Archive for ‘Política’

25 de janeiro de 2012

80 anos depois, a mesma oligarquia, o mesmo erro?

Em 1930, depois de oito anos de empenho, forças políticas identificadas com os interesses nacionais de caráter popular chegaram ao poder central do País pela Revolução iniciada pelos 18 do Forte de Copacabana. Era o fim da República oligárquica que tomara o poder com a política dos governadores.

Dois anos depois, há exatos 80 anos, os oligarcas brasileiros, saudosos dos tempos em que eram os únicos donos dos destinos nacionais, se organizaram para tentar recuperar o trono à força. Forjou-se uma retórica política fundada no constitucionalismo para ser utilizada como pretexto do uso das armas contra o governo federal.

A tríade oligárquica formada pelos “republicanos” Washington Luís (São Paulo), Artur Bernardes (Minas Gerais) e Borges de Medeiros (Rio Grande do Sul) utilizou a Força Pública (Polícia Militar) de São Paulo para tomar o poder dos “tenentes” Flores da Cunha (Rio Grande do Sul), Olegário Maciel (Minas Gerais) e Getúlio Vargas (Distrito Federal). Infelizmente boa parte da população paulista se deixou levar pelos interesses oligárquicos e aceitou participar da farsa. Foram arrasados pelo Exército Nacional e pelas Forças Públicas dos demais estados, propondo desde o início do conflito uma guerra exclusivamente defensiva que em nenhum momento ameaçou o poder constituído dos elementos identificados com as aspirações populares.

Hoje, a mesma oligarquia paulista parece querer cometer o mesmo erro.

No dia 23 de janeiro de 2012, secretário nacional de articulação social da Secretaria Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, que foi atingido por uma bala de borracha enquanto estava na comunidade, concedeu uma entrevista coletiva sobre a operação da Polícia Militar de São Paulo no cumprimento do mandado de reintegração de posse do bairro Pinheirinho de São José dos Campos/SP, expedido pela Justiça Estadual.

De tudo o que o representante do governo federal contou, nada mais é novidade depois do imenso número de reportagens veiculadas especialmente pela internet desde a manhã de domingo, 22 de janeiro de 2012, data do massacre do Pinheirinho; salvo uma frase que passou desapercebida por muita gente: “A Polícia Rodoviária Federal teve que se esconder de balas da Polícia Militar do estado de São Paulo”. Isso significa que a policia estadual atacou a policia federal, como em 1932.

Se isso não bastasse, Maldos relatou também que quando quis entrar no Pinheirinho apresentando sua credencial de secretário do governo federal, um policial militar o impediu, informando que “você não vai entrar e, se você quiser, você pede para sua presidente falar comigo.” Para “sua” presidente? Significa então que para a força policial de São Paulo a Dilma não é presidente?

Será que São Paulo quer se tornar independente do Brasil ou apenas derrubar a Dilma?

É representativo também o fato de o senador Eduardo Suplicy, na manhã de 22 de janeiro, no palácio do governo, ter ouvido do governador Geraldo Alckmin sobre o conflito positivo de competência jurisdicional que a decisão da Justiça paulista vale mais que a federal, muito antes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ter se pronunciado sobre o caso. A Justiça de São Paulo “vale” mais que a Justiça Federal?

De onde será que Alckmin (des)aprendeu tanto sobre o Direito?

O professor tem nome e sobrenome. É o desembargador Ivan Sartori, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que na véspera da desocupação do Pinheirinho expediu ordem de despejo de 1.300 famílias, acrescentando que “qualquer óbice que venha a surgir no curso da execução, inclusive a oposição de corporação policial federal” seja repelido pela Policia Militar paulista. O presidente do TJSP ordenando que a polícia paulista repila corporação policial federal?

Basta para saber o que pretende a velha oligarquia.

Só espero que Minas Gerais e Rio Grande do Sul não entrem nesse jogo, muito menos a brava população paulista, que em poucos meses tem apanhado diariamente da polícia oligárquica na USP, na Cracolância, no Pinheirinho, na Praça da Sé. Minha esperança é na informação bem mais democrática hoje que nos anos 1930. Espero que a oligarquia paulista não tenha se esquecido da lição de 1932.

