, a Lista de Furnas, a USP, a Cracolândia, o Pinheirinho e a Praça da Sé, a direita sabe que ficará muito tempo sem ganhar uma eleição nacional. Se para o jornalista da Folha de S. Paulo o PSTU é uma partido antidemocrático que menospreza as eleições, o PSDB parece também covardemente querer sê-lo em dever pela defesa de Deus, da família e da pátria.

Só pode ser essa a explicação para que a Dilma Rousseff continue em silêncio sem querer meter a colher nas barbaridades cometidas pelo PSDB em São Paulo. Até quando?

 

5 de fevereiro de 2012

PM pratica violência sexual no Pinheirinho

No dia 1o. de fevereiro de 2012, alguns ex-moradores do Pinheirinho comparecerem ao gabinete da 10a. Promotoria de Justiça de São José dos Campos/SP, acompanhados do senador Eduardo Suplicy, para declarar que na noite de 22 de janeiro de 2012, dia da desocupação forçada do bairro por forças da Polícia Militar paulista, eles foram vítimas de violência sexual por parte de uma dúzia de policiais do Grupamento ROTA.

Os policiais teriam invadido a casa onde estavam quatro pessoas e, puxando uma mulher pelos cabelos, levaram-na para um lugar vazio do imóvel onde ficou por quatro horas sendo seviciada por eles. Ela contou ao representante do Ministério Público estadual que foi abusada sexualmente (sexo oral, apalpação vaginal e dos seios). Além disso, o adolescente que também estava no grupo teria sido ameaçado de “empalação com um cabo de vassoura untado de creme e pomada”. O jornalista Luiz Carlos Azenha chega a afirmar que o “rapaz que as acompanhava foi empalado com um cabo de vassoura – e encontra-se preso até o momento”.*

Quanto mais o tempo passa, mais crimes são descobertos nesta trágica operação da polícia estadual. A mesma turma que torturava nos tempos de ditadura militar continua a ocupar os altos comandos das forças policiais. Embora todos os tratados internacionais sobre direitos humanos dos quais o Brasil é signatário prevejam a imprescritibilidade do crime de tortura e o Brasil tenha sido julgado culpado na Corte interamericana de direitos humanos sobre o caso da Guerrilha do Araguaia, até hoje nenhum seviciador daqueles sombrios tempos se apresentou em juízo para se explicar. Se os torturadores são tão orgulhosos dos serviços prestados à pátria naqueles anos, por que não fazem então questão de se apresentaram publicamente para defenderem seus pontos de vista? A resposta é simples: a covardia tão característica da oligarquia brasileira não os deixa sair do esconderijo em que entraram. É a única direita do mundo que tem vergonha de se assumir enquanto tal. Todos os outros países têm sua corrente conservadora, reacionária e preconceituosa que se orgulha disso e assume seus pontos de vista. Por que é tão difícil assumir o autoritarismo?

Travestir de democrático e legal um regime fascista de aplicação da lei a alguns, a não aplicação da lei a poucos e a aplicação da violência ilegal em muitos, como o fez o estado de São Paulo neste episódio do Pinheirinho é a maior covardia que se pode esperar de uma corrente política que não tem coragem de mostrar sua verdadeira face à sociedade. A alternativa é a mentira, que tem sempre a perna curta. Pode demorar um pouco, pode demorar muito. Mas a verdade sempre vem à tona. Mais cedo ou mais tarde, os criminosos do Pinheirinho vão ter que responder pelos seus, mesmo que seja no âmbito político ou moral, que costumam ser muito mais eficientes que o âmbito jurídico, muitas vezes, conivente. A Privataria Tucana demorou alguns anos, mas chegou ao público pela pena de um jornalista e pelo trabalho de divulgação de setores comprometidos com a informação verdadeira. Eis que chegou enfim o grande momento de passar essa história a limpo. A verdade do Pinheirinho vem surgindo pouco a pouco. Serra vai pagar o que fez ao Brasil, quando do esquema de propina e lavagem de dinheiro através da privatização do patrimônio da nação. Fernando Henrique já vem pagando suas escolhas nesses quase dez anos de ostracismo. É outro que precisa ficar escondido em ano eleitoral para não prejudicar o PSDB. Alckmin também já calcula os prejuízos políticos com o desastre de São José dos Campos. Agora é a vez da polícia. A começar pelo coronel Manoel Messias de Mello e seus comandados. Os torturadores brasileiros têm que começar já a pagar por seus crimes. Logo! Por isso que não acredito que a presidente Dilma Rousseff, que esteve nas mãos dos mesmos carrascos, não faz muito tempo, não esteja empenhada em pegá-los agora que não existe nenhuma Lei da Anistia em que se esconder.

