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10 de março de 2012

A Grécia será por muito tempo a terra de ruínas

A Grécia conseguiu convencer seus credores privados a aceitar uma perda de 53,5% do valor das dívidas. Isso significa que desapareceram nos últimos dias cerca de €107 bilhões, o que foi considerado pela Folha de S. Paulo simplesmente o “maior calote da história”. Aparentemente os bancos perderam e a Grécia junto com a Europa se salvaram. Na realidade, é justamente o contrário. Mais uma vez os bancos se salvaram em detrimento do resto da população.

Os credores privados de Grécia trocaram títulos que não possuíam mais qualquer valor por títulos mais seguros. Com essa troca de papéis podres por outros mais saudáveis, eles receberam à vista 15% dos antigos créditos. Faltam então os últimos 31,5%, que são protegidos pela lei britânica para que a Grécia não queira mudar as regras do jogo num futuro próximo. Vale lembrar que o país passará por eleições no mês que vem. Isso significa que os gregos não mais são soberanos sobre suas finanças, tornando-se a primeira colônia da União Européia (UE). Uma importante função do Estado foi transferida a uma instituição internacional.

Além disso, os credores públicos, isto é, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujos recursos são obtidos dos cofres dos Estados membros, se comprometeram junto aos credores particulares a amenizar as perdas atuais e futuras com o repasse de recursos públicos através dos seguros de crédito contra falência, conhecidos como credit default swaps. O dinheiro de pessoas que diariamente pagam seus tributos em vista da melhoria da infra-estrutura social será utilizado para cobrir o rombo de outras pessoas que irresponsavelmente brincam com a economia internacional.

Se tudo continuar neste caminho, o BCE repassará agora à Grécia cerca de €130 bilhões, conforme o segundo plano europeu de salvamento da economia grega. Entretanto, este montante é vinculado, isto é, possui destinação previamente determinada pela UE. A maior parte do dinheiro sairá de Frankfurt, sede do banco, diretamente para o bolso dos credores privados. Cerca de €35 bilhões serão utilizados para o pagamento à vista dos 15% dos créditos. €35 bilhões devem ser usados para a reaquisição pela Grécia de parte da dívida. Outros €25 bilhões são destinados à recapitalização do setor bancário grego, que não podem ser nacionalizados de forma alguma pela Grécia; diferentemente do que fizeram os Estados Unidos com seus bancos quebrados em 2008.

Para investimento, sobram mais ou menos €35 bilhões, embora o dinheiro seja depositado em conta externa bloqueada, devendo ser disponibilizado apenas se as fases anteriores derem o resultado esperado. Há chance, assim, de que o resto da verba também seja utilizado futuramente para apagar algum incêndio financeiro.

Não podemos esquecer também que o dinheiro do BCE e do FMI não são doações, mas empréstimos. Logo, a Grécia, mais cedo ou mais tarde, terá que pagar também essas novas dívidas. Na verdade, o BCE e o FMI compraram a dívida do setor privado, permanecendo Atenas tão endividada quanto antes. Trata-se apenas da estatização de dívidas particulares.

Se tudo continuar neste caminho, a dívida grega será reduzida em 2% do Produto Interno Bruto (PIB), isto é, sairá dos 161% para os 159%. O FMI, muito entusiasmado, declarou que daqui a oito anos, em 2020, a relação dívida com o PIB na Grécia, alcançará o valor de 120%, o que corresponde ao valor que existia em 2009, quando começou a crise. A Grécia viverá em vão 11 anos… Se tudo der certo.

Como poderá dar certo, entretanto, se a soberania nacional da Grécia já não existe, o salário mínimo reduziu-se em 22%, as aposentadorias são 30% menores, o desemprego está acima de 20%, um programa de privatização é seriamente discutido, reformas da saúde e do trabalho devem acontecer? Como poderá dar certo, se, fora as medidas já tomadas, o país ainda se comprometeu a reduzir os gastos anuais na ordem de três bilhões de euros?

A Grécia será por muito tempo a terra de ruínas.

16 de fevereiro de 2012

Cavalo de Troia

Quase dois anos após o início do tratamento de choque imposto à Grécia pelo Banco Central Europeu (BCE), pela Comissão Europeia (CE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), os resultados são catastróficos. Hoje nem mais os criadores das medidas de austeridade acreditam mais no seu sucesso. Presume-se que a Grécia só conseguirá recuperar o fôlego dos tempos de vacas gordas daqui a 50 anos.