Despacho do des. Ivan Sartori em 21 de janeiro de 2012.

23 de janeiro de 2012

O Judas Alckmin

Em São José dos Campos/SP, desde a última semana, tive a oportunidade de acompanhar de perto os desdobramentos do imbróglio do Pinheirinho. Quando aqui cheguei, no dia 20 de janeiro de 2012, a conversa era que haveria mais 15 dias de prazo para que as autoridades municipal, estadual e federal achassem um alternativa que garantisse os direitos dos moradores do bairro ocupado e a massa falida da empresa Selecta de Naji Nahas.

Neste dia, a Justiça Federal havia expedido ordem de suspensão das operações de desocupação, autorizadas pela Justiça Estadual, por entender que a União era parte interessada no litígio. Diante de um conflito positivo de competência jurisdicional, caberia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinar a qual juízo caberia a decisão.

Foi por causa desse conflito de competência que ficou acertado o prazo de 15 dias antes da tomada de qualquer medida administrativa. Participaram desse acordo o juiz do processo de falência da Selecta, Beethoven Giffoni Ferreira, o administrador da massa falida, Jorge Uwada, e o advogado da empresa, Waldir Helu. O acordo foi protocolado no gabinete do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivan Sartori, ato este presenciado pelo senador paulista, Eduardo Suplicy. Foi neste momento que Beethoven telefonou à juíza Márcia Mathey Loureiro da 6a. Vara Cível de São José dos Campos para informar os termos do acordo.

No dia seguinte, sábado, convencido de que o governador Alckmin e o prefeito Eduardo Cury respeitariam o acordo da véspera, Suplicy foi a São José dos Campos para informar aos moradores do Pinheirinho do prazo de 15 dias para se obter uma alternativa. O alívio foi geral.

No domingo, os moradores que acreditaram na palavra de Suplicy foram acordados pela tropa de choque da Polícia Militar que cumpria o mandado de reintegração de posse expedido pela juíza Márcia, sem levar em conta a existência de uma decisão judicial em sentido contrário, o silêncio do STJ quanto à competência jurisdicional e, o pior, o acordo protocolado junto ao presidente do TJSP.

Sentindo-se traído, Suplicy foi imediatamente para o palácio do governo em São Paulo/SP. Depois de uma hora e meia de espera, Alckmin recebeu Suplicy em seu gabinete onde justificou o descumprimento do acordo pelo fato de estar vigente o mandado de reintegração de posse da Justiça de São Paulo. Suplicy lhe respondeu que havia outra ordem da Justiça Federal. “Mas a que vale é a decisão paulista”, teria atestado o governador.

Alckmin se engana, não há hierarquia entre uma decisão da Justiça Estadual ou Federal. Ambas têm que ser respeitadas de maneira igual. Se o governo de São Paulo não cumpriu ordem da Justiça Estadual, Alckmin cometeu o crime de desobediência, alem de quebrar escancaradamente o pacto federativo. Ele tinha que ter esperado a manifestação do STJ para o conflito de competência. Ele devia ter consultado a União que participava das negociações. Não me lembro de ver a República ser tão ameaçada como neste 22 de janeiro em São José dos Campos.

Outra informação importante é que a juíza Márcia de São José dos Campos, que determinou a reintegração da posse do Pinheirinho, não referendou o acordo firmado em São Paulo, mesmo tendo conversado por telefone com o juiz Beethoven do processo de falência da Selecta. Na minha opinião, se as partes interessadas firmaram o acordo que mantinha a possibilidade de conciliação, a juíza era obrigada a suspender o mandado. Total irresponsabilidade da magistrada.

Suplicy foi traído pelo juíza Márcia, pelo prefeito Cury e pelo governador Alckmin. O que dirão o desembargador Sartori , o juiz Beethoven? O que dirá a Justiça Federal? O que dirá a Presidência da República?

