Posts tagged ‘josé serra’

12 de setembro de 2012

Carta aberta a FHC

Por Theotonio dos Santos*

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960.

A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete contudo este debate teórico. Esta carta assinada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação.Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população.

Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000). Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartilhar com você… Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação.

Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos.

TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”.

ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese? Conclusões: O plano Real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito – Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.

E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. Um governo que chegou a pagar 50% ao ano de juros por seus títulos para, em seguida, depositar os investimentos vindos do exterior em moeda forte a juros nominais de 3 a 4%, não pode fugir do fato de que criou uma dívida colossal só para atrair capitais do exterior para cobrir os déficits comerciais colossais gerados por uma moeda sobrevalorizada que impedia a exportação, agravada ainda mais pelos juros absurdos que pagava para cobrir o déficit que gerava.

Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou drasticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. Vergonha, Fernando. Muita vergonha. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identificar com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição os 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID.

Tudo isto sem nenhuma garantia. Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em consequência deste fracasso colossal de sua política macroeconômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações.

A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este país.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entrou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional.

Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o verdadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista.

E dessa política vocês estão fora. Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a frequentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível, mas com amor à verdade, me despeço.

*Theotonio dos Santos é economista, cientista político e um dos formuladores da Teoria da Dependência. Texto originalmente publicado em Pragmatismo Politico.

24 de julho de 2012

PSDB tenta barrar sites críticos a Serra

Por Redação Rede Brasil Atual

O PSDB entregou hoje (23) à Procuradoria Geral Eleitoral uma representação pedindo a investigação de blogues e páginas da internet que considera críticos a seu candidato à prefeitura de São Paulo, José Serra. O partido acredita ser necessário apurar “a utilização de organizações, blogs e sites financiados com dinheiro público, oriundo de órgãos da administração direta e de estatais, como verdadeiras centrais de coação e difamação de instituições democráticas”.

A ação vem na sequência de novas críticas de Serra, que na última semana acusou de haver “jogo sujo” pela internet e retomou a expressão “blogues sujos”, com a qual atacou veículos de comunicação críticos ao governo do estado na campanha de 2010, quando foi derrotado por Dilma Rousseff na disputa pela Presidência da República. 

Agora, em oito páginas, o PSDB tenta forçar a Procuradoria Eleitoral a investigar os repasses de publicidade feitos por órgãos do governo federal a veículos de comunicação, também repetindo estratégia levada a cabo em 2010, quando a vice-procuradora eleitoral Sandra Cureau exigiu da revista Carta Capital uma apresentação do balanço de verbas do tipo. 

Na ocasião, o diretor de redação da publicação, Mino Carta, escreveu o editorial “Cureau, a censora”, no qual expôs sua insatisfação com o caso. “Sugiro à doutora Sandra que, de mão na massa, verifique também se a revista IstoÉ recebeu lauta compensação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema quando o acima assinado em companhia do repórter Bernardo Lerer, escreveu uma reveladora, ouso dizer, reportagem sobre Luiz Inácio da Silva, melhor conhecido como Lula, publicada em fevereiro de 1978”, lamentou.

A ação do PSDB é formada com base em recortes de jornais e revistas da mídia tradicional – Veja, O Globo e Folha de S. Paulo –, também uma prática comum em 2010. O partido sai em defesa do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, e reproduz reportagem na qual o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu pede apoio social no julgamento da Ação Penal 470, do caso conhecido como mensalão. 

Para o partido, a crítica feita por blogueiros a estes veículos de comunicação e a defesa de posturas consideradas favoráveis ao governo federal são sinais de que é necessário promover uma investigação. O PSDB parte do pressuposto de que o dinheiro destinado a publicidade federal, recebido também por veículos pelos quais o partido tem apreço, são “patrocínio” e, portanto, estão proibidos pela legislação eleitoral. 

Desta vez, Serra poderia encontrar nos blogues e páginas de internet uma dificuldade adicional à medida em que sejam divulgadas novas informações sobre a participação de parentes e sócios no esquema de desvio de verbas e de lavagem de dinheiro vindo da privatização de órgãos públicos durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), do qual ele foi ministro. 