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*Para a informação de Azenha, acesse http://www.viomundo.com.br/denuncias/suplicy-ex-moradores-do-pinheirinho-foram-vitimas-de-violencia-sexual-praticada-por-pms.html?utm_source=twitterfeed&utm_medium=facebook

30 de janeiro de 2012

Nem FHC tem paciência com Serra

Depois que o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr. foi lançado, há menos de dois meses, batendo recordes de venda – eu mesmo tenho o meu exemplar da primeira edição (uma relíquia!) -, mesmo com a grande imprensa insistindo em ignorar o fato, a internet disseminava como uma peste das mais contagiosas a informação mais do que documentada da ocorrência do maior esquema de lavagem de dinheiro da história da humanidade, posto em prática pelo PSDB do então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu fiel escudeiro e ministro José Serra, quando do processo de privatização do patrimônio nacional levado a cabo naqueles sombrios anos de neoliberalismo.

Por mais que o pessoal da patota do Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi & Cia. Ltda. se fingisse de cego – são especialistas na arte da dissimulação -, achando preconceituosamente que o povo brasileiro é composto em sua maioria por uma ralé idiota a esperar na frente da telinha a versão oficial dos acontecimentos transmitida pela voz aveludada de William Bonner, os detalhes sobre os crimes cometidos pela quadrilha montada por Serra eram reproduzidos numa escala jamais vista por uma oligarquia tradicionalmente acostumada a manipular a informação ao seu bel prazer. Antigamente era assim mesmo, infelizmente. A imprensa oligárquica, composta por meia dúzia de veículos de informação, acertava entre si a versão a ser publicada. O que não saía nas suas pautas, não existia politicamente. Ainda bem que a internet nasceu e se popularizou para acabar com essa brincadeira de mau gosto. Como bem escreveu uma vez Luís Nassif, se ditadores árabes dos mais facínoras são derrubados pelo povo organizado através das redes sociais, o que pensar dessa oligarquia brasileira, composta por gente apática, medrosa e covarde. A internet é o maior trunfo democrático mundial! Só no Brasil são 80.000.000 de pessoas conectadas. Uma revolução!

Acreditando, entretanto, que o mundo não havia mudado, o que demonstra de novo a absurda alienação de nossa elite escravocrata, Serra fingiu-se de morto desde a primeira semana de dezembro quando as denúncias contra ele recém saíam das gráficas. Rezava ele para que o tempo passasse, as denúncias comprovadas de Amaury Ribeiro Jr. não circulassem e que ele pudesse o quanto antes retomar sua carreira política, pois como ele já dissera uma vez à revista Veja: “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”. Se como ministro fez o que fez no esquema de lavagem de dinheiro das privatizações, imaginem o que o Serra não faria enquanto chefe de Estado? Estressado como nunca se viu, Serra sentiu que, como o Pinheirinho o será para o governado de São Paulo, Geraldo Alckmin; a Privataria Tucana nunca mais desgrudará de sua pele. Uma chaga vergonhosa que repugnará qualquer cidadão de bem pelos anos a fio. Por isso, como eu já comentara, há algumas semanas, nas redes sociais, antes da fundação d’A rês pública, que o livro A Privataria Tucana sepultara de uma vez por todas a cansativa carreira política de Serra. Na minha humilde opinião, hoje, ele não ganha eleição nem para síndico de seu condomínio de altíssimo luxo, embora há quem diga por estas paragens que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… De toda forma, o jogo acabou para o ex-ministro, pois, como afirmou há pouco o próprio Fernando Henrique, responsável pela nomeação de Serra como ministro da privataria e, por isso mesmo, tão ou mais responsável pelos crimes de lesa-pátria cometidos no seu governo: “Chega. Não tenho mais paciência com ele [Serra]”. Eu também não, e não é de hoje!

