Um presente para o patrão

Na última semana recebemos a visita do compadre Gustavo Alonso, historiador do Rio de Janeiro (recuso-me a tratá-lo de fluminense, embora o seja), que esteve nas Alterosas para, além de resolver assuntos de sua alçada que serão inevitavelmente disponibilizados ao público em pouco tempo, matar a saudade do clima, do queijo, da pinga e de pimenta-biquinho destas paragens. Fora tudo de bom que aconteceu naqueles dias em que tivemos um hóspede tão ilustre, houve uma situação em que protagonizamos que merece ser publicada.

No domingo ensolarado, véspera de sua partida ao litoral, Gustavo pediu-me emprestados a câmera fotográfica e alguns livros de fotografias antigas que seriam digitalizadas em seu computador pessoal. Claro que consenti e deixei-o trabalhar por um bom tempo, enquanto fiquei à mesa curtindo uma cerveja gelada com tira-gosto em prosa com a minha família.

Depois de algumas horas digitalizando as fotos do meu livro com a minha câmera, Gustavo me questionou acerca da possibilidade de diminuir a qualidade da imagens. Aparentemente ele propunha isso para facilitar seu envio por imeio posteriormente. Foi quando inocentemente afirmei, “deixe como está, pois quero ficar com uma cópia de qualidade delas”. Nesse momento, minha mulher maliciosamente colocou o dedo na ferida, afirmando que eu estaria me aproveitando do trabalho do compadre para ficar com uma parte do resultado de seu trabalho. Foi aí que dei por mim, vendo a simplicidade de uma relação de trabalhista de tipo capitalista.

Sou o proprietário da câmera e do livro de fotografia, isto é, sou o dono dos meios de produção. Meu compadre não tem nada disso, mas deseja se apropriar de determinados bens, que seriam as cópias digitalizadas das fotografias impressas no livro. Assim, cedi a ele o direito de usufruit dos meios de produção, garantindo a mim a propriedade dos mesmos mais parte do resultado da aplicação da força de trabalho do Gustavo. Rindo da situação – pois além do que já havia, a cena apresentou-se bizarra pelo fato de eu estar sentado na cabeceira da mesa enquanto ele se ajoelhava sobre o livro no canto da sala -, o almoço foi servido naquele momento quando aproveitei a deixa e disse: “e como sou um homem bom e generoso, vou permitir que você sente à mesa e coma algo antes de voltar ao trabalho”…

Este artigo é uma homenagem a Gustavo Alves Alonso Ferreira, autor de Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga.

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