A ação acusa especificamente os blogues Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, e o Dinheiro Vivo, de Luis Nassif. “O financiamento público de organizações, blogs e sites cuja especialidade tem se mostrado na coação e difamação de instituições democráticas configura ato de improbidade administrativa que tenta contra os princípios da administração pública da honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade às instituições!”, argumenta. 

Em seu blogue, Paulo Henrique Amorim atribuiu a medida tomada pelo PSDB ao desespero de Serra, que encontra dificuldades para alavancar sua candidatura à prefeitura de São Paulo. Apesar de liderar as pesquisas publicadas até agora, o tucano não tem conseguido avanços, é conhecido pela maior parte do público e sua taxa de rejeição sempre esteve acima de 30%. “Não adianta. Cerra se encaminha para o fim da linha”, ironiza. 

Já Nassif vê na iniciativa uma tentativa de Serra de “calar qualquer voz crítica em relação a ele, como usualmente faz com jornalistas da própria velha mídia”. Conforme escreveu em seu blogue, o tucano “é a mais perfeita vocação de ditador que a política brasileira moderna conheceu”.

Tags:
7 de março de 2012

Patrus para prefeito de BH

José Serra anunciou sua candidatura à prefeitura de São Paulo/SP pelo PSDB como um desafio eleitoral de âmbito nacional. Exageros à parte como é próprio de Serra, famoso por sua arrogância e seu orgulho, há certa verdade quando diz que o resultado da eleição municipal na capital paulista pode influenciar a disputa presidencial em 2014, quando a presidente Dilma Rousseff do PT poderá concorrer à reeleição. Isso se deve ao fato de que São Paulo é a principal cidade do Brasil em termos econômicos. Lá vivem mais de onze milhões de habitantes, o que equivale que neste município se encontram cerca de 6% dos brasileiros. Se se levar em conta a população da Grande São Paulo, esse índice sobe para pouco mais de 10% da população nacional. Em termos eleitorais, só a cidade de São Paulo corresponde a mais de sete milhões de pessoas aptas a votar. Não se pode desprezar a força eleitoral dos paulistanos em termos nacionais.

Fora a questão quantitativa, São Paulo, como todas as demais capitais estaduais, possui uma influência política muito forte nos municípios do interior. O estado de São Paulo, como seus mais de 40 milhões de habitantes, é democraticamente o suporte eleitoral do governo federal. Em vista desta conjuntura, ser prefeito da capital paulista pode, sim, moldar politicamente o estado, ainda mais levando-se em conta a homogeneidade socioeconômica dos municípios do estado.

José Serra, apesar dos crimes de lesa-pátria cometidos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso no esquema da privataria tucana, possui uma grande aceitação entre os paulistanos mais conservadores. As primeiras pesquisas dão conta de que Serra, após a divulgação da intenção de se candidatar à prefeitura de São Paulo, assumiu a ponta com 30% das intenções de voto. Já o candidato do PT, o também ex-ministro Fernando Haddad se encontra com 3%. Claro é que a campanha ainda não se iniciou e muita coisa pode acontecer. Inevitavelmente o tema da privataria tucana virá à tona e o candidato Serra não poderá ignorá-lo como insistentemente tem feito. O ex-presidente Lula, extremamente popular e quem bancou a candidatura de Haddad, entrará forte na campanha, ainda mais curado do câncer da laringe, como tem informado a imprensa. Com o Lula como cabo eleitoral, qualquer pessoa pode se eleger, haja vista o que aconteceu com a Dilma em 2010.

Entretanto, o PSDB é muito forte em São Paulo e, mesmo com Lula, o PT corre sério risco de não levar a parada. Por isso, as forças políticas populares que desejam continuar no poder federal a partir de 1o. de janeiro de 2015 não podem cruzar os braços e assistir à disputa eleitoral paulistana, como se apenas ali estivesse sendo travada a disputa pelo futuro nacional. É aqui que entra Belo Horizonte/MG.