22 de janeiro de 2012

Massacre no Pinheirinho: a covardia de um governador

Por coincidência, estamos em São José dos Campos/SP, neste triste domingo em que a Polícia Militar de São Paulo faz cumprir à força um mandado de reintegração de posse, emitido pela justiça estadual, em área de ocupação conhecida como o Pinheirinho. O governador Geraldo Alckmin agiu de forma desonesta, prometendo aos moradores um prazo de mais 15 dias de negociação, promessa essa transmitida pelo senador paulista Eduardo Suplicy, ontem, 21 de janeiro de 2012. Alckmin traiu Suplicy que entregou a cabeça do Pinheirinho de bandeja à polícia oligárquica. Uma desmoralização!

Hoje, 22 de janeiro de 2012, às 6h da manhã, quando todos acreditavam nas promessas do governador e confirmadas pelo senador, a tropa de choque da Polícia Militar começou a operação de desocupação que, segundo informações não confirmadas, já causou a morte de sete pessoas (seis moradores e um policial). Uma tragédia! Ainda mais levando-se em consideração que há uma decisão da Justiça Federal de hoje que determina a suspensão imediata da reintegração de posse do Pinheirinho, assinada pelo juiz Samuel de Castro Barbosa Melo. As autoridades competentes têm que prender Alckmin imediatamente por homicídio, desobediência à ordem judicial e irresponsabilidade!

Nós tentamos chegar ao Pinheirinho, mas o aparato policial não permite a aproximação de ninguém. Conseguimos apenas tirar algumas fotos. As imagens abaixo são de autoria de Carolina Padilha Fedatto.

Aparato policial impede a aproximação ao Pinheirinho, em São José dos Campos/SP.

19 de janeiro de 2012

Azeredo e a privatização do ensino

Na noite de terça-feira, 17 de janeiro de 2012, o programa de rádio do governo federal A Voz do Brasil transmitiu uma entrevista com o deputado federal pelo PSDB de Minas Gerais, o ex-governador Eduardo Azeredo, defendendo o projeto de lei 2.226/2011, de sua autoria.

Segundo o deputado, o projeto tem o objetivo de alterar alguns dispositivos da Lei 9.250/1995, que dispõe sobre o imposto de renda das pessoas físicas. Hoje esta lei tributária, no capítulo sobre a declaração de rendimentos, estabelece a base de cálculo do imposto como sendo os rendimentos anuais de uma pessoa menos determinadas gastos dedutíveis, autorizados e previstos no seu art. 8o.

Dentre as hipóteses de dedução, o art. 8o, II, “b” estabelece os  pagamentos de despesas com a educação do contribuinte e de seus dependentes até o limite anual individual de R$ 3.091,35 para o ano de 2012.

Azeredo propõe que a regra acima tenha seu limite anual alterado para três diferentes faixas. Acerca dos gastos com a educação infantil, o que equivale até o ensino fundamental, o contribuinte poderia deduzir dos rendimentos até R$3.500,00. Quanto ao ensino médio e à educação profissional, a dedução poderia chegar aos R$5.000,00. No caso de ensino superior, inclusive pós-graduação, o limite para o desconto no imposto de renda de pessoa física alcançaria o valor de R$7.000,00; em 2012. Aparentemente uma maravilha para os contribuintes.

Azeredo justifica sua proposta com o argumento de que a Constituição brasileira institui a educação como um direito de todos e um dever do Estado. Além disso, também é dever do Estado tributar, dentro do possível, as pessoas segundo sua capacidade contributiva. No rol de estratégias do poder público para individualizar os contribuintes e, ao mesmo tempo, ressarcir o particular pelo ônus com a educação que caberia a si, instituiu-se a figura da dedução dessas despesas no cálculo do imposto de renda.

Perfeito até agora o raciocínio do deputado mineiro.

Continua ele que a legislação tributária vigente é injusta ao tratar os desiguais de maneira igual, uma vez que um único valor de dedução não compensa os gastos normais com o ensino médio e superior. O valor atual seria adequado somente ao ensino fundamental. Por isso, ele propõe três faixas diferentes de limite de dedução, segundo cada caso.

Aqui, começa ele a perder a razão.

Quando a lei tributária prevê um limite único de dedução com a educação, isso significa que o Estado decidiu onerar mais aquele que pode contribuir mais, conforme determina a Constituição. Hoje, no Brasil, qual parcela da população frequenta o ensino fundamental? Em 2010, eram 90%. Quanto ao ensino médio, a taxa de frequência cai para 20% enquanto o ensino superior atende a 10% da população brasileira. Isso significa que a dedução dos gastos com o ensino fundamental beneficia 80% da população brasileira. Conclui-se, assim, que Azeredo está preocupado com os outros 20% que conseguem chegar aos ensinos médio e superior.