A dívida grega, que é o cerne de todo o problema que fazem face os agentes financeiros internacionais para evitar uma bancarrota generalizada, se tudo der certo, estará daqui a nove ano, em 2020, na casa dos 120% do PIB grego, o que representa a mesma taxa que existia em 2009, no início da peleja. Todo o sacrifício exigido dos gregos e dos europeus desde a crise de 2008 foi para nada! Só esse dado bastaria para que se interrompesse a adoção do choque de gestão internacional nas contas gregas. Os seis primeiros acordos internacionais de fixação de medidas de austeridade foram totalmente ineficazes. No domingo, 12 de fevereiro de 2012, obteve-se em Atenas o sétimo memorando de ajuste financeiro. Portugal, Espanha, Irlanda e Itália também tentam seguir a mesma linha. O resultado será inevitavelmente a mesma catástrofe.

Na Grécia, as políticas dos sete memorandos já cortaram a metade dos valores dos salários e das aposentadorias. Em certos casos, as perdas chegam a 70%! A taxa de desemprego chegou a casa do 20%, entre os jovens ela é de 45%, sendo o desemprego feminino jovem correspondente a 50%! As gregas estão sendo obrigada a voltar ao trabalho exclusivamente doméstico.

Os serviços públicos estão liquidados ou privatizados. Dessa forma o numero de leitos nos hospitais diminuem e hoje há 60% do que existia antes de 2009. Com menos oferta de serviços médicos, os preços de internação se inflacionam e poucos são aqueles que conseguem pagar por serviço de saúde. Não há mais distribuição de medicamentos gratuitos. Os subsídios aos deficientes físicos foram sumariamente cortados. As taxas de suicídio aumentar substancialmente nos últimos anos.

O governo grego ainda não foi capaz de entregar aos estudantes o material escolar para o ano letivo que começou em setembro de 2011. Os alunos assistem às aulas no inverno sem o sistema de aquecimento. Inexiste investimento em educação.

O governo grego não eleito, pois foi imposto pelos credores internacionais como aconteceu também na Itália, decidiu adotar medidas ainda mais duras contra a população mais desfavorecida materialmente ao suprimir as convenções coletivas de trabalho, aumentar a desregulamentação do direito trabalhista, reduzir em 22% o salário-mínimo, congelar o salário-mínimo por três anos (até 2015), reduzir em 15% as aposentadorias, demitir 15.000 funcionários públicos agora e mais 150.000 até 2015. A Alemanha, principal economia da zona do euro, pressiona a Grécia para que adote um sistema financeiro paralelo que seria gerido por uma comissão internacional em vista do pagamento dos credores internacionais. Querem que a Grécia abra mão se sua soberania e se torne consequentemente uma colônia.

A Comissão do Direito Internacional das Nações Unidas ao tratar do estado de necessidade afirmou que não se pode exigir que um Estado deixe de prestar os serviços públicos fundamentais (saúde, educação, aposentadoria, justiça), deixando sua população em estado de anarquia para dispor de dinheiro público a ser entregue a credores internacionais. Há limites para a cobrança de dívida de Estados.

Não há como imaginar que as medidas imposta à Grécia possam garantir a sobrevivência do sistema. Os credores já abriram mão de uma parte da dívida, mas querem receber algo. Para isso, a Grécia necessita de dinheiro do BCE, o que causa descontentamento entre os países que também se veem diante da crise, mas ainda possuem maior espaço de manipulação. O fato é que o tempo passa e até para as economias mais sólidas os prazos se vencem. A ideia de que a Grécia deveria deixar a União Europeia cresce dia a dia. Muitos não fazem mais questão de ter os gregos por perto. Um ato egoísta depois de muito aproveitarem do mercado grego para as exportações na bonança.

A Grécia está perdida. Se for abandonada pela Europa, terá que se reconstruir do zero. Se não for abandonada, terá que se tornar uma colônia. O ressentimento grego com o egoísmo europeu existe. O ressentimento europeu com a irresponsabilidade grega existe. Mistura explosiva de ressentimentos que na Europa sempre descamba para a violência interna e depois internacional. Haverá guerra ainda?   Tomara que não!