Com Alckmin tendo que digerir a seco o Pinheirinho, que inevitavelmente acompanhá-lo-á  como uma eterna morrinha, Fernando Henrique, o Farol de Alexandra, do alto de sua inquestionável sapiência,  já escolheu o candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2014. Por incrível que pareça, trata-se do ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a decepção do Senado em 2011*, que encabeça a Lista de Furnas, que a seu tempo virá à tona, e contra quem os espiões de Serra têm muitas evidencias acerca de sua questionável postura nas incontáveis baladas cariocas. Há quem diga por aqui, inclusive, que Aécio seria o quarto senador do Rio de Janeiro, votando muitas vezes contra os interesses dos mineiros, mas isso é assunto para outro artigo…

*Para a decepção do Senado com Aécio Neves, leia http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2012/01/09/2014-decepcao-com-aecio-desnorteia-oposicao/.

 

27 de janeiro de 2012

O silêncio público de Dilma

Sexta-feira, 20 de janeiro:

A Justiça Federal entende que a União é parte interessada no caso do Pinheirinho de São José dos Campos/SP e ordena a suspensão do cumprimento do mandado de reintegração de posse de um terreno de propriedade da massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas, expedido pela Justiça Estadual de São Paulo.

O senador Eduardo Suplicy se encontra com o presidente do TJSP, Ivan Sartori, em São Paulo/SP e acerta um prazo de 15 dias para o fim das negociações com os moradores, o que é comunicado à juíza Márcia Faria Mathey Loureiro da 6a. Vara Cível de São José dos Campos, que não despacha no processo de reintegração de posse.

Sábado, 21 de janeiro:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o Prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, são informados dos termos do acordo feito na véspera no gabinete do presidente do TJSP.

Suplicy se encontra com os representantes do Pinheirinho em São José dos Campos para comunicar que o governo estadual suspenderia todas as medidas de remoção nos 15 dias seguintes a fim de manter o diálogo entre as partes interessadas.

Em São Paulo, Sartori, traindo o acordo com o senador, expede ordem ao governo estadual para a mobilização da Polícia Militar com o objetivo de cumprir imediatamente o mandado de reintegração de posse, devendo repelir qualquer óbice inclusive forças policiais federais. Alckmin, desobedecendo uma decisão da Justiça Federal, coloca milhares de policiais militares para desocupar o Pinheirinho.

Domingo, 22 de janeiro:

Começa em São José dos Campos a operação de reintegração de posse pela Polícia Militar em que são presos 18 civis, feridas dezenas de pessoas e mortos sete cidadãos cujos corpos são enviados clandestinamente ao IML de São Paulo, segundo relatos de testemunhas.

Em São Paulo, Suplicy, depois de 1h30 de espera, é recebido por Alckmin que lhe engana afirmando que a decisão da Justiça paulista “vale” mais que a federal.

Enquanto isso, o secretário da Presidência para a articulação social, Paulo Maldos, que negociava com os moradores do Pinheirinho é ferido por uma bala de borracha. Até mesmo alguns agentes da Polícia Rodoviária Federal tiveram que se esconder de tiros disparados pela polícia paulista em conformidade com as ordens do presidente do TJSP.