Ao propor o aumento dos limites de dedução no cálculo do imposto de renda relacionados aos gastos com educação não-fundamental, o deputado inverte os papéis que sustenta e passa a propor que o Estado deixe de tributar quem possui maior capacidade contributiva, que são aqueles que passam para o ensino médio e têm condições de pagar a mensalidade de uma instituição privada, pois as públicas de qualidade são privilégio de pouquíssimos.

Ao querer que aqueles que pagam suas mensalidades nas escolas e faculdades particulares possam deduzir maiores valores da base de cálculo do imposto de renda, o deputado deseja simplesmente transferir uma fonte importante de receita a ser investida pelo Estado em educação pública às instituições de ensino particulares, inviabilizando a mudança do modelo falido existente a décadas. Trata-se de uma estratégia sub-reptícia de privatização do ensino típica do PSDB. Política fascista do Azeredo, que só atende uma facção social em detrimento do todo.

Para o bem de todos e para o bom cumprimento da Constituição, aparentemente tão cara ao Azeredo, seu projeto de lei 2.226/2011 não deve vingar.

Deputado Federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG) autor do PL2.226/2011.

12 de janeiro de 2012

Lista de Furnas frita Aécio e Alckmin

Para quem, como eu, que achava que o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Júnior, lançado há pouco mais de um mês seria o máximo de sujeira que a ala conservadora da política brasileira poderia produzir, enganou-se. Vem mais coisa por aí e dessa vez é para grudar no ex-governador de Minas Gerais e atual senador, Aécio Neves. Trata-se da “Lista de Furnas”, que traria o nome de políticos que receberiam dinheiro público via Furnas. Houve quem tentasse alegar que a lista é falsa e teria sido forjada para blindar o ex-presidente Lula das acusações do “mensalão”, como é o caso da revista Veja, eterna reacionária. Entretanto, sua autenticidade foi comprovada nos autos do processo criminal 024.06.029.163-0 cuja sentença proferida em 2009 pela juíza Maria Luiza de Marilac Alvarenga Araújo fundou-se em laudo feito pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal.

Pela “Lista de Furnas”, os candidatos do PSDB ao pleito de 2002 receberam R$39.900.000,00, distribuídos entre 156 políticos através de empresas fornecedoras da estatal elétrica. O PFL, hoje DEM, é o segundo maior beneficiário do esquema com o recebimento de pouco mais de R$5.400.000,00. O interessante é que dentro do PSDB, o dinheiro não fora distribuído igualitariamente entre os políticos, o que demonstra que a igualdade não é defendida nem por si mesmos. A tríade José Serra (candidato à presidência), Geraldo Alckmin (candidato ao governo de São Paulo) e Aécio Neves (candidato ao governo de Minas Gerais) abocanharam mais da metade da quota do PSDB.

O esquema era operado pelo então presidente de Furnas, Dimas Toledo, nomeado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao se analisar a “Lista de Furnas”, percebe-se que vários políticos que dela fazem parte, se gabam de serem os batiões da moralidade pública como, por exemplo, Antônio Carlos Magalhães Neto que, embora tenha recebido R$75.000,00 de Furnas, fez um enorme alarido quando componente da CPI dos Correios.

Em dezembro de 2011, publica-se A Privataria Tucana, livro fundado em investigações jornalísticas feitas pelo Estado de Minas a pedido de Aécio, que põe fim à carreira política de Serra. Nos últimos dias, comentava-se que o paulista levaria o mineiro ao ostracismo político. O fato é que no dia 3 de janeiro de 2011, o deputado estadual de Minas Gerais pelo PMDB, Antônio Júlio, admitiu publicamente ter recebido R$150.000,00 de Dimas Toledo, no tempo em que este era presidente de Furnas. Até esta data, o único político da “Lista de Furnas” que havia confessado ter recebido dinheiro público no esquema fora Roberto Jefferson, em 2006, que também denunciara o “mensalão” um ano antes. Até recibo da operação Antônio Júlio apresentou na semana passada.

