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8 de fevereiro de 2012

Copa de 1978: um golaço da ditadura militar

Na Copa do Mundo de 1978, sediada pela Argentina, ocorrida no tempo em que 24* equipes participavam do torneio, a seleção brasileira de futebol havia vencido a Polônia às 16h45 de 21 de junho, no estádio Malvinas Argentinas de Mendoza. O Brasil, com a vitória, atingia a pontuação máxima do grupo. A vaga na quinta final em 48 anos e a chance do tetracampeonato dependiam apenas de um detalhe: o saldo de gols da Argentina que, se vencesse o Peru, atingiria a mesma pontuação do Brasil.

Por ter feito uma melhor campanha, o Brasil possuía um saldo de gols que obrigava a Argentina a vencer, às 19h15 do mesmo 21 de junho, o Peru por uma diferença de quatro gols, algo não muito fácil de conseguir em jogos profissionais. As chances brasileiras eram enormes.

Dois anos antes, em 24 de março de 1976, o governo de Isabelita Perón sofreu um golpe de Estado organizado pelas forças armadas argentinas, instaurando uma ditadura militar presidida pelo comandante do Exército, Jorge Rafael Videla.

Antes mesmo da deposição de Perón da presidência da Argentina pelo militares, houve em Santiago do Chile no dia 25 de novembro de 1975 uma reunião presidida por Manuel Contreras, chefe da polícia secreta chilena –  Dirección de Inteligencia Nacional ou DINA – com representantes dos serviços de inteligência militar de outros países sul-americanos, dentre os quais a Argentina peronista.

O objetivo da reunião foi traçar diretrizes comuns e acordos de cooperação entre os serviços de inteligência militar com o objetivo de eliminar do continente a subversão marxista do continente. O resultado dessa reunião foi batizado de “Operação Condor”, uma ideia levantada em 3 de setembro de 1973 pelo general brasileiro Breno Borges Fortes para o aumento da integração dos serviços em favor da luta contra a subversão, em consonância com os princípios ditados em 1968 pelo general Robert W. Porter em nome do Exército dos Estados Unidos.

Naquela ocasião em que os exércitos americanos se encontravam na 10a. Conferência de Caracas, Venezuela; o Brasil já vivia seu nono ano sob o regime autoritário dos militares. Nosso país era veterano no ramo da perseguição política e não é de se admirar que fosse o mais experiente a propor projetos mais ousados.

O inventor da Operação Condor foi o Exército brasileiro. Quem o fundou foi um consórcio formado por Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

Poucos meses antes da reunião de fundação da Operação Condor, o comandante geral do exército peruano, Francisco Morais Bermúdez, liderava um golpe de Estado contra o então presidente Juan Velasco Alvarado, assumindo em 30 de agosto de 1975 o poder ditatorial daqueles país.  O diretor da divisão do hemisfério ocidental do serviço de inteligência estadunidense, a CIA (Central Intelligence Agency) na época, Ted Shackley, deu todo o apoio para a consolidação do golpe de Estado no Peru, assim como haviam procedido no Chile, dois anos antes, quando Augusto Pinochet tomou o poder à força das mãos de Salvador Allende.

Em 1978, ano de Copa do Mundo na Argentina, o senador peruano, Genaro Ledesma Izquieta, foi sequestrado pela polícia política do regime ditatorial de Bermúdez para ser enviado clandestinamente à Argentina pelo governo local, que os queria bem longe do Peru e sob a vigilância da duríssima estrutura repressiva argentina, conforme previam os acordos da Operação Condor. Muitas vezes, essas transferências internacionais de prisioneiros políticos eram, na verdade, meros voos da morte em que os perseguidos decolavam, mas não aterrissavam.

Em 25 de maio de 1978, a um mês do jogo da Argentina contra o Peru pela semifinal da Copa do Mundo, a remessa peruana de presos políticos desembarcava no campo de concentração de Jujuy para sessões de tortura.

Pouco tempo antes do jogo entre Argentina e Peru, em que a seleção local necessitava de vencer por mais de quatro gols de diferença para chegar à final no lugar do Brasil, Videla entrou em contato com Bermúdez para, dentro do espírito de camaradagem próprio da cooperação da Operação Condor, pedir um favor ao parceiro. Ele queria que o Peru perdesse por mais de quatro gols para que  seu país, anfitrião da Copa, pudesse ir à final ao invés do grande rival sul-americano, o Brasil.

Às 21h00 de 21 de junho de 1978, o placar do estádio Gigante de Arroyito de Rosário marcava: Argentina 6 x 0 Peru.

A Copa do Mundo presta homenagem ao ditador Videla.

*Hoje são 32 seleções que disputam uma edição de Copa do Mundo.

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