Minas Gerais é o segundo colégio eleitoral do Brasil. É aqui que o Norte pobre e o Sul rico se encontram e são obrigados a conviver. É o mediterrâneo brasileiro. O estado é o fiel da balança e, para onde pender, aí caminhará a nação. Daí advém a importância da prefeitura de Belo Horizonte. Diferentemente do que acontece em São Paulo, Belo Horizonte sempre foi marcada por administrações de viés mais esquerdista. Desde 1993 até 2008, a capital mineira foi administrada por Patrus Ananias do PT, por Célio de Castro do PSB e por Fernando Pimentel do PT. Depois de 16 anos no comando do principal município do estado, na iminência de mais um mandato do PT, o PSDB mineiro comandado pelo então governador Aécio Neves resolveu adotar uma estratégia de rompimento do domínio petista em Belo Horizonte.

Quando da definição dos candidatos a prefeito no pleito de 2008, Aécio se aproximou do então prefeito, Pimentel, que não poderia concorrer a um terceiro mandato, propondo-lhe um acordo em que o PT e o PSDB apoiariam um candidato único à prefeitura naquele ano, que não fosse de nenhuma das duas legendas. Em troca, Aécio apoiaria Pimentel ao governo de Minas em 2010, quando tivesse que deixar o Palácio da Liberdade.

Apesar dos protestos de correntes independentistas, o PT mineiro acabou formalizando o acordo que propiciou a eleição de Márcio Lacerda do PSB, atual prefeito de Belo Horizonte. Dois anos depois, Aécio trairia Fernando Pimentel ao apoiar seu secretário Antonio Anastasia, candidato do PSDB, ao governo estadual. O PT mineiro, que contava com a candidatura “única” de Pimentel, foi pego de surpresa e não conseguiu reagir a tempo, deixando de apresentar candidato próprio e, o pior, indicando Patrus como vice na chapa de Hélio Costa do PMDB. Depois do desastre de Nilmário Miranda em 2006, quando o PT nacional, em vista do apoio do PMDB à reeleição de Lula, exigiu que os petistas mineiros apoiassem Newton Cardoso ao senado; em 2010, foi a vez de Patrus ser o mártir do apoio do PMDB à Dilma com a composição da chapa de Hélio Costa. No final da história, quem ganhou foi o PSDB de Aécio que elegeu Anastasia ao governo e tirou o PT da prefeitura de Belo Horizonte.

Em 2012, ano de eleição municipal. O prefeito Lacerda deseja se reeleger. Qual será o papel do PT mineiro? Há informação de que Pimentel, ministro de Dilma, apóia a reeleição de Lacerda em prol da coerência. Outros dizem que se Lacerda for apoiado pelo PT, isso fortaleceria ainda mais o PSDB mineiro em detrimento do PSDB paulista – o grande rival do PT nacional – e as chances de Serra não ser o candidato a presidente em 2014 aumentam. Mas o problema é que entregando mais uma vez de bandeja uma vitória eleitoral a Aécio, o PT poderá comprometer a reeleição de Dilma, pois Minas Gerais, como fiel da balança, penderia para o Sul.

De acordo com esse raciocínio, a melhor alternativa ao PT mineiro é lançar o Patrus como candidato a prefeito dos belo-horizontinos e criar um contrapeso político na capital do segundo maior colégio eleitoral a uma eventual vitória de Serra na capital do primeiro. Patrus tem bagagem política similar a de Serra. Combateu a ditadura militar, era membro da esquerda católica, advogado e professor de Direito, foi reconhecidamente um bom prefeito de Belo Horizonte entre 1992 e 1996, liderou o ministério de combate a miséria de Lula. Não há candidato do PSDB capaz de bater Patrus em Belo Horizonte. Sua vitória é certa. O PT assim colocaria um excelente beque para marcar homem-a-homem o principal atacante do PSDB. Fora o fato de Dilma garantir um palanque exclusivo no coração das Alterosas.