Supondo-se que tenha o dedo do Serra neste retorno à pauta da “Lista de Furnas”, as implicações disso são trágicas para o seu próprio partido. Se Serra queria acabar com o futuro político de Aécio, vai ter que levar Alckmin junto. Em poucos meses, o PSDB perdeu Serra, Aécio e Alckmin. O Fernando Henrique carrega a culpa eterna da crise econômica, conforme o artigo do Antônio Delfim Netto de ontem na Folha de S. Paulo. Qual será o nome do partido para enfrentar a presidente Dilma Rousseff daqui a dois anos?

Com a palavra, a procuradora Andrea Bayão do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, onde fica a sede de Furnas. O “mensalão” será julgado em maio. E a “privataria tucana”? E a “Lista de Furnas”?

Gráficos de distribuição do dinheiro público, "Lista de Furnas", perícia quanto a autenticidade da lista e o recibo apresentado pelo deputado estadual Antônio Júlio.

11 de janeiro de 2012

A crise econômica é a pá de cal no PSDB

A Folha de S. Paulo que é um jornal que participa ativamente, segundo Paulo Henrique Amorim, do PIG (Partido da Imprensa Golpista), publicou nesta quarta-feira, 11 de janeiro de 2012, um artigo assinado por Antônio Delfim Netto, economista que nunca poderá ser rotulado de esquerdista visto sua trajetória política a partir de 1967 quando foi ministro da Fazenda de Costa e Silva, tendo inclusive votado a favor do AI-5 no ano seguinte. Mais de 43 anos após ter incentivado o aprofundamento da ditadura militar brasileira, Delfim Netto escreve um texto que explica o que todos aqueles que têm acesso à informação imparcial já sabiam desde o fim do século XX. A crise econômica atual, que não tem como ser solucionada sem mudanças estruturais profundas no capitalismo, é decorrente das políticas neoliberais, impostas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha no início dos anos 1980 e exportadas posteriormente para o resto do mundo, aportando na América do Sul a partir dos anos 1990 com o governo de Fernando Collor de Mello.

No Brasil, da maneira como Delfim Netto agiu em face da ditadura, foi o presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe os autores do aprofundamento do neoliberalismo no país. Seu depoimento atual sepulta de vez as chances do PSDB em ser a força de oposição ao PT, como já demonstravam o desaparecimento eleitoral de Fernando Henrique com o fim de seu mandato em 2002, a desmoralização de José Serra em 2011 com a publicação d’A Privataria Tucana, o fiasco da campanha de Geraldo Alckmin em 2006, as derrotas eleitorais de Tasso Jereissati e Artur Virgílio Neto em 2010. Sem falar é claro na maior decepção de todas, Aécio Neves, que ganhou em 2011 o “prêmio” osso duro de roer pela crítica parlamentar. O mineiro já não tem mais a energia de outrora e parece que não tem tempo para tratar da vida pública. Antes da morte de Itamar Franco em 2 de julho de 2011, era deste a voz do estado no Senado. Aécio ficava sempre em segundo plano para decepção da oposição que via nele o grande nome para enfrentar o primeiro mandato da petista Dilma Rousseff. Dizem que o grande feito de Aécio no Senado foi tão somente a relatoria de um projeto de autoria de José Sarney. Muito pouco segundo os analistas. O agravamento da crise econômica motivada pelo neoliberalismo é a cereja do bolo político, mas a pedra no sapato econômico do PT.

Para Delfim Netto, a crise econômica contemporânea é resultado de “uma avalanche do pensamento único, cujo codinome de guerra é ‘neoliberalismo’, apoiado por Estados corrompidos pelo sistema financeiro internacional.” O Estado que é, no Brasil, formado politicamente por manifestação democrática, desvirtua-se de seus fins constitucionalmente estabelecidos para atender não ao povo, mas aos interesses do capital estrangeiro. O que foram os oitos anos de governo Fernando Henrique que não uma constante vassalagem à vontade dos banqueiros internacionais?

