Por um amor que dure

Por Carolina P. Fedatto

O amor é algo que desperta a atenção das pessoas. Amamos histórias de amor, amamos amar, como dizia Santo Agostinho. E amamos que os outros amem. Mas por que o amor tem essa força, esse alcance, tão universal? Por que o amor nos atrai dessa forma?

Alain Badiou, no seu “O elogio do amor”, diz basicamente que há três concepções dominantes sobre o amor:

1) A primeira é a visão romântica, baseada, sobretudo, no êxtase do encontro, em que o outro é idealizado como aquele que nos completa e vai nos fazer feliz para sempre. É a visão dos contos de fada e das grandes histórias de amor da literatura, como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. E embora ela tenha uma beleza artística extraordinária, essa ideia fusional do amor, essa ideia de que duas vidas se transformam em uma, dá importância demais para o momento do encontro e reduz o amor à magia do começo da relação. Mas o amor não acaba no encontro, muito pelo contrário, ele começa aí, é uma construção.

2) A segunda concepção bastante comum do amor é aquela que enxerga a relação amorosa como uma troca de vantagens recíprocas. Nós ficamos juntos enquanto nos fizermos bem. E para garantir o sucesso da relação, as pessoas selecionam seu par de acordo com características pré-definidas, tentando afastar qualquer risco. Em nome da segurança, evita-se todo acaso, todo encontro inesperado e, finalmente, toda beleza das histórias de amor.

3) Diante dessas duas ideias totalmente frustradas das relações amorosas, surge uma terceira concepção que nos leva a desconfiar do amor para nos protegermos das suas armadilhas. Segundo os pessimistas, o amor não seria mais do que uma ilusão. Mas quem já amou de verdade, sabe que ele não é um simples artifício da natureza para que se cumpra a reprodução da espécie, nem uma artimanha da sociedade para que se garanta a hereditariedade dos privilégios.

O amor, segundo a filosofia de Badiou, é uma construção de verdade. Mas verdade sobre o quê? O que é o mundo se experimentado a partir do ‘dois’ e não do ‘um’? O que é o mundo vivido a partir da diferença e não da identidade? Isso é o amor! Experimentar o mundo a partir da diferença. Incluindo o desejo sexual e suas provas, incluindo o nascimento de uma criança, mas incluindo igualmente mil outras coisas, na verdade, qualquer coisa, desde que se viva sob o ponto de vista do ‘dois’ e não do ‘um’. O amor é uma posição existencial, é a construção de um mundo descentrado em relação à minha simples vontade. O amor inventa uma forma diferente de durar na vida. E, mais do isso, ele é o desejo de uma duração desconhecida, imprevisível. Não sabemos como será o amanhã, não temos garantias, mas o amor nos faz querer reinventar a vida todos os dias.

Badiou fala também que o fato de dizer o amor é fundamental. Porque o início do amor é absolutamente acidental: encontramos alguém que até então não conhecíamos e nos apaixonamos. Mas para que o amor exista, esse acaso deve ser fixado. E dizer ‘eu te amo’ é um passo fundamental. É assim que o acaso é fixado: a absoluta eventualidade do encontro acaba tomando as feições de um destino, como se só pudesse ter sido assim. E é por isso que a declaração de amor é tão perigosa, tão apavorante, porque ela é a passagem do acaso ao destino. Mas a declaração de amor não é algo pontual, ela é longa, confusa, difusa, complicada, declarada e redeclarada e destinada a ser sempre redita. Dizer eu te amo, com essas ou outras palavras, é justamente dizer que isso que poderia ter sido um simples acaso, é, para mim, um engajamento, uma duração, uma obstinação, uma fidelidade. E fidelidade, no sentido filosófico dado por Badiou, é a passagem do encontro ocasional a uma construção tão sólida como se ela fosse necessária.

É por isso que estamos aqui: para dizer um ao outro que depois de nos encontrarmos queremos continuar experimentando a vida pelo ponto de vista da diferença. E se esse nosso gesto é uma promessa de eternidade, nós pensamos a eternidade de uma forma menos milagrosa e mais laboriosa. Há um trabalho do amor, não apenas um milagre. É preciso estar a postos, ter cuidado, se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então sim, como recompensa do trabalho, ter felicidade.

E eu não como saberia terminar essa fala de uma forma diferente do modo como Badiou terminou seu elogio ao amor:

Comédia? Tragédia? Os dois. Amar é estar preso, além de toda solidão e com tudo o que o mundo oferece para animar nossa existência. Amar é ver no mundo a fonte da nossa alegria, da sua primeiro.

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