29 de fevereiro de 2012

FHC e Aécio nas mãos de Serra

Realmente esse mundo político é imprevisível e incoerente. Em início de dezembro de 2011, a carreira política de José Serra parecia definitivamente encerrada com a publicação do livro A Privataria Tucana em que são enfim divulgados detalhes dos crimes cometidos pelo alto escalão do PSDB no processo de privatização de empresas estatais, ocorrido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. As informações apresentadas pelo autor não só inviabilizam qualquer eleição de Serra, então ministro, a qualquer cargo público, como é mais que suficiente para a apresentação de denúncia pelo Ministério Público em vista de sua responsabilização penal. É questão de tempo a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dedicada à análise do esquema de lavagem de dinheiro e propina nas privatizações financiadas com dinheiro público via BNDES.

Diante do fato incontestável, restou a Serra dizer que o livro era um lixo. As demais lideranças do partido não opinaram a respeito, mas Fernando Henrique, cuja reputação não há como piorar, chegou a confidenciar em fins de janeiro de 2012 que “a minha cota de Serra deu. Ele foi duas vezes meu ministro, duas vezes candidato a presidente, candidato a governador e a prefeito. Chega, não tenho mais paciência com ele”. Fernando Henrique, fundado no seu currículo político inatingível por Serra, transformava-se em menino de recados das lideranças do partido. O PSDB informava a Serra que sua história de candidatura havia chegado ao fim, não só no que dizia respeito à presidência mas também a cargos inferiores como o de governador e… prefeito.

Satisfeito ficou Aécio Neves, concorrente eterno de Serra, que pôde vislumbrar pela primeira vez o caminho tranquilo à candidatura à presidência da República pelo PSDB. Fernando Henrique, o menino de recados do PSDB, em entrevista a The Economist afirmou que o ex-governador de Minas Gerais era o candidato “óbvio” do seu partido para enfrentar a presidente Dilma Rousseff. Serra, incomunicável depois da publicação do livro de Amaury Ribeiro Jr., entendia muito bem o segundo recado do PSDB. O partido não contava mais com ele para ser candidato a nada. Além disso, soube que a escolha para as eleições de 2014 havia sido feita. Seu arqui-inimigo mineiro teria sua chance de disputar a presidência da República.

 

Aécio, relaxado, parou de se preocupar com a constante presença de Serra. Este era carta fora do baralho. Agora era só comemorar. Foi considerado a decepção parlamentar de 2011. Em 2012, faz tudo, menos trabalhar no Congresso Nacional. O senador está por todo o Brasil, salvo em Brasília onde deveria exercer o mandato concedido pelo povo mineiro. Há quem diga que é assim mesmo; que ele está na verdade em campanha presidencial com dois anos de antecedência. Mesmo assim não se justifica a sua omissão parlamentar. Ele poderia tentar se destacar naquela função para a qual foi eleito em 2010. Mas parece que o político só pensa mesmo em festa e curtição. A última notícia dá conta de que ele foi visto fazendo mergulho em Fernando de Noronha ao lado de Fafá de Belém. É Globeleza, meu povo!

O fato novo é que parece que Aécio se esqueceu que as informações d’A Privataria Tucana só foram obtidas depois que ele pediu ao jornal Estado de Minas que descobrisse quem era o responsável pela espionagem que ele sofria quando da definição do candidato do PSDB à sucessão de Lula no Planalto. Amaury Ribeiro Jr. soube que eram serristas os espiões que acompanham Aécio pelas baladas cariocas. Foi assim que o jornalista mineiro passou a investigar Serra e descobriu a podridão do esquema criminoso das privatizações do governo de Fernando Henrique.

Mas onde está o dossiê contra Aécio, feito em 2009? Onde está o dossiê contra Fernando Henrique, feito durante o seu governo?

É só perguntar para o atual candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo/SP e quem volta “à cena política com força”, podendo inclusive disputar a presidência no futuro… Quem seria esse político?

 

30 de janeiro de 2012

Nem FHC tem paciência com Serra

Depois que o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr. foi lançado, há menos de dois meses, batendo recordes de venda – eu mesmo tenho o meu exemplar da primeira edição (uma relíquia!) -, mesmo com a grande imprensa insistindo em ignorar o fato, a internet disseminava como uma peste das mais contagiosas a informação mais do que documentada da ocorrência do maior esquema de lavagem de dinheiro da história da humanidade, posto em prática pelo PSDB do então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu fiel escudeiro e ministro José Serra, quando do processo de privatização do patrimônio nacional levado a cabo naqueles sombrios anos de neoliberalismo.