A mão invisível de Gustavo Franco, presidente do Banco Central do Brasil entre 1997 e 1999, não funcionou para tornar os mercados perfeitos e capazes de se autorregularem. Ele que, em 1997, recebeu o prêmio “economista do ano” da Ordem dos Economistas de São Paulo e, em 1998, foi considerado o “central banker of the year” pela revista Euromoney, deixou o governo federal por ser contrário à desvalorização do real. Se Fernando Henrique tivesse cedido à chantagem e ele permanecido no cargo, seria o Brasil e não a Argentina – ou ambos – que teria passado pelo “Corralito” de 2001 até hoje não absorvido completamente pelos platinos.

Delfim Netto prega uma maior participação do Estado na economia, o que sempre foi uma bandeira dos grupos de matiz esquerdista, pois mesmo que o Estado não seja onisciente, é mais apto para melhor “contabilizar” os efeitos diretos e indiretos da política de desenvolvimento industrial. O Estado é capaz de perceber melhor os resultados sócio-ambientais de uma produção econômica que “o setor privado não pode internalizar em seus preços, mas a sociedade recebe como aumento de renda”. Quem diria que um economista da Arena defenderia na Folha de S. Paulo uma certa intervenção do Estado na economia?!

5 de janeiro de 2012

Aécio declara guerra a Serra

O lançamento do livro Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Júnior, lançado oficialmente em 9 de dezembro de 2011, foi o último ato de uma guerra clandestina e suja que Aécio Neves e José Serra travavam nos bastidores do PSDB desde 2008, quando ambos disputavam a vaga de candidato do partido à vaga de Lula no Planalto. O ex-governador paulista a fim de obter provas da cocainomania do ex-governador mineiro para chantageá-lo a desistir do posto em seu favor acabou provando do próprio veneno. Aécio, que controla a imprensa mineira através da irmã, Andrea Neves – conhecida como a Goebbels das Alterosas -, colocou o principal jornal do estado, o “Estado de Minas”, atrás dos responsáveis pela espionagem nas inúmeras baladas cariocas frequentadas por ele. O jornal indicou então o próprio Amaury para investigar o caso. Sua primeira descoberta foi que havia o dedo do Serra na história. Em seguida, em 28 de fevereiro de 2009, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou editorial com o sugestionável título endereçado a Aécio: Pó pará, governador? Era a confissão de que os paulistas do PSDB já tinha coletado evidências suficientes sobre a relação de Aécio com o pó. Os mineiros do PSDB precisaram dar um passo atrás e tirar seu time de campo na disputa presidencial de 2010. Serra foi o escolhido pelo partido para enfrentar a herança de Lula. Endureceu o debate e levou a peleja para o segundo turno. Quando precisou do apoio de Minas Gerais no tête-à-tête com Dilma Rousseff, Aécio deu o troco e não moveu uma palha em favor do seu partido. O “Estado de Minas”, na mesma moeda, publicou editorial em 3 de fevereiro de 2010 intitulado Minas a reboque, não! Deu Dilma em Minas e foi ela para Brasília para receber a faixa presidencial. Enquanto isso, Amaury continuava a recolher provas do maior esquema de lavagem de dinheiro da história planetária articulado por Serra, que deu origem ao polêmico livro, publicado mês passado. Nesta semana, Aécio deu uma nova cartada. Convidou Serra para o duelo, transformando a guerrilha em guerra aberta. Ele deu carta branca para que a rádio “Itatiaia”, a mais popular de Minas Gerais, entrevistasse Amaury durante uma hora por Eduardo Costa – o âncora mais acompanhado do veículo. Agora não tem mais volta. Serra está fragilizado desde a segunda derrota na disputa presidencial contra o PT. 2011 foi um ano difícil para ele, não conquistando nem a presidência do Instituto Teotônio Vilela. Acontece que Serra não se abate facilmente e deve ter coletado muita munição nos anos de bonança. Agora é verificar se ele tem caracu para chutar o pau da barraca de vez, o que seria sensacional para o PT, que pode ter Dilma reeleita, em 2014; além de ver Lula, em 2018, com 73 anos, buscando a presidência.

Aécio chamou para o duelo. Com a palavra, Serra.

Serra, em 2014, terá 72. Na minha opinião não tem mais volta. Serra está perdido e deve querer levar Aécio junto.