Em Brasília, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, diz que o governo federal não agiria no Pinheirinho como o governo estadual, mas também não agiu de forma alguma. Omissão dolosa da União no momento em que acontecia as ilegalidades em São Paulo.

Dilma permanece em silêncio…

Segunda-feira, 23 de janeiro:

Mesmo com o Pinheirinho completamente esvaziado pelas forças de ordem, a imprensa credenciada não é autorizada a entrar na área. Perto dali, no centro de triagem construído às pressas pelo poder público desprovido das mínimas condições para abrigar seres humanos, os policiais militares continuavam a agredir os ex-moradores que ali estavam alojados.

Alberto Goldman, presidente interino do PSDB, publica uma nota em que reclama da “deplorável intromissão” do governo federal nos assuntos do estado, como se as palavras de Gilberto Carvalho e de Maldos significassem alguma interferência da União em São Paulo.

Pressionado pela opinião pública, Alckmin, chefe do poder executivo estadual e responsável pela Polícia Militar, tenta justificar as arbitrariedades injustificáveis, chegando ao ponto de ter que ser defendido pelo desembargador Sartori que, inconstitucionalmente, declara que foi a presidência do TJSP que comandou a ação policial.

Dilma permanece em silêncio…

Terça-feira, 24 de janeiro:

As últimas habitações do Pinheirinho eram enfim destruídas sem que houvesse tido tempo de os ex-moradores retirarem seus móveis. Os pertences dos milhares de refugiados internos foram para o lixo junto com o entulho das casas.

Há rumores de que um eventual traçado do trem-bala ligando São Paulo ao Rio de Janeiro/RJ passaria muito perto do Pinheirinho, o que valorizaria ainda mais o mercado imobiliários local. Desde 2004, quando a área começou a ser ocupada, até a data da reintegração de posse, o preço do metro quadrado do local aumento 2.500%.

Dilma permanece em silêncio…

Quarta-feira, 25 de janeiro:

Aniversário de São Paulo, feriado municipal. Milhares de manifestantes se dirigem à Sé onde ocorre uma missa em homenagem à cidade sem a presença de Alckmin, membro da Opus Dei. Achando que não tinha nada a ver com o imbróglio, o prefeito Gilberto Kassab comparece ao evento e acaba recebendo muitas vaias e alguns ovos por parte dos indignados. A Polícia Militar responde com gás de pimenta, cassetetes, bombas e tiros de borracha.

No Fórum Social Temático de Porto Alegre/RS, Dilma permanece em silêncio…

Quinta-feira, 26 de janeiro:

No Rio de Janeiro, desabam três edifícios na região central, causando a morte de várias pessoas. Dilma enfim se pronuncia em solidariedade às vítimas, mas só aos cariocas.

Sobre o Pinheirinho, Dilma permanece em silêncio…

Conclusões

Primus:

Quando a injustiça vem de causa natural, a Dilma rompe o silêncio.

Quando a injustiça vem de causa política, a Dilma permanece em silêncio…

Secundus:

Ou Dilma, diante de arbitrariedades, violências e ameaças da oposição, tem medo de perder o equilíbrio político e, consequentemente, as boas condições de governabilidade em tempos de crise econômica mundial;

ou ela espera o momento mais apropriado para acertar as contas com aqueles que ultrapassaram os limites legais e éticos da ação política.

Estão abertas as apostas.

Enquanto isso, Dilma permanece em silêncio…*

*Dilma teve que comentar o episódio na quinta-feira, 26 de janeiro, em reunião fechada com cerca de 90 representantes do comitê internacional do Fórum Social Mundial, em um hotel na capital gaúcha. A presidenta foi provocada a tocar no assunto pelo empresário Oded Grajew, ex-presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, segundo relato feito à reportagem por uma pessoa presente à reunião.

P.S.: Este artigo é uma homenagem ao meu grande amigo e aniversariante do dia, Bruno Valle, companheiro de arquibancada do Mineirão.