Por mais que o pessoal da patota do Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi & Cia. Ltda. se fingisse de cego – são especialistas na arte da dissimulação -, achando preconceituosamente que o povo brasileiro é composto em sua maioria por uma ralé idiota a esperar na frente da telinha a versão oficial dos acontecimentos transmitida pela voz aveludada de William Bonner, os detalhes sobre os crimes cometidos pela quadrilha montada por Serra eram reproduzidos numa escala jamais vista por uma oligarquia tradicionalmente acostumada a manipular a informação ao seu bel prazer. Antigamente era assim mesmo, infelizmente. A imprensa oligárquica, composta por meia dúzia de veículos de informação, acertava entre si a versão a ser publicada. O que não saía nas suas pautas, não existia politicamente. Ainda bem que a internet nasceu e se popularizou para acabar com essa brincadeira de mau gosto. Como bem escreveu uma vez Luís Nassif, se ditadores árabes dos mais facínoras são derrubados pelo povo organizado através das redes sociais, o que pensar dessa oligarquia brasileira, composta por gente apática, medrosa e covarde. A internet é o maior trunfo democrático mundial! Só no Brasil são 80.000.000 de pessoas conectadas. Uma revolução!

Acreditando, entretanto, que o mundo não havia mudado, o que demonstra de novo a absurda alienação de nossa elite escravocrata, Serra fingiu-se de morto desde a primeira semana de dezembro quando as denúncias contra ele recém saíam das gráficas. Rezava ele para que o tempo passasse, as denúncias comprovadas de Amaury Ribeiro Jr. não circulassem e que ele pudesse o quanto antes retomar sua carreira política, pois como ele já dissera uma vez à revista Veja: “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”. Se como ministro fez o que fez no esquema de lavagem de dinheiro das privatizações, imaginem o que o Serra não faria enquanto chefe de Estado? Estressado como nunca se viu, Serra sentiu que, como o Pinheirinho o será para o governado de São Paulo, Geraldo Alckmin; a Privataria Tucana nunca mais desgrudará de sua pele. Uma chaga vergonhosa que repugnará qualquer cidadão de bem pelos anos a fio. Por isso, como eu já comentara, há algumas semanas, nas redes sociais, antes da fundação d’A rês pública, que o livro A Privataria Tucana sepultara de uma vez por todas a cansativa carreira política de Serra. Na minha humilde opinião, hoje, ele não ganha eleição nem para síndico de seu condomínio de altíssimo luxo, embora há quem diga por estas paragens que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… De toda forma, o jogo acabou para o ex-ministro, pois, como afirmou há pouco o próprio Fernando Henrique, responsável pela nomeação de Serra como ministro da privataria e, por isso mesmo, tão ou mais responsável pelos crimes de lesa-pátria cometidos no seu governo: “Chega. Não tenho mais paciência com ele [Serra]”. Eu também não, e não é de hoje!

Com Alckmin tendo que digerir a seco o Pinheirinho, que inevitavelmente acompanhá-lo-á  como uma eterna morrinha, Fernando Henrique, o Farol de Alexandra, do alto de sua inquestionável sapiência,  já escolheu o candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2014. Por incrível que pareça, trata-se do ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a decepção do Senado em 2011*, que encabeça a Lista de Furnas, que a seu tempo virá à tona, e contra quem os espiões de Serra têm muitas evidencias acerca de sua questionável postura nas incontáveis baladas cariocas. Há quem diga por aqui, inclusive, que Aécio seria o quarto senador do Rio de Janeiro, votando muitas vezes contra os interesses dos mineiros, mas isso é assunto para outro artigo…

*Para a decepção do Senado com Aécio Neves, leia http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2012/01/09/2014-decepcao-com-aecio-desnorteia-oposicao/.